Caminhoneiro liberado de bloqueio desabafa: “estávamos desesperados”

Jordana Martinez


O depoimento de um caminhoneiro liberado de um bloqueio pela Polícia Rodoviária Federal evidencia que muitos profissionais estão sendo obrigados a permanecer na rodovia contra a vontade.

O registro foi feito por equipes da PRF que liberaram o homem na noite desta terça-feira (29), em Cascavel, na região oeste do estado. Dormindo no caminhão há dias, sem comida e coagido por um grupo que não teria nenhum vínculo com a categoria, ele desabafou:

“Estou desde segunda aqui. Eu agradeço, vocês são uns anjos de Deus, porque nós estávamos desesperados. Ontem à noite eu fiz uma postagem para minha esposa de que nós iríamos reunir um grupo aqui e enfrentar esses caras. Nós iríamos morrer ali, mas nós iríamos enfrentar. Deus não deixou… ela falou que iria orar e que Deus iria providenciar”, disse.

Segundo o caminhoneiro, a grande maioria teria deixado a estrada desde segunda, se não fossem as ameaças.

“Os que estão aqui embaixo, todos querem ir embora, mas muitos tem medo de falar, né”, afirmou.

A Secretaria de Segurança Pública informou que Polícia Civil irá investigar e identificar a movimentação de grupos que estejam impedindo o fim da paralisação dos caminhoneiros. Para o secretário de segurança, Júlio Reis, o caso pode ser caracterizado como cárcere privado.

“Demanda uma investigação até da Polícia Civil por diversos crimes, até eventual crime de cárcere privado para aqueles casos em que (os caminhoneiros) queiram trabalhar e estejam sendo impedidos de sair devido a outros interesses naquele local. “, disse Reis.

O gerente comercial de uma das distribuidoras de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, afirmou ao Paraná Portal que as ameaças se repetiram nos últimos dias. Com medo de represálias, ele preferiu não ser identificado, mas fez a denúncia:

“Alguns núcleos se infiltraram e, agora, com essa bandeira de intervenção militar, essa manifestação se dá de uma maneira bastante truculenta, bem marginal mesmo. Não há uma conversa, é cerceado o direito de ir e vir do profissional. Ele é coagido, é abordado de maneira, até certo ponto, violenta”, afirmou.

“Com que direito que um civil, uma pessoa qualquer, desprovida de qualquer direito de polícia, pode abordar um veículo seja qual for, um caminhão pequeno ou grande, parar o indivíduo, pedir nota fiscal, e se o caminhão estiver indo para uma empresa, ser impedido de seguir”, desabafou.

A Polícia Rodoviária Federal explica que, em caso de o caminhoneiro estar no bloqueio impossibilitado de sair, coagido por outros motoristas, deve acionar a PRF pelo 191. Nesta quarta-feira (29), 10º dia de paralisação, o Paraná tem 159 pontos de interdição nas rodovias estaduais e 107 em estradas federais.

 

De acordo com o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Autônomos (CNTA), Dilmar Bueno, que representa 120 sindicatos de todo o país, os bloqueios de rodovias já não são mais dos caminhoneiros.  Ele denunciou a “infintração” de pessoas “alheias ao movimento” que tem “interesses difusos”.

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“Não existe um dono da categoria. A categoria instaurou o movimento de forma independente até um determinado momento sob orientação das entidades sindicais que estão debaixo do guarda-chuva da confederação. Agora, em função da expressão do movimento dos caminhoneiros em nível nacional, começou uma invasão de pessoas alheias aos interesses dos caminhoneiros. Recebemos a informação de que caminhoneiros, com necessidade de ir embora, estão sendo impedidos”, afirmou Bueno.

Apesar de afirmar que o movimento organizado pela categoria acabou, o presidente da CNTA não deu garantias de que a orientação das lideranças signifique o fim da greve.

“Garantias, ninguém pode dar. Não existe esse Deus na nossa categoria. É um pedido e uma orientação da Confederação”, afirmou.

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Logo após a coletiva, a CNTA divulgou uma nota que parabeniza as conquistas da categoria mas chama atenção para o desgaste desnecessário que começa a ocorrer em todo o país. “Tudo que foi conquistado até agora, como a boa imagem da categoria perante a população e as reivindicações atendidas, correm o risco de se perder. […] Entendemos que daqui para frente só haverá prejuízo aos caminhoneiros, de modo que a CNTA e todas as entidades sindicais de sua base, pedem a compreensão pelo fim da paralisação”.

O superintendente da PRF no Paraná, Adriano Furtado, afirmou que não houve interdições totais de rodovias federais no estado e que a PRF acompanha a paralisação do segmento de cargas, mas que os caminhões não podem parar no acostamento.

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Jordana Martinez
Profissional multimídia com passagens pela Tv Band Curitiba, RPC, Rede Massa, RicTv, rádio CBNCuritiba e BandNewsCuritiba. Hoje é editora-chefe do Paraná Portal.