Agronegócio
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Pesquisadora do Paraná cria sorvete à base de tilápia; entenda a inovação

Segundo dados da ABIS ( Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes), cada brasileiro toma de 5,5 a 8 li..

Redação - 20 de dezembro de 2021, 12:32

Divulgação/UNIOESTE
Divulgação/UNIOESTE

Segundo dados da ABIS ( Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes), cada brasileiro toma de 5,5 a 8 litros do sorvete por ano – em 2020, foram consumidos 1 milhão de litros de sorvete no Brasil, o que faz do País o 6º consumidor da sobremesa no mundo.

Além de ser uma sobremesa refrescante para os dias quentes, o sorvete é um aliado de pacientes que enfrentam o câncer. Por minimizar os efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia, como úlceras e feridas na boca, alterações no paladar, enjoos e vômitos, ele passou a ser indicado para fazer parte da alimentação de pessoas que convivem com a doença.

Foi pensando em ajudar a filha que passava por um câncer gestacional que Ana Maria da Silva, doutoranda em Desenvolvimento Rural Sustentável no Campus de Marechal Cândido Rondon da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), desenvolveu um sorvete em que, com biotecnologia, conseguiu transformar a carne da tilápia em líquido, para assim inserir no sorvete e deixá-lo mais proteico.

“A minha filha teve câncer gestacional com quatro meses de gravidez, ela não conseguia comer. Então eu tive a ideia de fazer o sorvete pensando no sofrimento que era comer por causa das feridas na boca. O sorvete acalma as feridas e, desta maneira, ela consegue ingerir proteína”, explica Ana Maria.

O sorvete com hidrolisado de tilápia está em fase de desenvolvimento e a pesquisa tem como objetivo avaliar a qualidade nutricional e a segurança alimentar do produto. Ela é desenvolvida no Laboratório de Tecnologia e Processamento do Pescado e no Laboratório de Química de Alimentos do GEMAq (Grupo de Pesquisas em Manejo na Aquicultura), do curso de Engenharia de Pesca, na Unioeste no campus de Toledo.

DO QUE É FEITO O SORVETE DE TILÁPIA?

Segundo ela, de maneira bastante simples, o produto é feito a partir de uma base de sorvete com hidrolisado da CMS (carne mecanicamente separada), que é resultado de um processo de aproveitamento da carne não retirada pela indústria responsável em filetar a tilápia.

Este é apenas um dos resultados dos 13 anos de pesquisa de Ana Maria. Outro trabalho em desenvolvimento é a CMS enlatada, que agrega valor ao produto e já está disponibilizada pronta para o consumo. Ainda é possível, a partir da CMS, produzir fishburguer, almôndegas, empanados, inserir em bolos, biscoitos e outros produtos.

Utilizando a CMS, a pesquisadora deseja transformar a tilápia em um pó que possa suprir as necessidades nutricionais de forma rápida e simples, como o desenvolvimento de uma sopa proteica que poderá ser levada até mesmo para a estação espacial. Outra ideia é um concentrado proteico para ser utilizado na substituição do leite para pessoas alérgicas.

“A tilápia é um pescado que tem um sabor suave e agradável ao paladar, além de ter muitas proteínas e vitaminas. É um pescado que já tem uma grande aceitação no mercado e a proposta é de se usar melhor todo o produto, aproveitando a carne não só da tilápia, mas também de outras espécies, para que sejam aproveitadas as carnes que ainda sobram após a retiradas dos filés”, explica Ana Maria.

De acordo com o orientador da doutoranda, Arlindo Fabrício Corrêia, os produtos são pensados para integrar pesquisa e extensão para promover o desenvolvimento local.

“Neste tipo de pesquisa não buscamos apenas um produto, mas estabelecer conexões entre a produção de alimentos, pautado na sustentabilidade e na geração de renda, com resultados que promovam uma alimentação segura e saudável, criando então uma rede de atores que partem da produção e industrialização, até alcançar o consumidor final”, destaca.

PESQUISA DO PRODUTO FOI INICIADA EM 2008

Ana Maria começou sua pesquisa ainda na graduação, em 2008, quando se viu envolvida no programa de inserção do pescado na alimentação escolar no município de Marechal Cândido Rondon, transformando a tilápia do pequeno produtor em CMS e, a partir disto, elaborando produtos saudáveis para as crianças das escolas municipais.

A acadêmica fez o seu mestrado no Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), da Marinha do Brasil, trabalhando com o desenvolvimento de produtos à base de pescados marinhos com a comunidade de pescadores artesanais do município de Arraial do Cabo (RJ).

É a partir dos produtores que as pesquisas são desenvolvidas, como no caso da CMS e do filé de tilápia enlatado. “Tivemos a ideia de uma construção coletiva, junto aos produtores e a agroindústria do oeste paranaense. Quando se desenvolve um produto, é necessário avaliar a obtenção da matéria-prima, e esses produtos foram pensados para um maior aproveitamento das tilápias”, aponta a doutoranda.

Outro produto que ela pesquisa é o enlatado de pacu, que foi uma construção conjunta com os produtores de pacus em tanques-rede do Lago de Itaipu, para agregar valor ao pescado e ter um produto diferencial no mercado consumidor. Assim como a coxinha e o dorso de rã enlatada, que é uma parceria de dez anos com a comunidade de ranicultores de Goiás, desenvolvendo um produto mais elaborado para a exportação.

Um dos grandes diferenciais dos produtos enlatados é o tempo e a forma de conservação. Eles não necessitam de refrigeração e podem ficar até quatro anos na prateleira.

3° INTERNATIONAL FISH CONGRESS

Em novembro deste ano, Ana Maria expôs a pesquisa com o sorvete e os produtos à base de tilápia no 3° International Fish Congress & Fish Expo, que aconteceu em Foz do Iguaçu e contou com a presença da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.

Para Ana, depois de vários anos de pesquisas, ver os produtos recebendo reconhecimento é motivo de orgulho. “Cada parabéns me emociona porque cada produto foi feito com o coração”, afirma.

O orientador da doutoranda destaca a importância dos pesquisadores na formulação de novos conhecimentos e no desenvolvimento do País. “O que motiva o pesquisador é a compreensão de que a ciência proporciona o desenvolvimento de pessoas e lugares, valorizando os saberes locais e apontando soluções eficientes e inovadoras”, salienta Arlindo.