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Lucas Neves - Folhapress

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Amazônia: UE pode barrar o comércio de carne bovina, soja, etanol e café

A decisão do presidente francês, Emmanuel Macron, de não ratificar o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul por causa da inação do governo brasileiro diante dos incêndios na Amazônia deve ser apenas a primeira etapa de uma retaliação global.

Segundo o cientista político Samuel Leré, é preciso considerar sanções comerciais imediatas contra mercadorias brasileiras, como carne bovina, soja e café.

Responsável pelo setor de ambiente e globalização da Fundação Nicolas Hulot, referência na França, ele diz que Jair Bolsonaro erra ao sustentar que as queimadas na floresta são uma questão estritamente brasileira e ao rechaçar comentários de líderes estrangeiros.

“Quando ela queima, como agora, é a humanidade inteira que é ameaçada. Se amanhã a Amazônia deixar de existir, o resultado será o equivalente ao de dez anos de emissões, no mundo todo, de gases que causam o efeito estufa.”

Para Leré, “é tão criminoso desrespeitar fronteiras internacionais [como fez a Rússia ao invadir a Crimeia, ação pela qual hoje sofre sanções] quanto destruir a floresta amazônica e não cumprir compromissos ambientais”.

PERGUNTA – Como vê este fogo cruzado entre Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron sobre os incêndios na Amazônia?

SAMUEL LERÉ – É algo que se impunha, que era necessário. Fazia meses que pedíamos sanções ao Brasil por causa da política do governo Bolsonaro para a floresta amazônica. Quando ela queima, como agora, é a humanidade inteira que é ameaçada. Se amanhã a Amazônia deixar de existir, o resultado será o equivalente ao de dez anos de emissões, no mundo todo, de gases que causam o efeito estufa. Não teremos mais qualquer chance de ficar abaixo dos 2º C [teto fixado no Acordo de Paris para a elevação da temperatura média na Terra nos próximos anos], atingiremos facilmente 3º C ou 4º C.

P. – Bolsonaro tem razão ao apontar uma “mentalidade colonialista” por trás da sugestão de Macron de que as queimadas amazônicas sejam discutidas na cúpula do G7, neste fim de semana?

SL – Não concordo. Não se trata de uma questão brasileira. Ela tem impacto no mundo inteiro. O que propomos são sanções, a suspensão das importações de mercadorias brasileiras provenientes do desmatamento da floresta. Cabe à França e à União Europeia decidir sobre isso. Assim, o Brasil não teria mais interesse em desmatar a Amazônia, porque não haveria mais mercado aqui para sua soja e para sua carne bovina.

P. – Então seria preciso, na sua opinião, ir além do que Macron anunciou, ou seja, não apenas brecar a tramitação do acordo comercial?
SL – Sim. Saudamos a suspensão do acordo por representar uma primeira etapa. Consideramos que, no pacto, não havia garantias ambientais suficientes. A realidade provou que o Brasil de Bolsonaro não pretende respeitar os compromissos assumidos, dentre os quais constava o de levar a zero seu ‘desmatamento líquido’ [diferença entre áreas desflorestadas e replantadas]. Por isso, o país deve ser sancionado enquanto o governo não mudar sua política para a Amazônia.

P. – Quais seriam as etapas seguintes?
SL – Sanções progressivas, visando alguns artigos específicos, como a carne bovina, a soja, o etanol e o café. O que esperamos é que o Brasil consiga conter esses incêndios e, em um segundo momento, acabe de vez com o desmatamento.É algo que a União Europeia faz, por exemplo, com a Rússia, que decidiu invadir a Crimeia [em 2014] -e, por isso, sofre sanções comerciais desde então. É tão criminoso desrespeitar fronteiras internacionais quanto destruir a floresta amazônica e não cumprir compromissos ambientais.

P. – Haveria outra via de negociação e pressão?
SL – A outra via seria uma mudança de política de Jair Bolsonaro, depois que ficou claro que ele pretende construir novas usinas hidrelétricas na região da Amazônia. Está evidente que seu objetivo não é o de proteger a floresta. Sendo assim, não há discussão ou ação diplomática possível. É preciso passar à sanção.

P. – E isso surtirá efeito?
SL- Sanções atacariam um dos sustentáculos de Bolsonaro, que é o agronegócio. Se amanhã esse setor não tiver mais mercado para sua produção, fará pressão sobre o presidente.

Em meio a impasse do brexit, Theresa May anuncia renúncia

A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, anunciou na manhã desta sexta (24) que deixará a liderança do Partido Conservador no dia 7 de junho, abrindo caminho para uma troca no comando do país nos próximos meses.

A corrida para sucedê-la no comando do Partido Conservador (e, por extensão, do país) deve durar entre seis e oito semanas. Até que esse processo termine, May seguirá no cargo primeira-ministra.

O ex-prefeito de Londres Boris Johnson, defensor de um brexit duro, talvez até sem acordo com a UE, é dado como favorito para sucedê-la.

Em pronunciamento na sede do governo, em Londres, ela disse lamentar não ter conseguido finalizar o processo da saída britânico da União Europeia, o brexit, e afirmou ter sido uma honra ser a segunda mulher a ocupar o posto de chefe de governo, “mas não a última”.

