Retrospectiva: Carne Fraca na economia e na mesa do consumidor

Plantao Agronegocio


Repórter Narley Resende

Uma operação que surgiu no vácuo da Lava Jato, também com origem no Paraná, e que levou à suspensão da exportação de carne brasileira para pelo menos 93 países. Grandes importadores potenciais, como Rússia e Estados Unidos, ainda não voltaram a importar, por causa da operação e outros motivos.

Dezenas de outros países, como a China e membros da União Europeia, também suspenderam importação, mas depois voltaram atrás.

Até então, o País era o maior exportador de carne bovina do mundo, com 15 bilhões de dólares vendidos em 2016.

À primeira vista, uma investigação que colocaria em cheque um grande núcleo de corrupção brasileira, que envolveria a poderosa JBS em um esquema de pagamentos de propina que escondia irregularidades que levavam carne podre à mesa do consumidor.

Operação Carne Fraca
Carro da PF em frente ao Mapa (Valter Campanato/Ag Brasil)

A Operação Carne Fraca mobilizou mil e cem policiais federais, se tornando a maior operação da história da Polícia Federal.

Foram 40 estabelecimentos, entre frigoríficos e fábricas de produtos alimentícios, alvos da ação do dia 17 de março, que identificou irregularidades em 21 empresas do Paraná, Minas Gerais e Goiás.

Entre os maiores frigoríficos, três unidades eram da JBS, mas também havia outras entre as principais empresas do país, como BRF.

Passado o alarde inicial, e até superados exageros, como a suposta existência de papelão no alimento, a investigação se mostrou reduzida. Uma movimentação financeira fruto de corrupção menor do que se divulgava e irregularidades que se limitam, aparentemente, ao suborno de fiscais para que aliviassem “detalhes” nas regras de produção, comércio e transporte de alimentos.

Declarações do delegado da Polícia Federal Maurício Moscardi Grilo, que relatou uso de papelão em carne moída, carne podre, vencida e até urina em proteínas consumidas pela população, geraram um escândalo internacional.

Gravações telefônicas divulgadas no processo conduzido pelo juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba, vieram alimentar a repercussão da operação. Em uma delas o dono do Frigorífico Larissa, em Iporã, no Paraná, aparentemente determina que um funcionário use carne vencida na produção.

Entre os áudios mais chocantes está o da conversa mantida entre um gerente de produção da JBS e um funcionário no Paraná. Foi a partir dele que a palavra “papelão” foi estampada em dezenas de manchetes pelo país.

Outro destaque foi acusação de fraude na composição da proteína consumida por alunos da rede estadual de ensino do Paraná. A merenda escolar, de Curitiba e região metropolitana, estava comprometida por falta de fiscalização, segundo o delegado da Polícia Federal.

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A Polícia Federal indica irregularidades como re-embalagem de produtos vencidos; excesso de água; assinaturas de certificados para exportação fora da sede da empresa e do Mapa, sem checagem; uso de produtos cancerígenos em doses mais altas que o recomendado, entre outras.

‘Não é bem assim’

Em meio a tanta repercussão, uma onda de fakenews, as notícias falsas, que em 2017 estiveram mais fortes do que nunca. Mais tarde, quando a população já parecia convencida do escândalo e dos riscos, casos como o do papelão se provaram menos graves. Até peritos da própria PF, por meio da associação da categoria, criticaram a operação.

O material a que os funcionários se referiam era usado no acondicionamento da embalagem e não na composição da carne.

Logo depois da operação, em março, o ministro da Agricultura Blairo Maggi fez vistorias nas fábricas, disse que houve “fantasias” e que é uma “idiotice” achar que os produtores colocariam, por exemplo, papelão em embutidos, como foi apontado pelas investigações.

Brasília - Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, acompanha em supermercado fiscalização de produtos feitos de carnes (José Cruz/Agência Brasil)
Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, acompanha em supermercado fiscalização de produtos feitos de carnes (José Cruz/Agência Brasil)

Mais recentemente, já no final de 2017, o ministro disse que os volumes e os valores das vendas da carne brasileira foram recuperados no mercado internacional. Segundo o ministro, o efeito da Carne Fraca na balança comercial “é desprezível neste momento”.

Logo após a operação, a média diária das exportações desses produtos caiu de aproximadamente 60 milhões de dólares para 74 mil nas primeiras semanas.

Logo que a operação foi deflagrada, o Brasil recebeu 374 comunicados oficiais envolvendo demandas de 93 países. Hoje, apenas três países ainda não retomaram totalmente as importações: Zimbábue, Trindade e Tobago e Santa Lúcia.

Segundo o ministério, os mercados atualmente abertos representaram cerca de 14 bilhões de dólares ou 99,8% dos valores exportados em carnes no ano de 2016.

Brasília - Após a Operação Carne Fraca, o presidente Michel Temer jantou em churrascaria com ministros e embaixadores. A tentativa de mostrar que a carne brasileira era boa, no entanto, acabou virando uma gafe. A churrascaria servia carnes importadas, segundo o jornal O Estado de S. Paulo (José Cruz/Agência Brasil)
Brasília – Após a Carne Fraca, o presidente Michel Temer jantou em churrascaria com ministros e embaixadores. A tentativa de mostrar que a carne brasileira era boa, no entanto, acabou virando uma gafe. A churrascaria servia carnes importadas, segundo o jornal O Estado de S. Paulo (José Cruz/Agência Brasil)

Delatores, fiscais e corrupção 

Maiores ou menores, crimes e irregularidades foram identificados. Muitos dos crimes já foram confessados por delatores e apontados em ações judiciais.

