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Lava Jato começa a rondar matrizes de multinacionais

Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba As duas últimas fases da Lava Jato, que atingiram o ex-deputado Cândido Vacca..

Narley Resende - 28 de agosto de 2017, 12:48

Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba

As duas últimas fases da Lava Jato, que atingiram o ex-deputado Cândido Vaccarezza e o advogado Tiago Cedraz, filho de um ministro do TCU (Tribunal de Contas da União), têm como alvo a mesma empresa: a norte-americana Sargeant Marine, fornecedora de asfalto à Petrobras.

Delatada pela primeira vez há quase três anos, mas só agora investigada de fato, a Sargeant é apenas uma entre várias empresas estrangeiras suspeitas de terem pago propinas no Brasil.

Exceto pelos poucos casos em que as companhias fizeram acordo com a Justiça, a regra tem sido a punição limitada: vários brasileiros, agentes comerciais (ou ‘brokers’) dessas empresas, já foram processados, mas não os donos das multinacionais, no país de origem, não foram alcançados.

Embora a lei permita denunciar e condenar estrangeiros por repasses ilegais em solo brasileiro, o caminho é permeado por dificuldades.

Para começar, há representantes como o lobista Júlio Camargo, da coreana Samsung. A empresa pagou pelo menos US$ 15 milhões em propina, mas Camargo “livrou a cara” dos executivos estrangeiros, garantiu que acertou os pagamentos sem consultá-los e disse que tirou o dinheiro sujo da comissão que recebeu por fechar o negócio.

No entanto, mesmo nos casos em que o ‘broker’ incrimina a matriz, pode não haver nada além da palavra do delator para sustentar uma denúncia. “É muito mais difícil materializar essa corrupção do proprietário fora do país. Justamente porque ele se vale do representante dele aqui, que acaba sendo um testa-de-ferro, um bode expiatório”, avalia o delegado Filipe Pace, da PF (Polícia Federal).

A Sargeant Marine é suspeita de ter pago propina para ter contratos de venda de asfalto à Petrobras no valor de US$ 180 milhões.

Em 2010 a empresa bancou a viagem de Carlos Barbosa, um ex-gerente da Petrobras, para a Flórida, sede da companhia, e combinou tudo no e-mail pessoal de Barbosa, o que sugere pouca transparência no negócio.

O lobista Jorge Luz, que mediou estes contatos, foi taxativo em dizer que os controladores Harry Sargeant III e Daniel Sargeant “tinham conhecimento que esta era a regra do jogo” e concordaram com tudo. Mesmo com esses indícios, porém, ainda é cedo para dizer se eles serão alcançados pela investigação, o que ilustra a dificuldade citada pelo delegado.

O caso da Sargeant, de qualquer maneira, foge à regra porque os mesmos fatos já são investigados nos pró- prios Estados Unidos. É por esse motivo o broker da empresa, Luiz Eduardo Loureiro, ainda não se apresentou ao Brasil para ser preso.

Harry Sargeant III rebateu as suspeitas em uma nota à imprensa. “Nunca fui proprietário nem tive envolvimento com os negócios e assuntos da Sargeant Marine, incluindo, sem limitação, qualquer conduta associada às transações brasileiras que fazem parte da investigação Lava Jato”.