May assumiu o posto em julho de 2016, depois da renúncia de David Cameron, fragilizado pelo resultado surpreendente do plebiscito sobre o brexit, um mês antes.

Depois de um ano e meio de negociações, ela conseguiu, no fim de 2018, fechar um acordo com a UE para o desligamento do Reino Unido do consórcio europeu, mas ele foi rejeitado três vezes pelo Parlamento em Londres.

No processo, ela resistiu a duas moções de desconfiança, uma delas submetida por seus próprios colegas de partido.

Mas a pressão para sua saída voltou a subir no começo desta semana, quando ela apresentou um plano “retocado” para tentar convencer os deputados a endossar o “divórcio” do bloco europeu.

A nova proposta abria a possibilidade de uma segunda consulta popular sobre o brexit –o Legislativo teria a prerrogativa de definir se ela de fato aconteceria.

O aceno enfureceu os correligionários de May. Até seus ministros a repreenderam, dizendo que o item não havia sido acordado em reunião do gabinete.

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Primeira-ministra diz que deixará cargo se Parlamento aprovar acordo do brexit

A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, disse nesta terça-feira (26) a um grupo de deputados de seu Partido Conservador que vai deixar o posto se o acordo de saída do país da União Europeia for aprovado.

Segundo parlamentares ouvidos pela agência Reuters, a chefe de governo não indicou uma data certa para a renúncia, mas espera-se que, havendo sinal verde do Legislativo para o pacto, ela se concretize no curto prazo.

O documento que rege a separação já foi rechaçado duas vezes pelo Parlamento britânico, em janeiro (por uma maioria de 230 votos) e em meados de março (por uma ainda elástica diferença de 149).

Os partidários de um rompimento a seco (sem período de transição para adaptação de lado a lado) vinham sinalizando a emissários do governo nos últimos dias que só endossariam o acordo fechado pela primeira-ministra em novembro de 2018 se ela se comprometesse em deixar a função.

Em dezembro passado, May já afirmara que cederia o posto antes das próximas eleições gerais, previstas para 2022.

Feita a concessão nesta quarta, a expectativa é que o pacto de separação seja levado a votação em plenário pela terceira vez até sexta (29).

Na semana passada, a UE disse que, se o texto fosse aprovado pelos deputados até esta data, 29, o Reino Unido poderia permanecer no bloco até 22 de maio -os quase dois meses serviriam para passar a legislação de que Londres precisará como “país solo”, como a relativa a comércio, pesca e imigração.

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Se Flávio errou, vai ter de pagar, diz Bolsonaro sobre filho investigado

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse nesta quarta-feira (23) em entrevista à agência Bloomberg, em Davos, que eventuais irregularidades cometidas pelo deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), seu filho, terão de ser punidas.

“Se por acaso ele errou e isso for provado, lamento como pai, mas ele terá de pagar o preço por esses atos que não podemos aceitar”, afirmou Bolsonaro.

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) considerou suspeitos 48 depósitos feitos em dinheiro na conta de Flávio. Os depósitos, sempre no valor de R$ 2.000, totalizando R$ 96 mil, ​foram feitos em junho e julho de 2017 no autoatendimento da agência bancária que fica dentro da Assembleia Legislativa do Rio.

De acordo com Flávio, o dinheiro é parte de um pagamento em dinheiro que recebeu ao vender um imóvel em Laranjeiras. Como mostrou a Folha de S.Paulo, Flávio fez 20 transações imobiliárias em 15 anos, lucrando com a compra e venda de imóveis em curto período de tempo. De 2002 a 2018, seu patrimônio declarado à Justiça Eleitoral passou de um Gol 1.0 de R$ 25,5 mil para quase R$ 1,75 milhão em bens.

Flávio justifica o patrimônio por ser empresário, mas não detalhou suas atividades no ramo. Seu primeiro negócio registrado é uma filial da loja de chocolates Kopenhagen, aberta em 2015. Antes disso, porém, ele já acumulava imóveis e transações. O órgão de combate à lavagem de dinheiro também identificou movimentação atípica na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e amigo da família Bolsonaro. Queiroz recebeu, por exemplo, transferências de outros funcionários do gabinete de Flávio e deu um cheque de R$ 24 mil à primeira-dama Michelle Bolsonaro.

A situação política de Flávio se agravou nesta terça-feira (22), após ter sido deflagrada no Rio uma operação do Ministério Público para prender suspeitos de chefiar milícias na cidade. O deputado empregava como assessoras em seu gabinete, até novembro do ano passado, a mãe e a mulher do ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, 42, um dos alvos da operação e que está foragido.

Segundo Flávio, Queiroz, que também é ex-policial, foi quem indicou as mulheres para trabalharem no gabinete.

Queiroz é investigado sob suspeita de participar de um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de bens. O Coaf identificou uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em sua conta bancária em 2016 e 2017.

O alerta se deve não só ao volume, mas também à forma com que as operações eram feitas. No período, Queiroz realizou saques uma vez a cada dois dias em valores elevados, sempre após depósitos de quantias semelhantes.

Flávio Bolsonaro não é formalmente investigado no caso na esfera criminal, mas sim na área cível, que apura improbidade administrativa. A suspeita é de que Queiroz fosse o responsável por recolher parte do salário de servidores com finalidade ainda não esclarecida. O senador eleito nega a prática.

A investigação do caso está suspensa após liminar do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal.