Orgânicos: Tijucas do Sul lidera produção no Paraná

Redação

São 75 famílias envolvidas na atividade. Alface americana, brócolis, couve-flor e repolho são os principais produtos
Orgânicos em Tijucas do Sul

Tijucas do Sul é  o município com mais produtores de orgânicos em todo o Paraná: são 197 certificados, distribuídos em 75 famílias. No Brasil, é o Paraná que detém a liderança, com 3.737 certificações. A informação foi divulgada pela Agência Estadual de Notícias.

A produção em Tijucas do Sul é encabeça por alface americana, brócolis, couve-flor e repolho. Outros cultivos também são expressivos: cenoura, beterraba, inhame, batata salsa, gengibre, ervilha, vagem, tomate, pimentão e pimenta cambuci. Em menor escala, também há produção de morango e uva (suco e vinho).

Para novos produtores, a transição da agricultura convencional para a orgânica pode levar de 12 a 18 meses, a depender da cultura. Para isso, os produtores do município contam com o auxílio técnico do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná-Iapar-Emater (IDR-Paraná).

Os alimentos orgânicos são produzidos com uma metodologia que gera menos impacto ao meio ambiente, melhorando a qualidade de vida local. Para obter o selo de orgânico, o produtor precisa obter uma certificação, concedida por órgãos regulamentadores que estabelecem o que é permitido ou proibido no manejo. Na prática, a produção é regida por uma série de regras, regulamentadas no Brasil pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) através da Lei 10.831/2003, atualizada em março de 2021 pela Portaria nº 52.

 

 

Alimentos mais saudáveis para o consumo e o ecossistema

Algumas das características desse sistema de produção são a proibição do uso de agrotóxicos e o uso responsável do solo, água e outros recursos naturais. O resultado: alimentos mais saudáveis para o consumo e para o ecossistema local.

Segundo um levantamento da Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis), a alimentação com orgânicos vem registrando um grande crescimento no Brasil nos últimos anos. A alta foi potencializada pela pandemia: o setor registrou aumento de 30% nas vendas em 2020, movimentando R$ 5,8 bilhões. A estimativa é que, em 2021, o crescimento seja de 10%.

Magnun Rodrigo da Silva, agrônomo e extensionista local do IDR-Paraná, explica que a adaptação requer diversos cuidados. “Não é tão simples. Existe principalmente uma barreira cultural: o produtor precisa entender que ele tem que deixar de utilizar alguns tipos de insumo para ser um produtor orgânico. Mas é uma oportunidade tanto de negócio como de saúde. Ele vai vender produtos de qualidade, que estão cada vez mais chegando na mesa do consumidor paranaense”, afirma.

 

Da cidade para o campo: a trajetória de um casal de produtores de orgânicos de Tijucas do Sul

O casal João Camilo Valter e Marineia Rosa Gaudino Valter é parte importante desta história. Os dois levavam uma vida sedentária em Joinville, Santa Catarina. Ele era instrutor de auto-escola e ela costureira. Em busca de mais saúde, João Camilo começou a se preparar para uma cirurgia bariátrica e, na conversa com a nutricionista, percebeu que definitivamente teria que mudar seus hábitos alimentares.

“Resultado: eu disse para trocar de armário em casa, porque o que tínhamos fazia mal. E decidimos mudar de vida, achar um sitiozinho”, conta João Camilo. Em 2018, trocaram a casa por um terreno de 2,29 hectares em Tijucas do Sul, município da Região Metropolitana de Curitiba. E foi assim que João Camilo e Marineia retomaram o trabalho de seus pais na roça, mas agregando valor ao cultivo através da produção de orgânicos.

A saúde é vista como consequência tanto para o consumidor como para o produtor. Apenas com a mudança nos hábitos alimentares, em três anos, João Camilo Valter perdeu mais de 20 quilos. Os benefícios se estendem para Marineia, que reconhece a melhora na qualidade de vida como um todo.

“A alimentação é diferenciada, e hoje a gente tem menos custo e praticamente ganha mais do que quando morava em Joinville. Mas o maior ganho é a saúde”, endossa a produtora.

