câmara dos vereadores
Compartilhar

Carne Fraca: fraudes não representam riscos à saúde, diz ministério

Por Andreza Rossini e Mariana OhdeO ex-diretor-presidente global da BRF Brasil Foods, Pedro de Andrade Faria, foi..

Mariana Ohde - 05 de março de 2018, 10:49

Por Andreza Rossini e Mariana Ohde

O ex-diretor-presidente global da BRF Brasil Foods, Pedro de Andrade Faria, foi preso na 3ª fase da Operação Carne Fraca - chamada Operação Trapaça - deflagrada na manhã desta segunda-feira (5), em cinco estados - São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás. Dez mandados de prisão temporária foram cumpridos de um total de doze.

De acordo com a Polícia Federal, a expectativa é que eles sejam cumpridos até o final do dia.

A nova fase investiga alterações em testes de qualidade feitas nos laboratórios da BRF e terceirizados. Segundo a força-tarefa, houve adulteração de amostras que tinham a presença de bactérias salmonella. Não deve haver prejuízo à saúde pública, uma vez que a forma de consumo das carnes de frango e peru no Brasil (assadas, cozidas, entre outros) elimina essas bactérias, segundo as autoridades.

Porém, as exportações podem sofrer. Ao todo, 12 países para os quais o Brasil exporta exigem a ausência dessas bactérias nos produtos - entre eles, países da União Europeia e Rússia. “Naturalmente, vai gerar questionamentos. Recebemos em média 30 missões internacionais no ano. Em 2017, foram mais de 70 países por causa da operação". explica Alexandre Campos da Silva, coordenador-geral de inspeção do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), se referindo às consequências da primeira fase da operação, deflagrada no início do ano passado.

Segundo a PF, os três frigoríficos investigados já haviam tido suas atividades suspensas no ano passado, na mesma operação. “Os que voltaram provavelmente vão ser suspensos hoje”, disse Alexandre. Também serão realizadas auditorias para checar se será necessária a suspensão dos itens no mercado interno.

Carne Fraca

Grande parte do material e das evidências que deram origem à operação de hoje são resultado das diligências da Carne Fraca. "Há trocas de e-mails bastante consistentes dos executivos da BRF, provas claras e evidentes", explica Maurício Moscardi Grillo, delegado da PF e coordenador da Operação Trapaça. A operação também é baseada em depoimentos colhidos nas primeiras fases.

Foram identificados dois tipos de fraudes. O primeiro relacionado aos testes de qualidade. Segundo Mauricio Moscardi, as irregularidades começavam nas granjas, que não atendiam requisitos sanitários e onde já havia contaminação da carne. Os produtos passavam pelas plantas frigoríficas e, na análise laboratorial, havia adulteração de resultados.

De acordo com a PF, cinco laboratórios que eram credenciados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e setores de análises da BRF fraudavam resultados. Os laboratórios da BRF e terceirizados mudavam o quantitativo de patógenos encontrados nas amostras. "Às vezes encontravam 75% de um patógeno que poderia ter 20%. Eles alteravam esse dado para ficar tudo certo", explica Moscardi. Com isso, os resultados ficavam de acordo com as exigências legais antes de serem apresentados aos fiscais do Mapa.

Outra adulteração identificada na operação é de um composto usado na alimentação das aves. "É uma mistura chamada premix, que é oferecida para o frango do abate. Eles fraudavam a substância o que é comprovado por e-mail". "Não resta qualquer tipo de dúvida da fraude", completou o delegado.

Segundo Moscardi, várias áreas da BRF tinham conhecimento do esquema. "O controle de qualidade e os grandes executivos tinham conhecimento do que acontecia. Quando tinha fiscalização eles retiravam as substâncias dos depósitos. "Eles cadastravam laboratórios que pudessem atuar para eles no sentido de defender seu interesse pessoal e não o interesse correto da empresa", explicou.

“As fraudes ocorreram entre 2012 e 2015, de acordo com as provas de e mails. Temos tabelas, tudo é estipulado no e mail - o que foi alterado ou não. Uma funcionária que saiu da empresa e moveu uma ação trabalhista serviu de provas para a PF. Essa pessoa foi um risco da empresa, inclusive o presidente tentou interceder para barrar o processo e evitar que chegasse até o Mapa”, disse Moscardi.

Salmonella

Entre as fraudes, estão amostras relacionadas ao grupo de bactérias salmonella spp. A presença teria sido omitida ou minimizada. "Temos cerca de 2 mil aprovares de salmonella, dois de perigo para a saúde animal e dois que representam perigo para a saúde pública", explica Alexandre.

As autoridades garantem que o esquema identificado nesta fase não representa risco para a saúde. "Os dois patógenos de salmonella que oferecem risco a saúde pública não foram alterados, segundo o que descobrimos até agora. As outras formas de salmonella não nos oferecem risco pela forma como consumimos (frito, assado, cozido)”, explica.

Porém, as exportações devem sofrer consequências. "Em 2017, nós tivemos cerca 410 notificações desse patógeno dos 12 mercados com restrição para salmonela - 80% na Europa. Quando um pais vem até o Brasil verificar as condições de exportação eles checam a inspeção federal", explica Alexandre.

Por outro lado, não foi identificada a atuação de agentes públicos nesta fase. “Nessa segunda situação não tivemos suspeitas de funcionários públicos envolvidos nas fraudes o que nos possibilitou trabalhar ao lado do Mapa. A PF conta com esse parceiro, tem um interesse para a investigação de ter o apoio de um órgão competente nas análises”, afirma o delegado Moscardi.

Laboratórios atuavam de forma "profissional"

Segundo as autoridades, a própria empresa é responsável pelo controle de qualidade e o Mapa fiscaliza seus resultados. Os laboratórios que fazem os testes também precisam ser cadastrados no ministério.

"Para as empresas