Dificuldades e esperança marcam o ano de migrantes em todo o mundo

Redação


2018 foi mais um ano de partidas e chegadas para milhões de pessoas em todo o mundo. Após a crise migratória na Síria, que atingiu seu auge entre 2016 e 2017, países na América estiveram no centro dos debates neste ano.

Entre eles, a Venezuela, que vive a pior recessão econômica de sua história. São três anos de retração econômica. Entre 2013 e 2017, o PIB do país caiu 37% e, de acordo com o Fundo Monetário Internacional, deve cair mais 15% em 2018.

A crise privou a população do acesso a serviços básicos, como os de saúde, e chegou a esvaziar as prateleiras de supermercados. A saída, para grande parte dos venezuelanos, tem sido procurar, em outros países, melhores condições de vida.

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

É uma crise migratória de grandes proporções. Hoje, mais de 3 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos vivem fora de seu país, sendo que 2,3 milhões deixaram sua terra natal a partir de 2015. E as estimativas são pessimistas. Segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM), em 2019, 3,6 milhões de pessoas vão precisar de ajuda, sem previsão de retorno à Venezuela.

Hoje, a Colômbia abriga o maior número de refugiados e migrantes da Venezuela — mais de 1 milhão. Em seguida, vem o Peru, com mais de 500 mil venezuelanos, Equador, com mais de 220 mil, Argentina, com 130 mil, Chile, com mais de 100 mil.

No Brasil, estima-se que cerca de 150 mil imigrantes cruzaram a fronteira. Mais de 85 mil procuraram a Polícia Federal para solicitar refúgio ou residência no Brasil. Os dados da operação estão compilados no site da Casa Civil.

Foto: Isac Nóbrega / PR

Com tantos imigrantes concentrados em um só estado, o governo federal deu início, em fevereiro, a um programa de interiorização. Desde então, mais de 3 mil imigrantes foram transferidos da fronteira para outras cidades, onde eles podem encontrar melhores condições para recomeçar.

No Paraná

Segundo os últimos dados da Casa Civil, da Presidência da República, o Paraná recebeu 231 venezuelanos no programa de interiorização em 2018. Foram 131 em Curitiba, 10 em Foz do Iguaçu, 86 em Goioerê e 4 em Londrina.

Ainda segundo a Casa Civil, não há previsão de quais serão as próximas cidades a receber os imigrantes. “Há um diálogo constante do Governo Federal com estados e municípios para viabilizar abrigos e oportunidades para venezuelanos no contexto desta ajuda humanitária”, informa o órgão.

Os imigrantes chegaram ao estado em quatro grupos. Em geral, eles são recebidos, nas cidades, por organizações e entidades civis. A primeira cidade paranaense a receber os imigrantes foi Goioerê, no Noroeste do Paraná, onde eles foram atendidos pela Aldeias Infantis SOS.

Foi a primeira vez em que a cidade, de quase 30 mil habitantes, recebeu um fluxo migratório similar. De acordo com o sub-gestor da Aldeia SOS, Sérgio Marques, representantes da prefeitura tomaram medidas para orientar a população quanto à recepção.

“A prefeitura de Goioerê está nos apoiando e disponibilizando todos serviços públicos e equipamentos do município para apoiar a estadia dos venezuelanos aqui. A população está muito mobilizada”, contou, na época. “Está se formando uma corrente muito positiva aqui para recebê-los”.

Foto: AEN

Em Curitiba, a Cáritas organizou um programa de acolhimento, oferendo casas mobiliadas pelo período de alguns meses, até que possam se estabelecer na capital ou em outras cidades. O último grupo, de 102 imigrantes, chegou no dia 20 de dezembro. Alguns se instalaram em Colombo, na região metropolitana.

“São pessoas que têm história, tiveram que deixar para trás a família, seus sonhos. A gente tem recebido pessoas com muito potencial, pessoas que podem contribuir muito com nosso país”, explica a coordenadora dos projetos com o tema de imigração da Cáritas, Márcia Ponce. “Assim como temos muitos brasileiros vivendo em outros países, que a gente também possa acolher e acolher com dignidade”.

Em Curitiba, pessoas interessadas em ajudar os venezuelanos com doações podem entrar em contato com a Caritas pelo telefone (41) 3023-9907. As doações também podem ser entregues das 9h às 17h na Casa de Acolhida Dom Oscar Romero, na Rua General Teodorico Guimarães, número 48, no bairro Fanny.

Intolerância nos EUA

Cenas de crianças separadas dos pais imigrantes, nos Estados Unidos, foram outro marco em 2018. Com a eleição de Donald Trump, o país, que vem vivendo um endurecimento das leis de imigração, se tornou o centro de um escândalo internacional ao enviar os pequenos em abrigos e prender os seus pais, que chegavam sem documentação.

Foto: Lalo de Almeida / Folhapress

A separação de famílias, especialmente na fronteira dos Estados Unidos com o México, foi resultado da política de “tolerância zero”, adotada pela administração Donald Trump, em meados de abril. Os imigrantes ilegais – mesmo aqueles que procuravam asilo – são presos e respondem por crime federal nos EUA. Em seis semanas, mais de 2 mil crianças foram separadas dos pais e levadas para abrigos no início do ano.

Entre elas, estavam cerca de 50 crianças e pais brasileiros. As crianças tinham entre 6 e 17 anos, e foram para 15 abrigos espalhados pelo país. Pelo menos 11 estavam sozinhas, sem outros brasileiros, em locais onde a maioria das pessoas fala apenas espanhol ou inglês.

Com a repercussão, o país apertou os esforços para reunir as famílias separadas. Conforme um relatório oficial do governo, de novembro, 2.458 das 2.667 crianças separadas dos pais na fronteira com o México foram reunificadas.

Foto: Lalo de Almeida / Folhapress

O presidente, porém, segue firme no intuito de inibir o movimento migratório. Em seu Twitter, no dia 16 de dezembro, voltou a defender a tolerância zero e também a separação de parentes. “No entanto, se você não se separar, MUITO mais pessoas virão. Os traficantes de pessoas utilizam as crianças!”, escreveu, no Twitter.

“A política dos democratas de separação de crianças na fronteira durante o governo Obama foi muito pior do que a maneira como lidamos com isso agora. Lembrem da foto de 2014 de crianças em gaiolas – os anos Obama”, completou, falando de seu antecessor, Barack Obama.

Também por causa das críticas, em junho, Trump assinou um decreto determinando o fim da divisão das famílias. Isso, porém, é feito com a detenção dos menores junto com os pais que aguardam o processo de deportação.

No Brasil

No Brasil, a equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro dá sinais de que a política migratória será, também, dura no Brasil. Em dezembro, o futuro chanceler Ernesto Araújo afirmou que deverá se desassociar do Pacto Global de Migração, documento que foi aprovado no dia 10 de dezembro.

Nas redes sociais, ele afirmou que “a imigração não deve ser tratada como questão global, mas sim de acordo com a realidade e a soberania de cada país”.

Previous ArticleNext Article