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Joelmir Tavares - Folhapress

Luciano Huck - Presidenciável - Eleições 2022 - Candidato - Datafolha - Moro - Bolsonaro - Lula

Luciano Huck intensifica articulação para ser presidenciável em 2022

O discurso oficial é o de que ele está imerso em uma jornada de busca por conhecimento, mas a expressão “candidato a candidato” passou a ser vista como mais apropriada para o momento atual de Luciano Huck, 48.

O empresário e apresentador da TV Globo, que esteve perto de concorrer ao Planalto em 2018, intensificou sua movimentação política nos últimos meses, em sinal de que a candidatura é uma vontade mais viva do que nunca.
Aliados de Huck ouvidos pela Folha confirmam que ele “está considerando” a possibilidade, embora a decisão concreta só deva vir mais tarde.

Com a preparação, ele chegaria a 2022 com a ideia amadurecida, diferentemente do que ocorreu em 2018, quando acabou atropelado por acontecimentos e concluiu prescindir de uma estrutura sólida o suficiente para encarar uma batalha presidencial.

Gestos recentes, tanto de iniciativa dele quanto de atores externos, indicam estar em curso o surgimento de uma campanha para ocupar o espaço do centro na sucessão de Jair Bolsonaro (PSL), que já disse que deve tentar a reeleição.

Huck desde 2017 se articula ancorado no seu engajamento em movimentos que pregam renovação política. Ele agora estabeleceu um ritmo acelerado de conversas com líderes políticos e partidários, entrevistas à imprensa, palestras em eventos para formadores de opinião e aparições públicas para debater temas urgentes, como a crise na Amazônia.

A face política do apresentador do “Caldeirão do Huck”, o programa das tardes de sábado que ele comanda na Globo há 19 anos, pode ser acompanhada nas redes sociais. Ele se define nos perfis como “apresentador de TV e curioso”.

Ali, diante de seus 48 milhões de seguidores, posicionamentos de tom mais sério dividem espaço com fotos da mulher, a apresentadora Angélica, junto com os três filhos, vídeos de sua atração na Globo e selfies com amigos como Neymar.

Nos bastidores, o caldeirão de Huck também ferve. Ele passou a aproveitar as muitas viagens para gravações (chega a visitar três estados por semana) para reuniões com governantes e influenciadores.

Foi assim, por exemplo, que esteve neste ano com os governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e do Paraná, Ratinho Junior (PSD). No encontro com o filho do apresentador Ratinho, Huck estava com Junior Durski, criador do Madero, rede de hamburguerias da qual é sócio.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), também esteve no rol dos que sentaram com Huck. Há três meses, o tucano participou de evento no Instituto Criar, ONG fundada em 2003 pelo apresentador.

A lista de interlocutores reflete proximidade com partidos que buscam se posicionar ao centro do espectro político.

Hoje sem filiação, o comunicador estabeleceu pontes com o Cidadania, antigo PPS (destino mais provável caso efetive a candidatura), o DEM (jantou com o presidente da legenda, ACM Neto) e o PSDB (onde tem a bênção de Fernando Henrique Cardoso, há tempos entusiasta de uma aventura eleitoral sua).

FHC, que costuma ser ouvido por Huck em momentos decisivos, continua reiterando simpatia à candidatura para a Presidência da República.

O núcleo embrionário em torno da ideia reúne figuras experimentadas: Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central (governo FHC); Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo (que passou por PMDB, PSDB, PPS e PSB e hoje está sem partido); e Roberto Freire, dirigente do Cidadania, disposto a tudo para garantir o “passe” do novato.

Também orbitam o projeto: o cientista político Leandro Machado, do Agora!, movimento que o apresentador integra desde 2017 e que formula políticas públicas; e o empresário Eduardo Mufarej, que teve a ajuda de Huck para fundar o RenovaBR, curso para novos políticos que depende de doações privadas e se diz suprapartidário.

Atuando como assessores informais, eles se encarregam de dar conselhos ao apresentador e de aproximá-lo de potenciais aliados, tanto no ambiente político quanto no meio empresarial e no setor não governamental.

Nessa mesma toada, Huck adota publicamente um discurso de conciliação e respeito às diferenças. Há alguns dias, em um seminário promovido pela revista Exame em São Paulo, disse ser uma pessoa “com a cabeça aberta”, avessa à lógica de polarização.

À esquerda, contudo, ele direcionou ataques desde o segundo turno da eleição de 2018. Quando a disputa estava entre Bolsonaro e o petista Fernando Haddad, Huck falou: “No PT eu nunca votei e jamais vou votar. Isso é fato”.

No imbróglio entre Tabata Amaral e a cúpula do PDT de Ciro Gomes, o apresentador ficou do lado da deputada federal, eleita com o apoio da escola de políticos RenovaBR, uma das organizações de renovação que ele apadrinha.

No mesmo evento da Exame, no qual deixou na plateia a impressão de já falar como presidenciável, Huck alfinetou Lula (PT), ao criticar a retórica do ex-presidente. “O ‘nunca antes na história deste país’ só foi possível porque antes disso teve um governo que organizou e equilibrou o Estado”, afirmou, em alusão à gestão FHC e ao Plano Real.

Na palestra, Huck apresentou à plateia de executivos um conceito com jeito de slogan de campanha: disse acalentar um “sonho maior” para o Brasil, uma plataforma que envolveria diminuição da desigualdade, eficiência da gestão e crescimento econômico aliado a programas sociais.

O discurso que vem sendo testado pelo apresentador é uma evolução das ideias que difunde desde 2017, quando despontou como provável concorrente ao Planalto. Nas falas, sempre ressaltou a defesa da educação e da igualdade de oportunidades.

O “país afetivo” a que ele se refere nas declarações seria o reflexo de uma visão híbrida, nem de direita nem de esquerda, que conciliaria valores liberais na economia com um dedo do Estado em políticas de enfrentamento à miséria.

Ele emerge como “um excelente candidato para derrotar a disjuntiva nefasta entre lulopetismo e bolsonarismo”, na opinião de Freire. “Tem uma boa visão do mundo e compreensão política dos problemas brasileiros”, acrescenta o apoiador.

Enquanto tenta se colocar como alguém que circula bem da Faria Lima (a avenida do PIB em São Paulo) aos grotões do país (onde entrevista anônimos para quadros de seu programa), Huck e seus correligionários sondam o terreno.

E no caminho há o governador paulista, João Doria (PSDB), apontado também como candidato a preencher a lacuna do centro. Ainda que o pleito esteja distante, interlocutores do apresentador já fazem cálculos e projeções de cenário. Dizem que ambos têm pontos fracos e fortes.

Huck tem em suas mãos pesquisas demonstrando que é conhecido nacionalmente (graças a uma carreira de mais de 20 anos na TV) e goza de popularidade da classe A à E. Numa eleição, encarnaria a figura de outsider e conseguiria angariar apoio das celebridades de quem é amigo.

Doria, por outro lado, tem armas competitivas: controla a máquina do principal estado do país e a estrutura do PSDB, acumula experiência de gestão, rivaliza à altura em habilidade de comunicação e sabe também manejar o apoio de empresários e artistas.

Huck e Doria, não por acaso, viraram alvo de ataques de Bolsonaro –e pelo mesmo motivo. Em agosto, o presidente disse que ambos se aproveitaram da “teta” do BNDES, por terem comprado jatinhos a juros subsidiados pela instituição.

O apresentador, em resposta, sustentou que a negociação foi feita dentro da lei. Depois decidiu se calar sobre o episódio, no estilo “quando um não quer, dois não brigam”.

Recentemente, disse a amigos ter ficado com a impressão de que o escândalo pretendido por Bolsonaro teve efeito passageiro, já que, nas incursões país afora para gravações, ele não ouviu provocação ou comentário sobre o tema.

O entorno de Huck está consciente de que polêmicas nas quais ele se envolveu ao longo da vida voltarão à tona no contexto de guerra eleitoral. Além do jatinho, o grupo antevê adversários resgatando a amizade do apresentador com o deputado Aécio Neves (PSDB-MG).

Para isso o posicionamento também já está dado: Huck era, nas palavras de um interlocutor, “amigo de balada” d o tucano, que caiu em desgraça após a Lava Jato. O apresentador disse que sentiu “enorme tristeza” com o que foi revelado pelas investigações e que se decepcionou com Aécio, para quem fez campanha na eleição presidencial de 2014.

A parte negativa de seu currículo tem ainda uma condenação por dano ambiental em sua casa de Angra dos Reis (RJ), pela qual pagou multa de R$ 40 mil, afirmações do passado consideradas machistas e a vez em que supostamente estimulou turismo sexual no Brasil durante a Copa de 2014.

Antes de revisitar essas questões, ele terá que resolver sua situação na Globo, onde tem contrato até 2021. Questionada, a emissora não comentou o caso específico de Huck, mas disse ter “uma política interna sobre eleições ainda mais rigorosa do que a lei”.

Segundo a nota, o canal “respeita a liberdade de manifestação de pensamento, expressão e informação” dos funcionários, “mas entende que posicionamento pessoal e profissional não podem se misturar”.

A Globo afirmou que, no período que antecede anos eleitorais, lembra a profissionais de seus quadros “sobre as regras que, entre outras restrições, impedem que contratados da emissora que desejem se candidatar permaneçam no ar em qualquer programa”.

Procurado pela Folha de S.Paulo, Huck preferiu o silêncio. Sua assessoria informou que ele não conseguiria dar entrevista. A primeira das perguntas enviadas a ele era: “O sr. quer ser candidato a presidente da República em 2022?”.

Jair Bolsonaro - Bolsas - Pesquisa - Educação

Médicos retiram sonda nasogástrica mas Bolsonaro segue sem previsão de alta

Os médicos retiraram a sonda nasogástrica do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que apresenta evolução positiva em sua recuperação, segundo boletim médico divulgado nesta sexta-feira (13).

A sonda, que ficava conectada ao nariz do paciente e ia até o estômago, foi colocada na terça-feira (10) e removida nesta sexta. O tubo tinha a função de ajudar na saída da grande quantidade de ar que se acumulou no estômago e no intestino do presidente.

Bolsonaro voltou a receber a dieta líquida (chá, gelatina, caldo ralo), que havia sido suspensa também na terça (10) e substituída pela nutrição parenteral endovenosa (pelas veias). Por enquanto, contudo, serão mantidas as duas formas de alimentação.

O presidente está internado no Hospital Vila Nova Star, na região sul de São Paulo, onde foi submetido no domingo (8) à quarta cirurgia desde que sofreu uma facada durante um ato de campanha em setembro de 2018.

As visitas continuam restritas e não há previsão de alta até o momento, de acordo com o porta-voz da Presidência, general Otávio do Rêgo Barros.

Segundo o médico Antonio Macedo, que cuida do presidente, a estimativa é que ele seja liberado “em três a quatro dias”, mas o prazo pode variar de acordo com o quadro clínico.

Bolsonaro ficará fora do cargo mais tempo do que previa, atendendo a orientações médicas. A previsão inicial era que ele reassumisse a cadeira nesta sexta-feira (13), mas a equipe sugeriu período mais longo de descanso. O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) ocupa o posto até terça-feira (17).

Na tentativa de mostrar que está bem de saúde, Bolsonaro fez na noite desta quinta-feira (12) uma live para as redes sociais do quarto do hospital onde está internado.

Usando roupa hospitalar e a sonda nasogástrica, ele demonstrou sinais de cansaço na voz e anunciou que, por recomendação médica, falaria pouco. Na transmissão online, que durou cerca de três minutos, o presidente enumerou o que classificou como “coisas boas para informar ao Brasil”.

Segundo a Presidência, Bolsonaro estará restabelecido a tempo de discursar na Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro, em Nova York.

Na cirurgia do fim de semana, os médicos do Vila Nova Star corrigiram uma hérnia que surgiu na região do abdômen em decorrência das múltiplas incisões feitas no local nos últimos meses. A operação durou cinco horas e foi considerada bem-sucedida.

No último domingo, os médicos corrigiram uma hérnia que surgiu na região do abdômen em decorrência das múltiplas incisões feitas no local nos últimos meses. A operação durou cinco horas e foi considerada bem-sucedida.

Logo após a cirurgia, Bolsonaro vestiu uma cinta elástica para pressionar o abdômen operado e ajudar no processo de recuperação.

O surgimento da chamada hérnia incisional já era esperado pelos médicos que atendem o presidente, em razão da série de intervenções feitas na região da barriga do paciente para tratar os danos provocados pelo ataque.

O então presidenciável foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira em 6 de setembro de 2018. O autor do crime está preso desde então.

A hérnia ocorreu porque, em virtude do enfraquecimento da parede muscular do abdômen, uma parte do intestino passou por uma cavidade desse tecido. As sucessivas incisões (cortes) na barriga fragilizaram o músculo, o que fez com que a porção do órgão e uma camada de gordura rompessem a membrana, criando uma saliência sob a pele.

Bolsonaro está estável e ainda não há previsão de alta

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) apresenta nesta terça-feira (10) “contínua melhora” depois da cirurgia a que foi submetido no domingo (8), e ficará afastado da Presidência pelo menos até quinta-feira (12).

A situação, segundo o boletim médico, é estável: ele dormiu bem e acordou disposto, está sem febre, continua fazendo caminhadas no corredor do hospital, foi liberado para tomar banho de chuveiro e pôde fazer a barba.

Precisa, no entanto, manter uma alimentação restrita -dieta líquida à base de chá, água, gelatina e caldo ralo, de acordo com o informe.

Bolsonaro está internado no Hospital Vila Nova Star, na região sul de São Paulo, onde passou pela quarta cirurgia desde que sofreu uma facada durante um ato de campanha em setembro de 2018.

Não há previsão de alta até o momento, de acordo com o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) está interinamente à frente do Planalto. A tendência é que Bolsonaro reassuma a cadeira na próxima quinta, mesmo que continue internado. Se for necessário, ele poderá despachar ainda durante a recuperação. A única recomendação é evitar esforço físico intenso.

“Posso adiantar-lhes com muita clareza, com muita firmeza de propósito, com muita esperança, que o presidente a partir de quinta-feira estará novamente, senão na plenitude, exercendo o cargo de chefe do Poder Executivo, em condições de liderar o país”, afirmou Rêgo Barros.

No hospital, a equipe médica adotou medidas de prevenção de trombose venosa profunda, com o uso de medicamentos anticoagulantes e meias compressoras. As visitas continuam restritas.