Em cerca de 1,6 hectares, o casal produz 25 opções de hortaliças, mas o brócolis e a cenoura são os carros-chefes. A maior parte é vendida para a Região Metropolitana de Curitiba: além de atender uma cooperativa e algumas lojas de orgânicos, os produtores entregam compras realizadas por e-commerce, mediadas por uma loja online. O casal tem planos de expansão, e pretende criar uma pequena agroindústria para comercializar temperos.

 

Nem só de pequenas propriedades vive a produção de orgânicos

O perfil dos produtores de orgânicos em Tijucas do Sul não é formado apenas pelas pequenas propriedades. Além de serem os maiores produtores da região, a empresa Orgânicos do Sul é a pioneira do cultivo hoje tradicional na cidade.

“O trabalho começou com o pai e a mãe, apostando no orgânico em um tempo em que ninguém acreditava, há 18 anos”, conta Flavio Henrique Setim, presidente da empresa. “O começo foi por uma situação complicada: meu pai teve uma intoxicação pelo uso de defensivos. Daí veio a ideia, que na época era uma coisa de louco. Não se acreditava nisso porque não conseguia produzir nada sem veneno. Aos poucos, o mercado foi expandindo”.

Após quatro anos de produção, os pais de Flavio, Irineu e Jociane, começaram a industrializar a produção, passando a comercializar os produtos já embalados. Dois anos depois, criaram a marca Orgânicos do Sul.

Hoje, são 60,5 hectares de terra que produzem uma média de 5 a 8 mil bandejas de produtos por dia. O mix da marca possui 11 produtos, capitaneados por alface americana, brócolis, couve-flor e cenoura. A empresa atende diversas redes de supermercados em Curitiba, além de mercados em Santa Catarina e no Norte do Paraná.

A produção conta com 23 funcionários: são 16 em campo e cinco no packing house, além dos pais de Flavio, que auxiliam em diversos setores. Com 25 anos e à frente da empresa há quatro, Flavio vislumbra uma expansão dos negócios. Além de investir em novos equipamentos, a família pretende, em breve, passar a produzir ovos orgânicos e vinho colonial.

 

Cooperativa alavanca vendas de pequenos agricultores em Tijucas do Sul

Para alavancar as vendas de pequenos produtores, desde 2017 Tijucas do Sul também conta com uma cooperativa de orgânicos, a Coorgânicos. Com 69 associados, o grupo está se estruturando para adentrar o mercado. Só em 2020, a cooperativa vendeu um montante de R$ 650 mil.

Nos últimos dois anos, participou do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que oferece alimentação e ações de educação nutricional em todas as etapas da educação básica pública. Escolas de Mandirituba, Piên, Quitandinha e Curitiba foram algumas das que receberam alimentos da região.

“Ainda estamos apenas no mercado institucional, com o PNAE. Estamos tentando ir para o mercado comum, chegar a Joinville. A maioria dos associados vende os produtos de forma particular, mas a ideia é que, em um futuro próximo, a gente comercialize bem pela cooperativa”, estima o produtor Lourival Pereira da Silva, presidente da Coorgânicos.

 

O processo para ganhar a certificação

Como forma de estimular e facilitar a agricultura orgânica no Paraná, os produtores familiares do Estado podem participar do Programa Paraná Mais Orgânico. O projeto, desenvolvido pela Superintendência de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti), auxilia em todo o processo de conversão da agricultura convencional para a orgânica, desde o período de transição até a emissão do certificado e comercialização dos produtos.

O intuito é reduzir os custos da certificação, um dos empecilhos para iniciar a atividade. Segundo o IDR-Paraná, o valor varia conforme o tipo de produção, área cultivada ou localização da propriedade, mas pode chegar a R$ 1,5 mil anuais. Com o programa, o processo é gratuito.

A iniciativa é uma parceria da Superintendência de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior com o IDR-Paraná, o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento e as universidades estaduais. Para participar, o agricultor interessado deve entrar em contato com um dos núcleos do programa.

Os orgânicos de Tijucas do Sul integram a série de reportagens Paraná que Alimenta o Mundo, desenvolvida pela Agência Estadual de Notícias (AEN). O material busca mostrar o potencial do agronegócio paranaense. Os textos são publicados sempre às segundas-feiras.

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