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Retrospectiva: Carne Fraca na economia e na mesa do consumidor

Repórter Narley ResendeUma operação que surgiu no vácuo da Lava Jato, também com origem no Paraná, e que levou à ..

25 de dezembro de 2017, 08:08

 Felipe Santiago é uma das grandes revelações do sertanejo em 2017. [foto: reprodução/You Tube]
Felipe Santiago é uma das grandes revelações do sertanejo em 2017. [foto: reprodução/You Tube]

Repórter Narley Resende

Uma operação que surgiu no vácuo da Lava Jato, também com origem no Paraná, e que levou à suspensão da exportação de carne brasileira para pelo menos 93 países. Grandes importadores potenciais, como Rússia e Estados Unidos, ainda não voltaram a importar, por causa da operação e outros motivos.

Dezenas de outros países, como a China e membros da União Europeia, também suspenderam importação, mas depois voltaram atrás.

Até então, o País era o maior exportador de carne bovina do mundo, com 15 bilhões de dólares vendidos em 2016.

À primeira vista, uma investigação que colocaria em cheque um grande núcleo de corrupção brasileira, que envolveria a poderosa JBS em um esquema de pagamentos de propina que escondia irregularidades que levavam carne podre à mesa do consumidor.

Operação Carne Fraca Carro da PF em frente ao Mapa (Valter Campanato/Ag Brasil)Brasília - Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, acompanha em supermercado fiscalização de produtos feitos de carnes (José Cruz/Agência Brasil) Ministro da Agricultura, Blairo Maggi, acompanha em supermercado fiscalização de produtos feitos de carnes (José Cruz/Agência Brasil)Brasília - Após a Operação Carne Fraca, o presidente Michel Temer jantou em churrascaria com ministros e embaixadores. A tentativa de mostrar que a carne brasileira era boa, no entanto, acabou virando uma gafe. A churrascaria servia carnes importadas, segundo o jornal O Estado de S. Paulo (José Cruz/Agência Brasil) Brasília - Após a Carne Fraca, o presidente Michel Temer jantou em churrascaria com ministros e embaixadores. A tentativa de mostrar que a carne brasileira era boa, no entanto, acabou virando uma gafe. A churrascaria servia carnes importadas, segundo o jornal O Estado de S. Paulo (José Cruz/Agência Brasil)

O delator

Por fim, um investigado apelidado de “Homem da JBS na Operação Carne Fraca”, é o quarto personagem do ano. O médico veterinário Flávio Cassou, delator da operação, deixou no dia 19 de dezembro a prisão em que estava detido desde março deste ano, depois de pagar fiança de 70 mil reais. Flávio Cassou confessou que pagou propina a fiscais do Ministério da Agricultura e a políticos, principalmente a nomes ligados ao PMDB e PP.

Segundo ele, os repasses eram feitos mensalmente por ordem da matriz da empresa de Joesley Batista. Entre os principais beneficiários das propinas estavam Daniel Gonçalves, Maria do Rocio e o fiscal agropecuário Renato Menon.

Cassou apontou que anotava o dinheiro que entregava em uma agenda e que os valores eram destinados todos os meses aos agentes.

A delação de Flávio Cassou causou o desmembramento do processo e remessa dele para o Supremo Tribunal Federal.

Cassou, que era gerente da JBS/Seara na Lapa, região metropolitana de Curitiba, citou nominalmente o deputado Sergio Souza, do PMDB do Paraná, como um dos beneficiários da propina paga por empresas da Carne Fraca.

Sérgio Souza negou as acusações. O deputado federal Osmar Serraglio, do PMDB do Paraná, também teve o nome envolvido na operação. Flagrado em grampo telefônico numa conversa com o suposto líder do esquema, Daniel Gonçalves Filho, afirmou anteriormente que o nome do superintendente foi chancelado pela bancada do PMDB, mas nega ter sido o responsável pela indicação.

Na conversa gravada pela PF, Serráglio chama Daniel de “Grande Chefe”, e pede que ele veja o que pode ser feito no caso de um frigorífico que estaria passando por fiscalização 'mais rigorosa' que o normal. Daniel então manda que Maria do Rocio tome providências. 

Diálogo entre Serráglio e Daniel Filho:

Osmar Serráglio: grande chefe tudo bom?

Daniel Filho: tudo bom

Osmar: viu, tá tendo um problema lá em Iporã, cê tá sabendo?

Daniel: não

Osmar: o cara lá, que..o cara que tá fiscalizando lá…apavorou o Paulo lá, disse que hoje vai fechar aquele frigorífico…botõ a boca…deixou o Paulo apavorado, mas pra fechar tem o rito, num tem? Sei lá. Como que funciona um negócio desse?

Daniel: deixa eu ver o que acontecendo…tomar pé da situação lá tá…falo com o senhor

A Polícia Federal, no entanto, entendeu que não havia provas para implicar Osmar Serráglio, então ministro da Justiça de Michel Temer. 

E agora?

A Operação Carne Fraca teve concluída a fase dos depoimentos de testemunhas no dia 19 de dezembro de 2017. Ao todo são 60 réus. Até agora, nas seis ações somadas foram indicadas 630 testemunhas, além dos 60 interrogatórios dos réus.

Neste início de 2018, os processos caminham para a reta final. Podem ser feitas diligências complementares se necessário, além das alegações finais, e, por fim, as sentenças do juiz Marcos Josegrei as Silva.

Paralelamente, novas ações podem surgir no Supremo Tribunal Federal na medida em que o processo envolva políticos com mandato.

Presos

A Operação Carne Fraca mantém atualmente sete presos preventivos desde o dia 17 de março. São fiscais, donos de frigoríficos. Ainda estão presos Daniel Gonçalves, ex-superintendente do Mapa; Maria do Rocio, ex-chefe do Serviço de Inspeção de Produtos Animais no Paraná; Juarez José Ide Santana, chefe do Ministério em Londrina; Idair Peccin, dono do frigorífico Peccin; Paulo Rogério Sposito, dono do frigorífico Larissa; e os fiscais Luiz Carlos Zanon Junior e Eraldo Cavalcanti Sobrinho.

Os frigoríficos Peccin e Larissa permanecem interditados.