Segundo o porta-voz, os contatos têm que ser breves porque Bolsonaro precisa descansar. Ao conversar, pode haver acúmulo de gases na barriga do paciente, o que prejudica a recuperação.

O presidente não tem visitas agendadas para esta terça. No dia anterior, ele recebeu o vice-presidente Mourão. O presidente tem a companhia, durante a internação, da primeira-dama Michelle e do filho Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), vereador no Rio.

Questionado sobre a afirmação de Carlos de que o Brasil não terá transformações rápidas pelas vias democráticas, o porta-voz da Presidência disse que Bolsonaro não se manifestou sobre o tema.

Em mensagem no Twitter nesta segunda-feira (9) à noite, o vereador escreveu: “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos…”. A postagem do filho do presidente foi alvo de críticas de políticos e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que viram nela uma ofensa ao sistema democrático brasileiro.
“Eu desconheço que o presidente tenha tomado conhecimento [da declaração]”, disse Rêgo Barros. Ele relatou ainda ter conversado com Carlos nesta manhã, mas não explicou se abordou o assunto.

“Acredito até que o vereador tenha conversado sobre isso com o presidente da República. Mas esse não é um tema que no momento nós queremos vocalizar, porque o nosso foco é a recuperação do senhor presidente da República”, disse o auxiliar.

“O que é tuitado nas contas pessoais é de responsabilidade de cada uma dessas pessoas que são aquelas que dirigem e que orientam o seu relacionamento via mídia social”, completou.

Os médicos corrigiram uma hérnia que surgiu na região do abdômen em decorrência das múltiplas incisões feitas no local nos últimos meses. A operação durou cinco horas e foi considerada bem-sucedida.

Logo após a cirurgia, Bolsonaro vestiu uma cinta elástica para pressionar o abdome operado e ajudar no processo de recuperação. Segundo a Presidência, Bolsonaro estará restabelecido a tempo de discursar na Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro, em Nova York.

O surgimento da chamada hérnia incisional já era esperado pelos médicos que atendem o presidente, em razão da série de intervenções feitas na região da barriga do paciente para tratar os danos provocados pelo ataque.

O então presidenciável foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira em 6 de setembro de 2018. O autor do crime está preso desde então.

A hérnia ocorreu porque, em virtude do enfraquecimento da parede muscular do abdômen, uma parte do intestino passou por uma cavidade desse tecido. As sucessivas incisões (cortes) na barriga fragilizaram o músculo, o que fez com que a porção do órgão e uma camada de gordura rompessem a membrana, criando uma saliência sob a pele.

luciano huck

Luciano Huck prega conciliação e alfineta Lula e Crivella

Em reedição do discurso oficial de que é um cidadão interessado em ajudar o Brasil, o apresentador e empresário Luciano Huck exibiu a uma plateia de executivos, nesta segunda-feira (9), em São Paulo, uma fala cheia de recados políticos e algumas alfinetadas.

Ele, que esteve perto de se candidatar a presidente da República em 2018 e é considerado peça do xadrez eleitoral para a sucessão de Jair Bolsonaro (PSL), pregou combate ao que chamou de “retórica belicista que não leva a nada”.

“Eu não convivo bem com a polarização. Eu não sou um cara do grito, de falar alto. Eu não enxergo as pessoas que pensam diferente de mim como inimigos”, afirmou Huck durante seminário promovido pela revista Exame no auditório do hotel Unique, no Jardim Paulista (zona oeste).

Descrevendo-se como alguém “com a cabeça aberta”, o apresentador da TV Globo reiterou que o Brasil precisa se debruçar sobre problemas urgentes como a falta de mobilidade social e o atraso na educação.

Enquanto desfiava histórias de pessoas que conheceu ao viajar o país para gravações do programa “Caldeirão do Huck”, ele cobrou soluções para a desigualdade (“É decorrente da cultura escravocrata”), a miséria (“Lá [no norte de Minas] é fome, fome mesmo”) e as favelas (“Viraram parte da paisagem, e não podem ser”).

“A gente não acha que a gente vai discutir redução de desigualdade ou solução para a favela no Brasil com um monte de gente branca, rica, sentada numa mesa na Faria Lima”, disse, ao exaltar a necessidade de esforços conjuntos. Faria Lima é uma avenida nobre de São Paulo que concentra escritórios de grandes empresas.

“Se a gente não fizer nada, este país vai implodir”, resumiu, pausando a voz. “O abismo social é gigantesco, a desigualdade social é gritante. É inaceitável. Estou falando do fundo do meu coração.”

Ele conclamou a elite a abandonar a indiferença e “colocar a mão na massa” para buscar uma transformação no país.
“Isso não é um projeto pessoal, isso não é um projeto de poder, isso não é um projeto político. É um projeto de país”, discursou a certa altura, deixando em parte da plateia a sensação de que já fala como pré-candidato, embora em público ele não confirme o status.

Huck, que falou ter um “sonho maior”, “de um país maior, mais eficiente, menos desigual, afetivo em relação às pessoas”, despistou quando foi questionado no palco sobre candidatura. Ele saiu sem dar entrevista aos jornalistas que cobriam o seminário.

“Espero não estar sendo ingênuo”, disse duas vezes em sua participação no evento.

Huck se movimenta no cenário político ancorado na posição de entusiasta dos movimentos cívicos que buscam renovação política. Ele é um dos integrantes do Agora! e também atua como garoto-propaganda do RenovaBR.

“Eu quero ser um cidadão cada vez mais ativo, eu quero contribuir como for possível para que o Brasil seja um país mais eficiente e mais afetivo”, afirmou o apresentador.

E acrescentou: “Era muito mais fácil para mim ficar protegido, em casa, mas eu estou aqui trocando ideia com vocês. Eu podia fingir que não era comigo”.

Huck não é filiado a partido, mas tem proximidade com líderes de siglas como Cidadania (antigo PPS), DEM, Rede e PSDB. “Eu achei que o movimento mais inteligente a ser feito era pela sociedade civil, e foi através dos movimentos cívicos [que fiz].”

O apresentador também usou o microfone para cutucar o ex-presidente Lula (PT). “A gente precisa de uma narrativa conciliadora no Brasil. Não dá para ficar brigando com todo mundo, discutindo, iludindo as pessoas. E, olha, não é de hoje. Já usaram muito a retórica do ‘nunca antes na história deste país’. Não é verdade.”

“O ‘nunca antes na história deste país’ só foi possível porque antes disso teve um governo que organizou o Estado, equilibrou o Estado”, completou, em alusão ao Plano Real e à gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Ele também lançou uma indireta para o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB-RJ), pela decisão de censurar, na Bienal do Livro, o gibi “Vingadores – A Cruzada das Crianças”, que retrata um beijo entre dois super-heróis homens.

“De coração, acho que o povo para valer não está preocupado com como é que é o desenho do casal que está no gibi da Marvel. As pessoas querem saber como a vida delas pode melhorar de verdade. É só isso”, disse Huck, despertando aplausos.

Sobre o governo de Bolsonaro, sua única referência explícita foi à área econômica, mas sem pronunciar o nome do presidente. “A agenda econômica deste governo é correta”, opinou.

Huck se tornou alvo de Bolsonaro nas últimas semanas, por ter falado em um evento que o governo dele é “o último capítulo do que não deu certo”, e vem preferindo manter silêncio diante das provocações.

Em reação, o titular do Planalto disse que o possível adversário deveria “parar de arrotar arrogância” e passou a atacá-lo por ter comprado um jatinho com subsídio do BNDES. Huck afirma que o empréstimo ocorreu dentro das regras e foi “transparente, pago até o fim, sem atraso”.

Durante a campanha eleitoral do ano passado, o apresentador evitou declarar apoio no segundo turno. Como a Folha de S.Paulo publicou, ele se opôs à articulação de uma nota anti-Bolsonaro no Agora!, movimento de renovação política do qual faz parte. Huck fez parte da ala que barrou a elaboração de texto crítico ao então candidato do PSL.

Na época, o apresentador falou que não se posicionaria “a favor de nenhum candidato” ao Planalto e que via problemas tanto na candidatura de Bolsonaro quanto na de Fernando Haddad. “No PT eu nunca votei e jamais vou votar. Isso é fato”, disse.

PUPILOS
A participação de Huck no evento da Exame foi precedida por uma mesa com parlamentares frequentemente citados pelo apresentador como bons exemplos da chamada nova política.

Ele chegou a tempo de ouvir a conversa para a qual foram convidados os deputados federais Vinicius Poit (Novo-SP), Tiago Mitraud (Novo-MG) e Felipe Rigoni (PSB-ES) –os três apoiados pelo RenovaBR, escola de formação política que o comunicador incentiva.

Huck afirmou que ele e os parlamentares estão “imbuídos da mesma causa, que é qualificar o debate, tentar melhorar o capital humano na política brasileira, independentemente das matrizes ideológicas”.

“Os extremos não vão levar a nada no Brasil”, disse Poit no início do painel, que também teve o combate à polarização como tema central. “Vamos falar das coisas que a gente concorda”, reivindicou o deputado.

Rigoni defendeu a cultura do diálogo, “independentemente de origem, ideologia e atuação” do interlocutor.
O vereador paulistano Fernando Holiday (DEM-SP), outro que participou da mesa, lembrou que o MBL (Movimento Brasil Livre), organização que o catapultou, fez um mea-culpa pelo papel que desempenhou na radicalização do debate político.

Em entrevista à Folha de S.Paulo em julho, o coordenador nacional do movimento, Renan Santos, admitiu culpa pela polarização do país e pela retórica agressiva.

“Nós achávamos que a forma de o MBL crescer e atrair mais gente era usar como instrumentos a lacrada e a demonização dos nossos adversários políticos”, reforçou Holiday no palco do evento.

Segundo ele, o grupo quer romper com essa lógica e está organizando iniciativas em que propõe diálogos entre oponentes. Para Holiday, a beligerância contaminou o ambiente político a ponto de torná-lo quase inviável.

Huck, em conversas privadas, afirmou ter visto como salutar a decisão do MBL de admitir o erro e tirar o pé do freio.

Bolsonaro terá que fazer nova cirurgia por causa da facada

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) terá que fazer uma nova cirurgia em consequência da facada que sofreu durante a campanha eleitoral, em setembro do ano passado. A necessidade da intervenção foi confirmada em avaliação médica neste domingo (1°).

A data da operação não foi divulgada, mas Bolsonaro indicou em uma rede social que deve ficar cerca de dez dias afastado do Planalto para se submeter ao procedimento e se recuperar.

O médico Antonio Luiz Macedo, membro da equipe que tratou o presidente no hospital Albert Einstein após o atentado, fez a avaliação no paciente no aeroporto de Congonhas, logo após Bolsonaro desembarcar na capital paulista, por volta das 8h.

O motivo da cirurgia não foi confirmado, mas na sexta-feira (30) Macedo afirmou à Folha que havia o risco de Bolsonaro ter hérnia na região atingida pela facada e depois submetida a três cirurgias.

O problema é considerado normal em um quadro clínico como o dele, que passou por um trauma de grande dimensão e sucessivas operações na área.

O surgimento de hérnias era esperado porque a parede abdominal do presidente ficou fragilizada após tantos cortes e procedimentos cirúrgicos.

Como o tecido fica menos resistente, pode acontecer que parte de algum órgão abdominal rompa a parede muscular, criando um volume sob a pele. A operação de hérnia é considerada de médio porte, sem grandes riscos.

Em postagem nas redes sociais, Bolsonaro escreveu: “Pelo que tudo indica curtirei uns 10 dias de férias com eles brevemente”. Ele publicou uma foto ao lado de Macedo e do médico Leandro Santini Echenique, que também fez a avaliação.

Macedo e Echenique integraram a equipe responsável por cuidar de Bolsonaro no Einstein, para onde ele foi transferido após receber o atendimento emergencial na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora (MG).

Em julho, após mais de 40 anos no Einstein, Macedo migrou para a Rede D’Or São Luiz. A nova operação no presidente deverá ser feita no Hospital Vila Nova Star, na Vila Nova Conceição (zona sul), que faz parte da rede.

A cirurgia mais recente de Bolsonaro ocorreu no Einstein, em janeiro, para reconstruir o trânsito intestinal, afetado pelo trauma, e retirar do abdômen a bolsa de colostomia (recipiente externo para armazenar fezes).

Os médicos consideraram bem-sucedida a recuperação, apesar de complicações que surgiram ao longo do processo, mas foram rapidamente contornadas.

“A condição física ajudou muito, porque ele foi atleta e possui uma musculatura forte. Isso tudo ele usou agora, no trauma”, disse Macedo, relembrando o passado de militar do presidente.

Como mostrou a Folha, o ataque que o então candidato sofreu em Juiz de Fora completa um ano no dia 6 de setembro e virou trunfo político para o presidente. Ele busca manter o assunto em evidência, mencionando, sempre que pode, o crime perpetrado por um “representante da esquerda”.

Adélio Bispo de Oliveira, o autor, que está preso na penitenciária federal de Campo Grande (MS), foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014. Declarado inimputável, por sofrer de problemas mentais, ele foi absolvido pela Justiça em junho.
O presidente viajou à capital paulista neste domingo para participar de culto celebrado pelo bispo Edir Macedo, no Templo de Salomão, no Brás (região central).

O líder da Igreja Universal do Reino de Deus, que também é dono da TV Record, apoiou a campanha de Bolsonaro em 2018 e mantém boas relações com o governo.

Segundo a agenda oficial de Bolsonaro, o presidente passa o dia em São Paulo e retorna a Brasília às 18h45. Não foram informados compromissos dele na capital paulista no período da tarde.

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“Parece que o efeito já é deslegitimador”, diz Gilmar Mendes sobre prisão de Lula

Crítico da Lava Jato, o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), fez reparos à operação e exaltou a divulgação de mensagens trocadas por membros da força-tarefa, nas quais foi mencionado.

Sem citar nomes, ele reiterou ataques ao ministro Sergio Moro e a procuradores do Ministério Público Federal. “Em relação aos procuradores, vocês têm visto tudo aquilo que fala: perseguição, combinação. Obter vantagens, oferecer palestras, ganhar dinheiro, monetizar a Lava Jato. Imagine isto”, disse o ministro a jornalistas, nesta sexta-feira (9), em São Paulo. “Estado de Direito é um modelo em que não há soberanos. Todos estão submetidos à lei. Portanto esse modelo que se desenhou, essa chamada ‘república de Curitiba’, isso não tem abrigo na Constituição.”