Entre os 60 réus, é possível dizer que a Carne Fraca teve quatro personagens-chave em 2017. Um quinto elemento foi preso na segunda fase da operação, em maio, Francisco Carlos de Assis, ex-superintendente regional do Ministério da Agricultura em Goiás também foi detido. Entre os quatro pivôs, ambos do Paraná, dois deles têm o mesmo primeiro nome “Daniel”.

Um é Daniel Gouvêa Teixeira, chefe de inspeção do Ministério da Agricultura no Paraná, que denunciou o esquema. Foi a partir da denúncia feita por ele que a Polícia Federal deu origem à investigação.

Na época da deflagração da operação, em entrevista à BandNews FM o próprio autor da denúncia minimizou as consequências para os consumidores, que cogitavam parar de comprar a carne brasileira. O proprietário de um restaurante em Curitiba, por exemplo, chegou a anunciar o boicote em outdoors.

O outro Daniel é Daniel Gonçalves Filho, apontado como líder no esquema de recebimento de propina de empresas,  teriam oferecido dinheiro ou produtos, de maneira deliberada, sem extorsão, para que fiscais fizessem vistas grossas às regras logísticas e sanitárias.

A corrupção de funcionários públicos seria o verdadeiro foco investigado na Operação Carne Fraca. Gonçalves Filho foi superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016.

A terceira personagem principal no ano é a Maria do Rocio, ex-chefe do Serviço de Inspeção de Produtos Animais no Paraná, flagrada em gravações telefônicas e também apontada pela PF como líder do esquema.

Flavio Cassou
Foto: reprodução / JF-PR

O delator

Por fim, um investigado apelidado de “Homem da JBS na Operação Carne Fraca”, é o quarto personagem do ano. O médico veterinário Flávio Cassou, delator da operação, deixou no dia 19 de dezembro a prisão em que estava detido desde março deste ano, depois de pagar fiança de 70 mil reais. Flávio Cassou confessou que pagou propina a fiscais do Ministério da Agricultura e a políticos, principalmente a nomes ligados ao PMDB e PP.

Segundo ele, os repasses eram feitos mensalmente por ordem da matriz da empresa de Joesley Batista. Entre os principais beneficiários das propinas estavam Daniel Gonçalves, Maria do Rocio e o fiscal agropecuário Renato Menon.

Cassou apontou que anotava o dinheiro que entregava em uma agenda e que os valores eram destinados todos os meses aos agentes.

A delação de Flávio Cassou causou o desmembramento do processo e remessa dele para o Supremo Tribunal Federal.

Cassou, que era gerente da JBS/Seara na Lapa, região metropolitana de Curitiba, citou nominalmente o deputado Sergio Souza, do PMDB do Paraná, como um dos beneficiários da propina paga por empresas da Carne Fraca.

Sérgio Souza negou as acusações. O deputado federal Osmar Serraglio, do PMDB do Paraná, também teve o nome envolvido na operação. Flagrado em grampo telefônico numa conversa com o suposto líder do esquema, Daniel Gonçalves Filho, afirmou anteriormente que o nome do superintendente foi chancelado pela bancada do PMDB, mas nega ter sido o responsável pela indicação.

Na conversa gravada pela PF, Serráglio chama Daniel de “Grande Chefe”, e pede que ele veja o que pode ser feito no caso de um frigorífico que estaria passando por fiscalização ‘mais rigorosa’ que o normal. Daniel então manda que Maria do Rocio tome providências. 

Diálogo entre Serráglio e Daniel Filho:

Osmar Serráglio: grande chefe tudo bom?
Daniel Filho: tudo bom
Osmar: viu, tá tendo um problema lá em Iporã, cê tá sabendo?
Daniel: não
Osmar: o cara lá, que..o cara que tá fiscalizando lá…apavorou o Paulo lá, disse que hoje vai fechar aquele frigorífico…botõ a boca…deixou o Paulo apavorado, mas pra fechar tem o rito, num tem? Sei lá. Como que funciona um negócio desse?
Daniel: deixa eu ver o que acontecendo…tomar pé da situação lá tá…falo com o senhor

A Polícia Federal, no entanto, entendeu que não havia provas para implicar Osmar Serráglio, então ministro da Justiça de Michel Temer. 

E agora?

A Operação Carne Fraca teve concluída a fase dos depoimentos de testemunhas no dia 19 de dezembro de 2017. Ao todo são 60 réus. Até agora, nas seis ações somadas foram indicadas 630 testemunhas, além dos 60 interrogatórios dos réus.

Neste início de 2018, os processos caminham para a reta final. Podem ser feitas diligências complementares se necessário, além das alegações finais, e, por fim, as sentenças do juiz Marcos Josegrei as Silva.

Paralelamente, novas ações podem surgir no Supremo Tribunal Federal na medida em que o processo envolva políticos com mandato.

Presos

A Operação Carne Fraca mantém atualmente sete presos preventivos desde o dia 17 de março. São fiscais, donos de frigoríficos. Ainda estão presos Daniel Gonçalves, ex-superintendente do Mapa; Maria do Rocio, ex-chefe do Serviço de Inspeção de Produtos Animais no Paraná; Juarez José Ide Santana, chefe do Ministério em Londrina; Idair Peccin, dono do frigorífico Peccin; Paulo Rogério Sposito, dono do frigorífico Larissa; e os fiscais Luiz Carlos Zanon Junior e Eraldo Cavalcanti Sobrinho.

Os frigoríficos Peccin e Larissa permanecem interditados. 

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