Depois de 58 anos, Seu Antônio fecha barbearia no Mercado Municipal

Mariana Ohde e Redação

Aos 82 anos, o barbeiro é um dos mais antigos da capital.

O tradicional salão do senhor Antônio, no Mercado Municipal de Curitiba, tem data para fechar as portas: nesta sexta-feira (31), um dia antes de o barbeiro e cabeleireiro completar 58 anos de atividades no local.

Chiguenobu Yochida, nome de batismo de Antônio, que, hoje, tem 82 anos, abriu as portas de seu salão no dia 1º de setembro de 1960. Desde 1964, o negócio está no mesmo lugar: o Box 375, localizado logo depois da entrada da Avenida Sete de Setembro.

Com apenas 16 metros quadrados, o salão tem um mobiliário histórico: as duas cadeiras usadas no local têm entre 65 e 80 anos.

Há, ainda, um porta-chapéus com espelho, exemplares da revista O Cruzeiro, navalhas de mais de 50 anos e até uma tesoura japonesa herdada do pai, que também era barbeiro e cabeleireiro, com mais de 100 anos. “Meu pai usou esta tesoura quando trabalhava em um salão em Tóquio e você acredita que ela nunca precisou ser afiada?”, conta com orgulho o profissional, esboçando seu característico sorriso tímido que vai fazer falta aos clientes.

Hoje, porém, Antônio sente o peso de tantos anos de atividade – ao longo dos anos, ele desenvolveu um problema vascular por passar horas em pé. “Querer eu não queria, mas tenho que me aposentar”, reconhece ele, que ouve com dificuldade, mesmo com a ajuda de dois aparelhos auditivos.

Foto: Cesar Brustolin / SMCS

Com a decisão do cabeleireiro, gerações de clientes já começaram a se despedir do simpático senhor. “Corto com seu Antônio há mais de 20 anos. Ninguém tem a mão tão firme como a dele, que faz um acabamento perfeito, graças a sua coleção de navalhas”, afirma o empresário Paulo Brunel.

Cliente há um ano de seu Antônio, o médico Airton Yamada, 54 anos, ainda não sabe com quem irá cortar o cabelo, após a aposentadoria do barbeiro e cabeleireiro. “Não é qualquer profissional que sabe cortar cabelo de japonês, que é muito duro. Qualquer erro e surgem aqueles caminhos de rato. O que vou fazer?”, afirma ele.

História de amor

Nascido na cidade de Lins, no interior de São Paulo, seu Antônio cruzou a divisa com o Norte do Paraná no início dos anos 1950, mudando-se inicialmente para Wenceslau Brás. Mas a estada foi muito curta e, logo em seguida, ele chegou à desconhecida Curitiba, onde resolveu trabalhar com o ofício ensinado pelo pai.

“Cheguei a Curitiba, no mesmo ano em que começou a construção do Mercado Municipal (1956). Logo me falaram que a Prefeitura estava erguendo um mercado no meio do mato, em um banhado”, lembra ele, um dos veteranos do espaço, inaugurado em 2 de agosto de 1958.

O apelido Antônio foi escolhido na adolescência. “Poucos sabiam pronunciar meu nome em japonês e, por isso, acabei adotando Antônio”, revela.

Seu Antônio hoje trabalha sozinho, das 8h às 18 h, de segunda-feira a sábado. De acordo com ele, o movimento costumava ser maior entre os anos 1960 e 1970, quando o Mercado Municipal também era o centro de abastecimento de atacado (hoje concentrado na Ceasa).

“Naquela época, o Mercado abria às 3h da manhã, quando eu começa a trabalhar, e funcionava de domingo a domingo. Depois vieram todas as reformas e ampliações que transformaram o mercado no que é hoje”, recorda ele.

Pelas suas navalhas e tesouras já passaram fregueses ilustres, como os ex-governadores Ney Braga e Bento Munhoz da Rocha. “Sou do tempo em que ainda se falava ‘vim fazer cabelo, barba e bigode’ e o mais engraçado é que agora a moda voltou, mas entre os jovens”, conta ele, que tem fregueses de todas as idades.

Mas pensa que ele vai parar? “Vou atender em casa, mas com hora marcada”, conta. “Se algum cliente quiser ir, é só pegar o meu cartão”, avisa ele, que, no fim da próxima semana, começa a transferir o mobiliário do salão para sua residência na Vila Fanny.

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Repórter no Paraná Portal
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