Leite A2 pode ser alternativa para quem tem alergia à bebida

Mariana Ohde


A restrição do consumo de leite pode afetar bastante a dieta. Além da versão natural, ele é ingrediente para outros alimentos. Por isso, a busca por alternativas que substituam a bebida é incessante para quem tem alguma restrição de consumo. No caso da alergia ao leite, que impede o consumo da proteína caseína, uma opção tem se destacado: o leite A2.

“Existem alguns estudos na área médica/nutricional de que as pessoas que são alérgicas ao leite, na verdade, são alérgicas à proteína beta-caseína do tipo A1, que é encontrada no leite. A beta-caseína tem dois tipos: o A1 e o A2. Se o leite tiver somente a beta-caseína A2, ele poderia ser consumido por pessoas alérgicas”, explica  Gregório Camargo, zootecnista, doutor em Genética e Melhoramento Animal e atualmente professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Segundo ele, os benefícios ainda estão em estudo.

A beta-caseína A1, durante a digestão, dá origem a um peptídeo chamado beta-casomorfina 7 (BCM-7). Alguns estudos indicam que esse peptídeo é o causador da alergia ao leite, além de maiores riscos de doenças coronarianas, maior incidência de diabetes tipo 1, síndrome do intestino irritado e até autismo e esquizofrenia.

O leite que possui somente beta-caseínas A2 – o leite A2 – não causa a produção dessa substância no corpo e, por isso, não desencadearia alergias. “Há muitos estudos que dizem que o leite A2 diminui riscos cardíacos, diabetes e até autismo. Mas todos precisam de maiores pesquisas para realmente comprovar o que já foi relatado”, explica o especialista.

Oportunidade

Com o leite A2 é possível também produzir derivados não-alergênicos – o que torna a sua produção uma oportunidade. Porém, sua produção exige um cuidado: o leite A2 é produzido a partir de vacas com genótipo A2A2 para o gene da beta-caseína. Por isso, para produzir o leite A2, é preciso que os animais passem por uma seleção. Ela começa com a coleta de material biológico e envio para um laboratório especializado. Lá, o DNA do animal é extraído e seu genótipo é identificado.

O produtor recebe os genótipos de seus animais (A1A1, A1A2 ou A2A2). “Após os animais serem genotipados no laboratório, permanecem no rebanho somente as vacas com o genótipo A2A2. Elas produzirão o chamado leite A2. Ou seja, um leite sem a beta-caseína do tipo A1”, explica Gregório. A ordenha desses animais deve ser feita separadamente, caso a propriedade possua animais com outros genótipos.

“Alguns estudos já mostraram que a raça Gir tem uma frequência do alelo A2 muito alta. O que é excelente para se fazer seleção assistida por marcadores. Alguns estudos ainda incipientes mostraram que a raça Guzerá também parece ser muito boa. Mas, via de regra, pode-se fazer produção de leite A2 com qualquer raça bovina”, explica Gregório.

O que acontece hoje, no mercado, é que o leite dos dois tipos de vaca é misturado, e por isso todos produtos disponíveis possuem a beta-caseína do tipo A1. O leite A2 já é comercializado em alguns países, entre eles Austrália, Oceania e Estados Unidos – onde a A2 Millk Company popularizou o produto. “Parece-me que o mercado brasileiro ainda não atentou para esse nicho”, afirma o professor. As iniciativas na área ainda são raras, mas elas existem.

Leite A2 paranaense

Em Witmarsum, colônia a cerca de 100 km de Curitiba, Egon Kruger tem um rebanho de cerca de 40 vacas aptas a produzir o leite A2. Hoje, 13 delas estão produzindo. “Recebo muitas solicitações, não somente de pessoas diagnosticadas como alérgicas à beta-caseína A1, mas de outras com algumas desordens que os médicos pedem para suprir o leite da alimentação. A última demanda foi para uma criança com autismo”, conta Egon.

“No momento, já possuo dois tanques de resfriamento e procedimentos estabelecidos, com registros específicos, para garantir que não aja contaminação do A2A2 com leite A1”, conta Egon. Porém, o leite ainda não é comercializado no mercado – por enquanto, a produção ainda é enviada à cooperativa local e misturada ao leite A1 e os produtores trabalham para aumentar o número e animais e viabilizar o envase. Criação Egon

“Apesar no excelente status sanitário do rebanho, inclusive a propriedade é certificada no programa nacional de controle e erradicação de tuberculose e brucelose (PNCEBT), não é permitida a comercialização de leite cru. E, atualmente, não tenho como construir uma usina de processamento, adequada à legislação”, conta.

“No Brasil ainda não há um sistema oficial que faça um controle e reconheça esta status. Com a organização das instituições, acredito que em breve haverá um meio de certificação ou atestação de que o leite seja 100% A2”.

Mas já há planos para expandir e colocar o leite no mercado. Egon diz que já estão sendo feitos acasalamentos direcionados para aumentar o número de vacas A2A2. “Mas este é um processo que demanda tempo. Pretendemos ter todo o rebanho A2A2. Aguardamos que o laticínio possa fazer uma linha específica para o processamento e comercialização”.

Alergia ao leite x intolerância à lactose

A intolerância impede que a pessoa consuma o açúcar do leite – a lactose. Seu consumo pode causar problemas gastrointestinais. “Ela consome o leite que tem a lactose e não consegue digerir. Pode ser que ela tenha desde criança ou no meio da vida ela pode surgir”, explica a nutricionista Giovana Leiner. A intolerância pode acontecer quando se passa muito tempo sem beber leite ou optando por versões sem lactose.

Já quem tem alergia ao leite é alérgico à proteína da bebida, a caseína. “O A1 que estaria relacionado à alergia ao leite e o A2 não. Mas isso ainda não está bem comprovado cientificamente”, explica. “Essa beta-caseína 1 poderia piorar ou ocasionar o diabetes e algumas doenças coronarianas e até algum problema de autismo. Então estes seriam alguns benefícios do leite A2: diminuir o risco de diabetes e doenças coronarianas”.

 

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Repórter no Paraná Portal
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