Após nove anos, Carli Filho foi condenado por duplo homicídio e vai responder em liberdade

Andreza Rossini


Entre os fatos marcantes de 2018, que merecem figurar a retrospectiva do ano, está a condenação do ex-deputado Luiz Fernando Ribas Carli Filho, em fevereiro deste ano, a 9 anos e 4 meses de prisão, por duplo homicídio com dolo eventual, após provocar o acidente que vitimou Gilmar Rafael Yared e Carlos Murilo de Almeida, em 2009.

A sentença ocorreu quase nove anos após a colisão de trânsito. Atualmente, a defesa de Carli, recorre ao Tribunal de Justiça solicitando a redução da pena e, o Ministério Público, pede que a pena seja aumentada.

Após entrar com recurso no Tribunal de Justiça, os magistrados reduziram a pena para sete anos e permitiram que o ex-deputado cumpra em regime semi-aberto, utilizando tornozeleira eletrônica. Ainda cabem recursos à decisão no TJ e no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A apelação ocorreu em dezembro deste ano, pela Primeira Câmara Criminal do órgão.

Relembre o acidente

Na madrugada do dia 7 de maio de 2009, Carli Filho dirigia a pelo menos 160 Km/h com a carteira de motorista cassada. O carro, um Passat blindado, decolou do asfalto e arrancou o teto do Honda Fit de Gilmar Rafael Yared e Carlos Murilo, que morreram antes da chegada do socorro. O ex-deputado foi levado para o hospital com um quadro grave e instável, ficou na UTI, respirando por aparelhos. Ainda no hospital, um exame indicou que Carli Filho tinha 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue. Por ter sido feito sem consentimento, a defesa conseguiu que o teste fosse desconsiderado como prova.

Pedido de perdão e revolta: família de Carli discute com YaredCarli Filho foi eleito deputado em 2006, com 46 mil votos, quando tinha 23 anos de idade. Recebeu mais de 46 mil votos, cerca de 37 mil deles na cidade onde o pai era prefeito. Se for condenado por duplo homicídio, a pena pode chegar a 30 anos de prisão.

Relembre o julgamento

O julgamento foi marcado por fortes momentos. Entre eles, as imagens do acidente que mostravam uma das vítimas decapitadas. Nesse momento, Carli Filho pediu para sair da sala.

Abalada com imagens do acidente, que ainda não tinha visto, Christiane Yared, mãe de uma das vítimas, não conteve o choro. Ela não prestou depoimento devido ao abalo emocional. No intervalo, em entrevista aos jornalistas, desabafou:

“Não tem vencedor, não há vencedor (no julgamento)… o filho morto eu não trago de volta. Eu posso chorar, ver as imagens, ficar chocada de ver… eu não tinha visto essas imagens, mas eu sei que nós precisamos lutar pelos filhos vivos”, disse, explicando de onde tirar forças para lutar pela mudança da “cultura do trânsito brasileiro em que é considerado normal beber e dirigir”. “Esse juri vai ser um divisor de águas… A justiça não é para os mortos, é para os vivos”.

Foto: Reprodução / Facebook

Durante o intervalo da audiência, uma tia do ex-deputado Carli Filho, que não se identificou, pediu a Yared que perdoasse o sobrinho.

“Perdoe, vai falar com a mãe dele e o pai… Você promete? Ele não teve intenção de causar o acidente… não saiu de casa para matar… Seu filho morreu, mas foi um acidente… e se fosse seu filho?”, questionou a tia.

O pedido causou revolta. Yared argumentou que nunca recebeu o pedido de perdão, apesar do vídeo que foi publicado pelo réu nas redes sociais.

“Carli Filho não me pediu perdão. Ele não pediu perdão a mim, ele pediu perdão a uma rede social. Ele pediu perdão para tentar melhorar a imagem dele perante a sociedade. Perdão se pede olhando nos olhos, chorando e abraçando”, afirmou.

Testemunhas

A terceira testemunha, a prestar depoimento no julgamento, Altevir Gonçalves dos Santos, que trabalhava no restaurante, descreveu o estado em que Carli Filho deixou o local: “Ele saiu de uma maneira meio brusca, com as pernas trançando. Aquilo chamou a minha atenção. Ele subiu [para o estacionamento] acompanhado do casal”.

Carli teria entrado no carro dos amigos para pegar carona, mas saiu no último segundo, entrou no próprio carro e acelerou.

“Ele saltou do carro [do casal]. Ficou segundos. Ele é um rapaz forte, eu tentei segurar ele”, relatou a testemunha, afirmando que orientou que Carli se acalmasse e não dirigisse. “Eu fiz de tudo. Estou sendo sincero. Mas infelizmente ele não…”, desabafou.

Uma das testemunhas consideradas mais importantes, Leandro Lopes Ribeiro, viu o momento em que o acidente aconteceu.

“No local, o carro estava esmagado. Eu vi o pedaço do crânio de uma das vítimas””, conta.”

Questionado pelo MP sobre a altura que ele estima que o carro de Carli Filho saiu do chão, a testemunha ocular disse que seria cerca de 1,5 m.

A quinta testemunha, Yuri da Cunha, esteve no local do acidente minutos após a colisão. “Pouco antes de chegar na esquina, eu ouvi o estrondo”, conta.
A defesa de Carli Filho sustenta que a culpa do acidente foi das vítimas: “Eles teriam furado a preferencial… Eles [as vítimas] não pararam. [O Honda Fit] segurou e entrou”, declarou a testemunha ao ser questionado pelos advogados do ex-deputado.

Carli foi julgado por cinco mulheres e dois homens.  Os jurados foram selecionados entre 45 cidadãos. A identidade é protegida pela Justiça.

Perito

O perito Ventura Raphael Martello Filho afirmou, em depoimento, que foi impossível precisar a velocidade do carro dirigido pelo réu.

“É muito difícil estimar a velocidade… a deformação dos veículos, tudo isso é levado em consideração… O Passat passou com sua parte mais resistente na parte mais frágil da Honda Fit. Nenhum dos métodos que a gente conhece teria condição de ser aplicado nesse caso. Tem método baseado na frenagem, no dano ao pedestre, na deformação… O método foi muito precário nesse caso. Eles evoluíram de uma forma indeterminada. A gente não tinha os elementos necessários para fazer um método preciso”, explicou.

A condenação

O juiz responsável pela 2ª Vara do Tribunal do Júri de Curitiba, Daniel Surdi de Avelar, destacou que Carli Filho é réu primário, tem residência fixa, compareceu em todos os autos do processo e não possui outras ações penais em andamento ao ler a sentença no final da tarde de quarta-feira (28). Com bom comportamento na cadeia, a Lei de Execução Penal permite que réus primários ganhem a saída temporária após cumprir um sexto da pena. No caso, o ex-deputado poderia progredir para o regime semiaberto após cumprir 18 meses na prisão.

Além da prisão, Carli Filho também vai precisar pagar multa. O valor se refere ao pagamento de “140 dias-multa”, o que equivale ao montante superior aos R$ 300 mil. O juiz Daniel Surdi de Avelar estabeleceu o valor de cada dia-multa em três salários mínimos regionais do Paraná, em valores da época do acidente e, ainda, corrigidos pelo IGP-M.

Questionada se, com o resultado, ela perdoa Carli Filho, Yared disse que sim: “eu não vou carregar esse peso comigo”. E mandou recado diretamente para ele. “A pena que foi imposta foi exatamente resposta a aquilo que você causou naquela madrugada”, disse.

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