Depoimentos da Carne Fraca revelam ameaças e irregularidades em frigoríficos

Mariana Ohde

carne bovina - eua - tereza cristina

Com informações da BandNews Curitiba

Depoimentos de testemunhas de acusação da Operação Carne Fraca, divulgados nos últimos dias, trazem relatos de ameaças e de como os frigoríficos investigados fraudavam produtos. Alguns deles usavam carnes estragadas, sem rotulagem e sem a refrigeração adequada.

A operação, deflagrada em março, investiga o envolvimento de fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em um esquema de liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos.

A operação prendeu 36 pessoas. Destas, 12 continuam detidas preventivamente. Uma das testemunhas de acusação do processo, Daiane Marcela Maciel, auxiliar de inspeção do frigorífico Peccin, afirmou, em audiência, que a fórmula oficial de produção de embutidos era sistematicamente alterada, com uso frequente de carne vencida.

“Tinha bastante sujeira, coisa vencida, eles não usavam a formulação que estava na parede, que era para os funcionários usarem. Eles usavam outra formulação. Já vi, também, contêiner sem refrigeração nenhuma com carga dentro. Para ser produzida”, disse, afirmando que a carne ficou mais de uma semana no local.

A Peccin teve unidades interditadas em Jaraguá do Sul (SC) e em Curitiba. O selo de Inspeção Federal (SIF) foi cassado definitivamente. A empresa nega as irregularidades.

Em outra ação, a testemunha de acusação Kelli Regina Marcos, funcionária do Frigomax de Londrina, no norte do Paraná, contou que foi abordada por um fiscal do Mapa, que solicitou vantagens indevidas. A funcionária relatou que o fiscal Luiz Carlos Zanon Junior fez, pelo menos, vinte pedidos de pagamento de propina diretamente a ela. Ela ameaçava parar a produção na empresa.

“O que pudesse dar, ele queria”, contou, alegando que não cedeu às chantagens. “Todo mundo sabia no frigorífico que ele fazia esse pedido. Ele parava a produção e dizia que a empresa não colaborava com ele, então ele não tinha que colaborar com ninguém”. Kelli disse que o fiscal alegava que o dinheiro seria destinado a despesas pessoais, como “ajuda de custo”.

O processo em questão trata de irregularidades praticadas por servidores públicos federais da Unidade Técnica Regional de Agricultura de Londrina. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a organização, além de obter vantagens ilícitas, beneficiou indevidamente várias empresas do norte do estado.

Kelli Regina Marcos ainda contou que foi ameaçada pelo fiscal caso ela não colaborasse financeiramente. “Muitas vezes, ele entrava na minha sala e falava que, se a gente não agilizasse o lado dele, ele ia mandar me prender, porque ele era um agente público federal e tinha poder para isso”, disse.

Kelli também afirmou que o fiscal a ameaçou de morte, dizendo, a um veterinário da empresa, que ela amanheceria com “a boca cheia de formigas” caso “falasse demais”.

A Carne Fraca levou o Mapa a afastar 33 servidores envolvidos no esquema de corrupção. Além disso, vários países chegaram a suspender a importação de carne brasileira após o episódio.

A operação é julgada pelo juiz Marcos Josegrei da 14ª Vara Federal em Curitiba. Ao todo, 57 pessoas foram denunciadas em seis ações penais.

Os envolvidos respondem por corrupção passiva e ativa, prevaricação (que é o crime cometido por funcionário público quando ele descumpre uma obrigação), concussão (que é quando o funcionário público exige de outra pessoa algum tipo de vantagem indevida), violação de sigilo funcional, peculato (desvio de dinheiro por funcionário público), organização criminosa e advocacia administrativa.

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