“Agora se revela, a despeito do bom trabalho que tenha feito, essa grande fragilidade” da Lava Jato, comentou o ministro, antes de participar de evento da Aasp (Associação dos Advogados de São Paulo).

Um grupo de aproximadamente dez pessoas fez um protesto em frente ao local da palestra, um prédio na região da avenida Paulista. Elas gritavam “fora, Gilmar” e diziam que é o povo quem paga o salário do magistrado.

Uma participante do ato usava uma capa preta à moda do STF. Outros, vestidos de verde e amarelo, manifestavam apoio à Lava Jato e a Moro.

“Vamos encerrar com esse ciclo de falsos heróis”, disse Gilmar aos repórteres. “Vamos reconhecer que as pessoas têm virtudes e defeitos. A democracia convive com isto.” Indagado se fazia referência a Moro ou ao procurador Deltan Dallagnol, falou que não iria “fulanizar o debate”.

“Certamente, juiz não pode ser chefe de força-tarefa. Ele não pode se integrar numa força-tarefa, afirmou Gilmar, emendando uma ironia. “Daqui a pouco alguém dirá: ele trabalhou tanto que pode até reivindicar salários na Justiça do Trabalho, acumulou funções.” Ele reiterou que a situação é “a maior crise que se abateu sobre o aparato judicial no Brasil desde a redemocratização” e que “nada é comparável” às revelações agora feitas. Afirmou, contudo, acreditar que o Brasil “vai sair mais forte disso”.

“Em algum momento, essas pessoas que se envolveram nesses maus feitos terão que prestar contas. Terão que contar o que fizeram mesmo, para que a gente possa, inclusive, no futuro, fazer as devidas correções.” “Quem, às escondidas, praticou atos indevidos tem que prestar conta deles”, completou. Para ele, a revelação feita pela Folha nesta quinta-feira (8) sobre o comportamento do então corregedor-geral do Ministério Público Federal, Hindemburgo Chateaubriand Filho, em relação a Deltan ilustra a conduta problemática de membros da força-tarefa.

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Foto: Theo Marques/Folhapress

“O próprio corregedor, embora não [tenha] cumprido devidamente suas funções, diz: ‘Vocês estão monetizando, vocês estão ganhando dinheiro com a Lava Jato’. E isso obviamente é vedado”, assinalou o magistrado.

“Está escrito na Constituição. Eu não posso usar a função pública para ganhar dinheiro fora daquilo que eu já ganho.” Como mostrou a reportagem, Deltan escreveu a Hindemburgo que a reprimenda seria acatada, mas a contragosto de membros do MPF.

Para Gilmar, o STF poderá ter que se debruçar sobre a validade das mensagens obtidas pelos hackers como provas em processos judiciais. “Isso é um debate que a corte já teve em alguns casos e que certamente será renovado agora.”

Segundo ele, o uso de “uma eventual prova de caráter ilícito” pela defesa de réus como o ex-presidente Lula (PT) “em tese pode ser” reivindicado, mas a validade dependerá de uma análise mais aprofundada.

“A toda hora vem esse tipo de consideração: ‘Ah, qual será a anulação?’. A mim me parece que o efeito já é deslegitimador dessas sentenças.”
E prosseguiu: “Quando a gente vai para o exterior, as pessoas perguntam: mas como vocês fizeram isso? Vocês que lograram um sistema de combate à corrupção agora estão com a credibilidade do sistema afetada. Como que um juiz sai para integrar um governo que é de oposição àquele que está preso?”.

Citado em conversas de procuradores da Lava Jato reveladas na terça-feira (6), o ministro cobrou de imediato providências da PGR (Procuradoria-Geral da República) sobre o caso e disse ver “um quadro de desmando completo”.

Questionado nesta sexta sobre o tema, afirmou ser necessária uma reinstitucionalização. “Certamente a procuradora-geral [Raquel Dodge], se for reconduzida, ou um novo procurador-geral vai ter um encontro com o Congresso no sentido da reinstitucionalização.”

Ele sinalizou que a autonomia dos membros pode estar associada aos abusos agora conhecidos. Em alusão ao episódio envolvendo Hindemburgo e Deltan, o ministro disse: “Esse modelo autonomista, em que o corregedor tem constrangimento de fazer correição em relação a um procurador, tem que ser superado. Isso está levando a um modelo de soberanos”.

Gilmar não quis comentar a sucessão na PGR, sob a justificativa de que a indicação cabe ao presidente da República.

Na palestra, para uma plateia de advogados e representantes de classe da categoria, o ministro falou sobre um assunto técnico, a questão da repercussão geral em ações judiciais e a repetição de recursos no STF.

luciano huck defende tabata amaral

Luciano Huck sai em defesa de Tabata Amaral

Apoiador do Acredito e do RenovaBR, duas das organizações que impulsionaram Tabata Amaral (PDT-SP), o apresentador e empresário Luciano Huck cobrou respeito à deputada federal e, em entrevista à Folha de S.Paulo, defendeu os movimentos de renovação política, dos quais é entusiasta.

“Mais uma vez, nesse episódio da votação da reforma da Previdência, a velha política mostra o quanto não quer a renovação. Está fazendo de tudo para calar as vozes, neutralizar as ideias e seguir ancorada no passado”, afirmou.

Ele, que esteve perto de se candidatar à Presidência da República em 2018 e é considerado desde então nome provável da corrida ao Planalto em 2022, rebateu ainda a declaração do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) de que os grupos independentes são “partidos clandestinos”.

O apresentador da TV Globo não é filiado a partido, mas cultiva boas relações com membros de legendas como Cidadania (antigo PPS), Rede, PSDB e DEM. Desde 2017, ele faz parte do Agora!, grupo suprapartidário que incentiva a oxigenação política.

Na entrevista, concedida por email (ele está em férias com a família fora do Brasil), Luciano Huck disse acompanhar a evolução do imbróglio detonado pelo voto favorável de Tabata e de outros deputados à reforma, em desacordo com a orientação das siglas.

Tanto PDT quanto PSB, outro partido que fechou posição contrária ao projeto, iniciaram processos que podem culminar na expulsão dos dissidentes, que representam cerca de 30% em ambas as bancadas. Felipe Rigoni (ES), também participante do Acredito e do Renova, está entre os alvos no PSB.

A reportagem perguntou a Huck se ele via as declarações de Ciro em apoio à saída de Tabata Amaral do partido e os ataques dele aos movimentos de renovação como uma tentativa do pedetista de antagonizar com o apresentador, antecipando-se a uma possível disputa eleitoral em 2022.

“Imagino que não”, ele respondeu. “Existem mil maneiras de resolver divergências. A melhor delas é através do diálogo.”

“No mais, desrespeitar publicamente uma mulher, jovem, idealista e corajosa, como é o caso da Tabata, não me parece a mais inteligente das estratégias se a ideia fosse antagonizar comigo. E o Ciro é um homem muito inteligente”, acrescentou.

Luciano Huck disse ainda que a parlamentar nascida na periferia de São Paulo “por mérito se formou em uma das melhores universidades do mundo [Harvard] e, em vez de ir para o mundo dourado da iniciativa privada, resolveu servir, se lançando na vida pública”.

Ciro falou que Tabata “cometeu um erro indesculpável” contra “o povo mais pobre” ao marcar sim à reforma. Ele tem reiterado que, apesar de defender a desfiliação, mantém o respeito à parlamentar. No domingo (14), o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, disse não existir nenhuma “palavra da direção do PDT ofendendo a honra dela”.

