Agronegócio
Compartilhar

Pesquisa detecta agrotóxicos em alimentos ultraprocessados

O estudo analisou amostras de produtos ultraprocessados de origem animal e comuns na mesa dos brasileiros, como vina, empanado de frango e requeijão.

Redação - 28 de julho de 2022, 10:06

Geraldo Bubniak/AGB
Geraldo Bubniak/AGB

Um levantamento do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) identificou a presença de resíduos de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados comuns na mesa do brasileiro. Os resultados, divulgados hoje (28), constataram que 60% dos ultraprocessados de origem animal, como carnes e leites, analisados contêm resíduos de agrotóxicos.

A testagem científica analisou 24 amostras de produtos ultraprocessados de origem animal, de oito categorias de alimentos e que estão entre alguns dos mais consumidos pelos brasileiros, como vina, empanado de frango e requeijão

Os resultados foram bastante preocupantes, segundo o órgão. De 24 ultraprocessados derivados de carnes e leite analisados, 14 apresentaram resíduos de agrotóxicos.Todas as categorias de produtos de carne e 2 das 3 marcas de requeijão apresentaram resíduos desses compostos, entre eles o glifosato, agrotóxico que é considerado como "provável cancerígeno" pela ONU. Apesar de já ter sido proibido em diversos países, no Brasil segue sendo o agrotóxico mais utilizado. 

Os produtos onde se encontrou mais resíduos de agrotóxicos foram o Empanado de Frango (nugget) Seara, com 5 agrotóxicos, o Requeijão Vigor, com 4 agrotóxicos, e empatados no terceiro lugar do ranking do veneno, estão o Requeijão Itambé e o Empanado de Frango (nugget) Perdigão com 3 agrotóxicos.

Já as bebidas lácteas Nescau, Toddy e Pirakids e os iogurtes Activia, Nestlé e Danone não apresentaram resíduos. Ainda assim, a pesquisa do Instituto afirma que é possível que o produto analisado tenha dado resultado negativo para a presença de resíduos nesse lote, mas que o resultado seja diferente para outros lotes.

“Muitas pesquisas anteriores e inclusive o próprio programa de monitoramento da Anvisa identificaram agrotóxicos em frutas, legumes e verduras in natura, o que pode induzir o consumidor a pensar que esses alimentos são menos seguros do que os ultraprocessados. Nossas pesquisas vêm para expor essa lacuna e para cobrar do governo a realização do monitoramento, a fiscalização, e a ampla divulgação dos resultados das testagens de resíduos de agrotóxicos em alimentos, e a expansão das análises para incluir os ultraprocessados.”, afirma Carlota Aquino, diretora executiva do Idec.

O Instituto enviou notificações para todas as empresas responsáveis pelos produtos analisados em que foram encontrados agrotóxicos. Os dados também foram enviados ao MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e comunicados à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), apesar da agência ter a política de só monitorar a presença dessas substâncias em alimentos in natura.

Esta foi a segunda pesquisa do Idec sobre a presença de agrotóxicos em alimentos consumidos pelas famílias brasileiras. Em 2021, foi publicada a primeira edição do estudo, onde se evidenciou pela primeira vez um perigo duplo: além de causarem problemas crônicos de saúde, os ultraprocessados também estão contaminados com agrotóxicos.

O Idec encomendou a análise a um laboratório que é referência nacional, acreditado pelo Inmetro, credenciado no MAPA e utilizado pela Anvisa. O resultado foi organizado pela equipe multiprofissional do Instituto e transformado numa cartilha detalhada.

De olho na insustentabilidade do sistema alimentar

O alto uso de agrotóxicos é um problema sério, porém, não é o único ponto crítico de nosso sistema alimentar baseado na produção e consumo de ultraprocessados e produtos de origem animal. A expansão insustentável da agricultura, motivada em partes por hábitos alimentares desequilibrados, aumenta a vulnerabilidade humana e dos ecossistemas e tem como consequência a competição por terras e água. 

Para Rafael Arantes, coordenador do Programa de Consumo Sustentável do Idec, “é preciso avançar nas discussões em relação à inexistência ou lacuna de regulação sobre o assunto, e, especialmente, buscar que o Estado exerça efetivamente seu papel de monitorar e fiscalizar sobre a presença de agrotóxicos. Esses resultados servirão para dar transparência e demandar ações nos setores da sociedade civil, empresas públicas e privadas, e subsidiar as agências reguladoras.”