câmara de apucarana
Compartilhar

Caso Odebrecht já provocou prisões em três países

Rafael Neves, Metro Jornal CuritibaA delação premiada da Odebrecht deu uma mostra de como investigações sobre corrupção ..

Narley Resende - 02 de maio de 2017, 09:46

Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba

A delação premiada da Odebrecht deu uma mostra de como investigações sobre corrupção podem caminhar em diferentes velocidades a depender do local onde os crimes aconteceram.

No início de dezembro do ano passado, o grupo fechou um acordo de leniência com Brasil, Estados Unidos e Suíça,  assumiu uma multa bilionária e reconheceu ter pago US$ 439 milhões – atualmente, R$ 1,39 bilhão – em propinas em 11 países estrangeiros.

O acordo prevê um período de seis meses de confidencialidade para que a empreiteira busque acordos individuais com cada país, apontando os nomes dos culpados em troca da manutenção de suas obras.

Desde a assinatura do termo, o avanço das investigações tem variado conforme a vontade e as condições dos respectivos governos e ministérios públicos.

“A Odebrecht conseguiu  realizar o sonho de Simon Bolívar: unificar a América”. De autoria desconhecida, esta frase foi dita mais de uma vez por comentaristas políticos, advogados e movimentos contra a corrupção durante a apuração da série ‘Planeta Odebrecht’, publicada no Metro Jornal de fevereiro a abril deste ano. É uma alusão ao fato de que 9 dos 11 países corrompidos pelo grupo fora do Brasil são latino-americanos.

No Peru, na Colômbia e no Equador há políticos presos por conta do escândalo. Nos três casos, já havia material contra a Odebrecht antes que houvesse delação premiada no Brasil, o que precipitou as medidas policiais e judiciais.

“Muitos ainda dependem do Brasil, por causa das provas bloqueadas. Mas nós temos cooperado com os países para quaisquer outras informações que não constem na colaboração”, explica o Secretário de Cooperação Internacional da PGR (Procuradoria-Geral da República), Vladimir Aras.

A maioria dos países está no escuro até junho, o que tem sido usado como ‘muleta’ para justificar a falta de punições. A data reserva uma chuva de revelações sobre a corrupção do grupo e deve representar um salto nas investigações.

Mas também há casos como Angola, do outro lado do Atlântico, em que as autoridades não deram nenhuma satisfação sobre o assunto e observadores têm pouca esperança de que alguma atitude será tomada.

Procurada pelo Metro Jornal a cada reportagem, a Odebrecht se limitou a informar que tinha “entendimentos avançados” com alguns países e reiterava seu “compromisso de colaborar com a Justiça”. Com problemas de caixa, o grupo tem se concentrado em manter contratos e minimizar seus prejuízos pelo mundo.

1 – México

O Ministério Público local diz estar investigando, mas ainda não apresentou resultados. Por ora, as maiores revelações sobre a Odebrecht no país estão a cargo de repórteres investigativos, que já descobriram, por exemplo, superfaturamento em contratos da Odebrecht com a Pemex, a estatal de petróleo.

2 – Guatemala

As suspeitas no país envolvem não apenas o ex-ministro Alejandro Sinibaldi – que está foragido por conta de outra investigação –, como também parlamentares que teriam recebido para atuar em favor da Odebrecht. Foram US$ 18 milhões em propinas em um país que teve uma única obra da empreiteira – a reforma de uma estrada ainda não concluída.

3 – República Dominicana

Após firmar um acordo de

leniência particular com a Odebrecht, no final de abril, a República Dominicana

foi o primeiro – e até agora único – país a ‘furar’ o sigilo e acessar todas as informações sobre os US$ 92 milhões pagos no local. Os culpados devem ter vida dura diante do eleitorado, que já fez grandes manifestações cobrando resultados no caso.

4 – Panamá

A exemplo de Guatemala e

República Dominicana, o Panamá já assistiu ao povo nas ruas cobrando explicações do caso Odebrecht. A empreiteira já prometeu ressarcir o Estado pelos US$ 59 milhões pagos em propinas, mas não deverá ser incomodada pelo governo, já que toca obras essenciais de infraestrutura no país.

5 – Venezuela

Com obras paradas – em parte devido a cortes do BNDES – e o país mergulhado na crise, a Odebrecht tem futuro incerto no país onde pagou US$ 98 milhões em propinas, a maior quantia fora do Brasil. O presidente Nicolás Maduro já declarou que o governo quer assumir os contratos e tocar as obras por conta própria, mas ainda não há medidas oficiais sobre isso.

6 – Colômbia

Três políticos no país estão detidos e as investigações alcançam as duas eleições do presidente Juan Manuel Santos, Prêmio Nobel da Paz. Primeiro, o ex-senador Otto Bula – preso – teria citado dinheiro ilegal da Odebrecht para a campanha de 2014, episódio envolto em controvérsia. Recentemente, porém, o coordenador do pleito de 2010 fez a mesma denúncia.

7 – Equador

O ex-ministro de Energia Alecksey Mosquera e um empresário foram os primeiros presos do Caso Odebrecht no país, em abril. Ambos já foram denunciados pela Procuradoria-geral. A Justiça do país tem atuado com firmeza e bloqueou US$ 40 milhões que a empresa tinha a receber por obras já feitas. O dinheiro deve servir de indenização caso um acordo de delação saia do papel.

8 – Peru

O Peru foi o primeiro país onde a Odebrecht teve obras fora do Brasil, em 1979, e um dos que já tiveram mais contratos: mais de 70. Mesmo com a delação em sigilo, as autoridades já delimitaram quase todos os beneficiários dos US$ 29 milhões pagos no país. Suposto recebedor da maior parcela, o ex-presidente Alejandro Toledo é alvo de uma ordem de prisão e está foragido nos EUA.

9 – Argentina

Os detalhes sobre os US$ 35 milhões em propinas no país são conhecidos pelo que já se sabia antes da delação, e salpicam tanto o presidente Mauricio Macri quanto Cristina Kirchner, a antecessora. Macri tem um subordinado – chefe de inteligência – que recebeu dinheiro na Suíça e um primo dele, empresário, tem um consórcio com a Odebrecht sob investigação. Já Cristina tem um ex-ministro implicado no caso.

10 – Angola e Moçambique

A história da Odebrecht em Angola tem mais de 30 anos e o grupo já teve no país africano 161 contratos, que vão de obras comuns até supermercados e exploração de diamantes. Os negócios no país são quase todos controlados pelo círculo do presidente, José Eduardo Santos, no poder desde 1979. Em Moçambique as autoridades até chegaram a pedir informações à PGR, mas em Angola nem isso aconteceu.