Em sua coluna na Folha de S.Paulo, publicada naquele dia, Tabata Amaral havia escrito, em crítica aos partidos: “Ofensas, ataques à honra e outras tentativas de ferir a imagem tomam lugar do diálogo. Exatamente o que vivo agora”.

A estreante enfrenta uma série de pressões desde que anunciou o voto a favor do texto que modifica as aposentadorias. Nas redes sociais, virou meme e foi alvo de xingamentos como “traidora da esquerda” e “vendida”.

O apresentador não quis comentar a decisão encaminhada pelo PDT de negar legenda em futuras eleições a candidatos apoiados por movimentos como o Acredito. Trata-se de “questão interna deles”, despistou.

MOVIMENTOS LÍCITOS

Luciano Huck disse endossar o conteúdo da nota divulgada nesta semana pelo Renova que alfineta Lupi, ao afirmar que “há partidos políticos que, nos últimos 15 anos, estão sob o comando da mesma pessoa”. O pedetista assumiu a condução da sigla em 2004.

O apresentador até repetiu frases do comunicado. Indagado sobre a imagem de ilegalidade que tem sido associada aos movimentos, colou o trecho: “Nossa iniciativa não é clandestina. Possui registro. Possui sede. Possui propósitos”.

Argumentou ainda, da mesma forma que aparece no texto do Renova, que a Constituição garante plena “liberdade de associação para fins lícitos”. Huck é uma espécie de garoto-propaganda da escola de formação de políticos e aparece na lista de doadores que ajudaram a financiá-la em 2018.

Detratores veem problemas na forte influência do empresariado nas principais entidades que pregam a renovação, sob a justificativa de que o patrocínio acabaria por contaminar a atuação dos apadrinhados.

“A elite brasileira é muito passiva. Imagina que os problemas do país irão se resolver por geração espontânea. Não irão”, disse o contratado da Globo, diante de pergunta sobre o tema.

“Se não colocarmos a mão na massa, ninguém o fará por nós. A elite tem que ser parte da solução. Vivemos em um dos países mais desiguais do planeta, e, mesmo com todos os esforços do terceiro setor, só os governos têm força exponencial para mexer no ponteiro da redução de desigualdade. E o governo é formado por políticos. Por isso precisamos de bons políticos”, raciocinou.

Segundo o apresentador, parte dos ricos, “graças a Deus”, já entendeu que, se não custear a formação de novas gerações de gestores públicos, deixará o país “patinando eternamente no mesmo lugar”.

“Não vou entrar no mérito entre esquerda ou direita. Não quero discutir ideologias ou bandeiras. O fato é que, para a renovação política brasileira, não faltarão ideias. E, com a implementação das reformas necessárias, também não faltarão recursos”, disse Luciano Huck.

“Nossa maior deficiência será capital humano”, pontuou. “Nunca se falou tanto de política no Brasil, mas daí a convencer gente de bem e competente a servir é uma distância enorme.”

Na opinião dele, mesmo com dificuldades, “sementes muito importantes” foram plantadas no ano passado. “Gente capacitada, com bandeiras e ideologias diversas –e, principalmente, com o sarrafo da ética na altura correta–, teve a coragem de se lançar na vida pública”, descreveu.

E desfiou uma lista de nomes de vários partidos que ganharam empurrão de movimentos.

Além de Tabata Amaral e Felipe Rigoni, ele citou como frutos dessa cena os deputados federais Kim Kataguiri (DEM-SP), Marcelo Calero (Cidadania-RJ), Luiz Lima (PSL-RJ), Tiago Mitraud (Novo-MG), Vinicius Poit (Novo-SP) e Joenia Wapichana (Rede-RR) e o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

“A velha política, durante todo o processo eleitoral, se aproveitou para dar um lustre de renovação e juventude bebendo na fonte desses movimentos. Prometeu mundo e fundos, inclusive liberdade de pauta, mas não entregou. Nem durante a eleição nem agora”, afirmou o apresentador.

REAÇÃO ORGANIZADA

Luciano Huck disse que acompanha “de perto” a articulação de organizações que preparam uma reação aos partidos depois do episódio dos infiéis. A coalizão, puxada pelo Acredito e pelo Transparência Partidária, planeja divulgar um manifesto em defesa da reformulação das legendas.

O Agora! também está na linha de frente das conversas. A mobilização incluirá um projeto de lei com propostas como a definição de mandatos para dirigentes de legendas, num esforço para combater a perpetuação de caciques no poder.

“Estou seguro de que o objetivo dessa frente é contribuir ativamente, de forma positiva e construtiva, para a vida política no Brasil”, comentou Huck.

“Os partidos políticos têm de deixar de ser meros aglutinadores de nomes com interesses unicamente eleitoreiros e passar a reunir grupos de matrizes ideológicas parecidas, mas com ideias diferentes, éticos, e querendo servir no tempo e significado corretos desse verbo”, afirmou.

O apresentador explicou ainda não ver necessidade da criação de um partido que pudesse contemplar as demandas dos movimentos de renovação. “Temos alguns bons partidos. E parte deles já percebeu a necessidade de se reinventar para valer. Não só da boca para fora, e de maneira oportunista.”

Apesar de sentir as legendas com “medo da renovação”, ele considera possível um resultado positivo a partir dos embates em andamento –tanto entre partidos e deputados quanto entre legendas e movimentos.

Luciano Huck disse esperar que as discussões “pautem e inspirem debates produtivos para se discutir uma relevante e necessária reforma política, mais uma entre as tantas de que precisamos”.

Bolsonaro encerra entrevista ao ser questionado sobre situação de Moro

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) manteve o silêncio sobre o vazamento de mensagens do ministro Sergio Moro e encerrou uma entrevista coletiva ao ser questionado sobre o assunto nesta terça-feira (11) em São Paulo.

Bolsonaro finalizou abruptamente a coletiva quando uma repórter perguntou como ele avaliou “as questões envolvendo o ministro Sergio Moro”. “Tá encerrada a entrevista”, disse o presidente, depois de responder a perguntas de jornalistas sobre a reforma da Previdência.

Bolsonaro estava ao lado do governador João Doria (PSDB), com quem se reuniu em uma sala do aeroporto de Congonhas para falar sobre mudanças no sistema de aposentadorias.

Bolsonaro ainda não se manifestou sobre a troca de mensagens entre o ex-juiz Moro e o procurador Deltan Dallagnol, quando ambos atuavam na Operação Lava Jato.

O conteúdo, divulgado no domingo (9) pelo site The Intercept Brasil, demonstra colaboração entre o então magistrado e procuradores do Ministério Público Federal envolvidos na investigação.

Bolsonaro se encontrou com Moro na manhã desta terça em Brasília, mas não comentou o caso revelado pelo site. O ex-juiz foi condecorado pelo presidente em um evento da Marinha.
Antes da solenidade, os dois conversaram por cerca de 20 minutos no Palácio da Alvorada. O encontro não estava previsto inicialmente na agenda oficial deles.

O Ministério da Justiça se pronunciou só por meio de nota, dizendo que Moro e Bolsonaro tiveram uma conversa “tranquila” sobre “a invasão criminosa” de celulares de juízes, procuradores e jornalistas.

Segundo o texto enviado pela assessoria de imprensa, “o ministro rechaçou a divulgação de possíveis conversas privadas obtidas por meio ilegal e explicou que a Polícia Federal está investigando a invasão criminosa”.

Mensagens divulgadas no domingo (9) pelo site Intercept Brasil mostram que Moro e Deltan trocavam colaborações quando integravam a força-tarefa da Lava Jato. Os dois discutiam processos em andamento e comentavam pedidos feitos à Justiça pelo Ministério Público Federal.

Após a publicação das reportagens, a equipe de procuradores da operação divulgou nota chamando a revelação de mensagens de “ataque criminoso à Lava Jato”. Também em nota, Moro negou que haja no material revelado “qualquer anormalidade ou direcionamento” da sua atuação como juiz.

A Polícia Federal tem ao menos quatro investigações abertas para apurar ataques de hackers em celulares de pessoas ligadas à Operação Lava Jato, em Brasília, São Paulo, Curitiba e Rio. Uma das suspeitas é a de que os invasores tenham conseguido acesso direto a aplicativos de mensagens dos alvos, sem precisar instalar programas para espionagem.

O pacote de diálogos que veio à tona inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram de 2015 a 2018.

Segundo as mensagens, Moro sugeriu ao Ministério Público Federal trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou a realização de novas operações, deu conselhos e pistas e antecipou ao menos uma decisão judicial.

Já o governo Jair Bolsonaro adotou cautela em relação ao vazamento de conversas entre o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. A equipe do presidente quer evitar movimentos prematuros, antes que fique clara a dimensão completa do caso.

Embora aliados do presidente tenham defendido o ministro da Justiça e afirmado que Bolsonaro confia em Moro, seus auxiliares recomendaram que o presidente aguarde a revelação de outros trechos dos diálogos entre o ex-juiz da Lava Jato e integrantes da força-tarefa da operação.

A equipe do governo, no entanto, prevê agitação no Congresso com a divulgação das conversas entre o ex-juiz e Deltan. Um assessor diz que os parlamentares certamente farão “um carnaval”.

Nas conversas privadas, membros da força-tarefa fazem referências a casos como o processo que culminou com a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por causa do tríplex de Guarujá (SP), no qual o petista é acusado de receber R$ 3,7 milhões de propina da empreiteira OAS em decorrência de contratos da empresa com a Petrobras.

O valor, apontou a acusação, se referia à cessão pela OAS do apartamento tríplex ao ex-presidente, a reformas feitas pela construtora nesse imóvel e ao transporte e armazenamento de seu acervo presidencial. Ele foi condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Preso em decorrência da sentença de Moro, Lula foi impedido de concorrer à Presidência na eleição do ano passado. A sentença de Moro foi confirmada em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e depois chancelada também pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Apoiados por Huck, grupos de renovação política miram 2020

O ano é de renovação na renovação. Passado o frenesi das urnas, grupos independentes que contribuíram para a eleição de novas caras em 2018 vivem uma fase de redefinir prioridades e adaptar rotas.

A principal mudança para organizações como o Agora!, o RenovaBR e o Acredito é o fato de que elas passaram a ter braços no poder –não só nos Legislativos, principal foco no ano passado, mas também no Poder Executivo.

Renova e Agora!, as entidades mais conhecidas desse ecossistema (não por coincidência, ambas apoiadas pelo apresentador e empresário Luciano Huck), elegeram juntas 17 parlamentares e tiveram ao menos 21 integrantes nomeados para outros cargos.

Com apoio do Renova, que ofereceu curso por seis meses e bolsa que variou de R$ 5.000 a R$ 12 mil, saíram vitoriosos das urnas -entre outros, os federais Tabata Amaral (PDT-SP) e Marcelo Calero (PPS-RJ), os estaduais Daniel José (Novo-SP) e Renan Ferreirinha (PSB-RJ) e o senador Alessandro Vieira (PPS-SE).

Todos são novatos em cargos eletivos e adotam no mandato um discurso de novas práticas, ancorado em valores como ética e transparência.

Integrantes que não tiveram a mesma sorte acabaram sendo chamados para outros postos na administração pública, em secretarias e assessorias de governos estaduais.

Para citar dois: Paulo Mathias (Novo-SP) virou secretário-executivo da pasta de Desenvolvimento Social do governo João Doria (PSDB-SP) e Mayra Pinheiro (PSDB-CE) assumiu uma secretaria do Ministério da Saúde na gestão Jair Bolsonaro (PSL).

“Na nossa avaliação, todas as pessoas que participaram do programa poderão dar uma contribuição nesses espaços a partir da formação a que tiveram acesso”, diz o empresário Eduardo Mufarej, que fundou o Renova em 2017.

Na seara eleitoral, o foco da entidade se volta para a disputa de 2020. Mais de 9.500 pessoas de todo o país se inscreveram no processo de seleção para líderes que querem concorrer a vereador ou prefeito.

“O principal desafio é como sair de um universo de 27 estados, como era no ano passado, para uma realidade de 5.600 municípios”, diz Mufarej.

Além de ajustar a temática da capacitação para assuntos ligados às cidades, como leis de ocupação do solo e programas de saúde preventiva, a entidade adotará outra logística, com menos atividades presenciais e mais aulas a distância.

O Agora!, que na origem não tinha a eleição de novatos como meta, vê em 2019 a chance de retomar seu espírito inicial. O movimento foi criado para estimular políticas de sustentabilidade e combate à desigualdade.

A ideia no momento é consolidar a plataforma como “um centro de boas ideias e práticas inovadoras”, afirma o cientista político Leandro Machado, fundador e porta-voz.

O grupo lançou durante a campanha eleitoral uma agenda com 130 propostas para áreas como segurança pública, economia, educação e saúde. Pretende, daqui para a frente, trabalhar para aprofundar as sugestões e, principalmente, executá-las.

Além dos três membros do Agora! eleitos para o Legislativo (dois deles também amparados pelo Renova), o movimento conta com representantes nomeados em governos que acabaram de começar.

São os casos, por exemplo, de Patricia Ellen, secretária de Desenvolvimento Econômico do governo de São Paulo; Rafael Parente, secretário de Educação do Distrito Federal; e Natalie Unterstell, superintendente de inovação da Casa Civil do governo do Paraná.

Há alguns dias, o grupo quase passou a contar com uma voz no governo federal. A fundadora Ilona Szabó foi chamada pelo ministro Sergio Moro (Justiça) para integrar o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, mas, após críticas nas redes sociais, acabou desconvidada por decisão de Bolsonaro.

A especialista em segurança pública é a favor do desarmamento, o que vai contra as políticas do novo governo.
Na visão do Agora!, contar com membros no Legislativo e no Executivo é um meio para ampliar o alcance de seus debates e tentar implementar as ideias que defende.

A reinvenção das organizações embute ainda um esforço para manter a relevância fora do contexto eleitoral.

É comum ouvir dos líderes que esses grupos ajudaram a puxar a oxigenação política tão desejada em 2018, mas que é natural haver uma queda na visibilidade em anos sem votação. O diagnóstico é o de que, apesar das dificuldades, o trabalho precisa continuar porque ainda há muito a ser feito.

“A gente achou que depois das eleições o entusiasmo iria esfriar e a galera iria desmobilizar um pouco, mas dobrou o número de seguidores nas redes sociais e o de voluntários aumentou significativamente”, diz Samuel Emílio, coordenador nacional do Acredito.

O grupo, com representantes em 40 cidades de 17 estados, teve quatro membros eleitos, todos também do Renova: os federais Tabata Amaral e Felipe Rigoni (PSB-ES), o estadual Renan Ferreirinha e o senador Alessandro Vieira.

Para os próximos meses, a prioridade é mapear ao menos cem pré-candidatos a vereador e prefeito aptos a receber apoio. A entidade pretende repetir o modelo da eleição passada: criar uma rede para trocas de experiências e dar visibilidade às campanhas.

O plano é semelhante ao da Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), que desde já mira o pleito municipal. Diferentemente de outras organizações da área, a incubadora não busca puramente a renovação de quadros.

O discurso é o de qualificar os agentes públicos no país, sejam eles novatos ou não.

Na entressafra eleitoral, a entidade acompanha os participantes com mandato (que hoje são cerca de cem, em variados cargos e níveis) e fica atrás de novos nomes. O processo seletivo mais recente recebeu 3.500 inscrições.

A rede foi criada em 2012, o que lhe dá quilometragem maior em relação aos principais grupos da área, surgidos de 2016 em diante. Parte dessas entidades, inclusive, é derivada da Raps, como lembra a diretora-executiva da rede, Mônica Sodré. “É um orgulho olhar para um universo que ajudamos a construir”, diz.

Para ela, que é cientista política, 2018 foi um marco na renovação e na participação dos cidadãos. “O desafio para os próximos anos é fazer essa rede de organizações trabalhar em conjunto.”

Comissão que defende direitos humanos no governo Bolsonaro pede diálogo

Até poucas horas antes, os fundadores da Comissão Arns se perguntavam se o lançamento do grupo que quer defender os direitos humanos no Brasil sob o governo de Jair Bolsonaro (PSL) seria capaz de encher o auditório da Faculdade de Direito da USP reservado para o evento.

Não só o espaço ficou lotado nesta quarta-feira (20) como muita gente teve que se espremer na antessala para tentar ouvir os discursos. Pelo menos 600 pessoas participaram do ato, entre membros que estão na linha de frente da associação, líderes de organizações parceiras e cidadãos engajados na causa.

Batizada em homenagem a dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo morto em 2016, a comissão foi criada por um grupo de 20 intelectuais, advogados, acadêmicos e jornalistas. São personalidades e ativistas com longa história de militância na área, que dizem existir um sentimento crescente de ódio, intolerância e discriminação no país.

Medidas tomadas pelo novo governo, como a instituição do monitoramento de ONGs (que a Secretaria de Governo já avalia rever), o enfraquecimento da Lei de Acesso à Informação (derrubado pelo Congresso nesta terça-feira) e a transferência da demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura, foram citadas.

“Não é uma comissão de oposição ao governo”, disse no encerramento da solenidade Paulo Sérgio Pinheiro, presidente do colegiado.

“É uma comissão de monitoramento de todas as medidas contra a política de Estado que prevaleceu nos últimos 30 anos. O nosso alvo é defender essa política dialogando com todas as autoridades”, acrescentou ele, que foi secretário nacional de Direitos Humanos na gestão Fernando Henrique Cardoso.

Outros quatro ex-auxiliares do governo de FHC estão no grupo -José Carlos Dias, José Gregori, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Claudia Costin. Paulo Vannuchi, ministro de Direitos Humanos no governo Lula, também é um dos idealizadores da entidade.

No evento desta quarta-feira, eles dividiram a mesa com mais fundadores e apoiadores. Além de Costin, outros colunistas da Folha de S.Paulo integram a iniciativa: o cientista político André Singer e os professores Oscar Vilhena Vieira e Vladimir Safatle.

Ex-presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, Margarida Genevois será a presidente de honra do colegiado.

Na prática, a entidade diz querer dar visibilidade a denúncias de violações e trabalhar para que casos sejam investigados e punidos pelas autoridades. Será um trabalho em rede com outras entidades da sociedade civil e com órgãos públicos.

Sob o calor do fim da manhã, os presentes escutaram falas de alerta para as ameaças a direitos humanos, com ênfase em temas como violência policial, tortura, discriminação a minorias, violência contra a mulher e cerceamento de liberdades.

“Nossas cores não são só o azul e o rosa”, disse no palco Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI+ e um dos principais porta-vozes dessa comunidade no país. Era uma provocação à já célebre declaração de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, sobre meninos vestirem azul e meninas usarem rosa.

“Pra que se limitar se nós temos o arco-íris?”, exclamou ele, estendendo sobre a mesa uma bandeira multicolorida, símbolo do movimento gay. Sob aplausos, continuou: “Os direitos humanos devem ser uma luta de todos, uma luta supra e pluripartidária”.

No palco estava o ex-candidato à Presidência Fernando Haddad (PT), derrotado pelo atual presidente no segundo turno. Na plateia se espalhavam figuras da cena política como o ex-deputado federal Eduardo Jorge (PV), que foi vice na chapa presidencial de Marina Silva (Rede), e o tucano Fernando Guimarães Rodrigues, que preside no partido o movimento PSDB Esquerda pra Valer.

Outros discursos lembraram valores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sacramentados pela Constituição de 1988: toda pessoa tem direito à vida e à segurança pessoal; ninguém será submetido à tortura ou será arbitrariamente preso; as liberdades e garantias pessoais e profissionais têm que ser respeitadas.

Um dos que acompanhavam as falas no auditório era o advogado Cristiano Zanin Martins, da equipe de defesa do ex-presidente Lula (PT) –condenado e preso injustamente, na visão de militantes do partido e de parte da comunidade política e jurídica.

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, um dos fundadores da Comissão Arns, também ouvia tudo. Ele, que tem entre os clientes o ex-presidente Michel Temer (MDB), teve o sigilo bancário de seu escritório quebrado na semana passada por ordem da Justiça.

Em reação, entidades como OAB e Instituto de Defesa do Direito de Defesa divulgaram notas repudiando o que enxergam como uma ameaça a garantias pétreas para a categoria, como o sigilo entre cliente e profissional.

“Nós estamos vivendo um regime que eu diria ser quase de extinção da Constituição. Por isso são tão importantes esforços como este”, disse no ato a procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat.

A integrante do Ministério Público Federal criticou a extinção do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional). Atacou ainda a retórica de “autorização para matar” que, na opinião dela, se espalha no país com o endosso de membros do governo federal e de administrações estaduais.

“Nós não queremos snippers [atiradores de elite], queremos escolas”, afirmou à plateia José Vicente, conhecido por ser reitor da Universidade Zumbi dos Palmares e importante voz no combate ao racismo. A violência cometida por agentes do Estado é um dos focos da comissão.

Diferentes convidados mencionaram a facilitação do porte de armas implementada pelo governo Bolsonaro como um risco à já combalida política de segurança pública no país. Houve espaço também para falar do assassinato da vereadora Marielle Franco e do exílio forçado do deputado federal Jean Wyllys, ambos do PSOL.

Na saída do evento, enquanto a multidão deixava o auditório pela única porta do local, uma voz sozinha gritou “Lula livre”. Outras pessoas se cumprimentavam repetindo a frase que ecoou após a vitória do atual presidente na eleição: “Ninguém solta a mão de ninguém”.