Caso Daniel: o homicídio que chocou o país

Francielly Azevedo

caso daniel

No início do mês de novembro o país conheceu a história da Família Brittes acusada pelo assassinato do jogador Daniel Corrêa de Freitas, de 24 anos. O atleta foi morto degolado e teve o órgão sexual decepado. O corpo dele foi encontrado na Colônia Mergulhão, área rural de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. O crime aconteceu no dia 27 de outubro, mas a polícia só chegou aos suspeitos dias depois.

Sete pessoas são rés no processo por envolvimento na morte de Daniel: Edison Brittes, Cristiana Brittes, Allana Brites, Ygor King, David Vollero, Eduardo da Silva e Evellyn Perusso.

Revelado pelo Cruzeiro e com passagens por Coritiba, São Paulo, Ponte Preta, Botafogo e São Bento, Daniel veio para Curitiba comemorar o aniversário de 18 anos de Allana Brittes, no dia 26 de outubro, em uma casa noturna, no bairro Batel, em Curitiba. A comemoração se estendeu na casa dos pais de Allana, Cristiana e Edison Brittes, último lugar que o jogador teve contato com amigos pelo WhatsApp. Na casa ele foi espancado e depois conduzido no porta-malas do carro de Edison até a Colônia Mergulhão, onde foi morto.

O comerciante Edison Brittes, de 38 anos, confessou ter assassinado o jogador, porque Daniel teria tentado estuprar a esposa Cristiana Brittes. Antes da confissão, Edison se reuniu com testemunhas em um shopping da cidade para supostamente combinar uma versão dos fatos. Ele se entregou após o depoimento de uma testemunha que o apontava como autor do crime.

TELEFONEMA

Edison também foi gravado em ligação com um amigo da vítima se lamentando sobre o sumiço do atleta e dando outra versão sobre o que aconteceu na noite em que Daniel morreu. Na ligação, que aconteceu após o corpo de Daniel ter sido encontrado e identificado, Edison Brittes diz que não sabia como Daniel foi embora e que estava chocado com o caso. Falou também que teve que dar calmante para a filha, Allana, após saberem da morte da vítima e que ele chegou a ligar para a irmã de Daniel para dar os pêsames.



Ele também conta que o atleta era muito amigo de Allana e que veio para cidade apenas para o aniversário da jovem. “Ela é tão amiga dele que ele veio só para o aniversário dela. Era um querido dela, imagine. Veio de longe só para a festa dela, era uma pessoa muito querida pela gente”.

As gravações mostraram um contraponto da versão que foi apresentada pelos suspeitos em entrevistas e materiais divulgados pela defesa para a imprensa antes de Edison se entregar.

A filha de Brittes, Allana, também gravou um vídeo, no mesmo local, em que afirma que conhecia Daniel há menos de um ano, que ele não era convidado da festa em sua casa e que ele chegou ao local alterado. Na manhã em que o corpo do jogador foi encontrado, a jovem chegou a publicar uma imagem de luto com a foto de ambos em sua festa no ano passado.

TENTATIVA DE ESTUPRO

Conforme os depoimentos de Edison, Cristiana e Allana, Daniel teria tentado estuprar a mãe da família. A primeira a depor foi Cristiana, ela disse que acordou com o jogador Daniel deitado em cima dela apenas de cueca e que, ao perceber que ela estava assustada, o mesmo teria dito ‘Calma, é o Daniel’.

“Precisamente quanto aos fatos, informa que em dado momento, enquanto dormia, acordou com DANIEL deitado sobre si, e assustada começou a gritar. Que DANIEL estava excitado, com o pênis ereto, trajando apenas cueca e passava a mão pelo corpo da interrogada, sendo que ele dizia “calma, é o DANIEL”, diz o depoimento de Cristiana.

A comerciante também relatou que Daniel esfregou o órgão sexual em seu corpo e ao perceber isso ela gritou por socorro. “Que aos gritos, pediu por socorro e ajuda, sendo que o primeiro a entrar em seu quarto foi seu marido JÚNIOR, o qual arrombou a porta para entrar no quarto, e então JÚNIOR segurou DANIEL pelo pescoço, tendo a interrogada saído pela janela de seu quarto, a qual tem saída para a área da frente da casa”, relatou. 

Edison foi o depoimento mais aguardado do caso. Ele falou por mais de seis horas e deu detalhes sobre a sua versão daquela noite mas ficou em silêncio ao ser questionado sobre o que aconteceu após ter colocado o atleta desorientado no porta-malas do carro, últimos momentos de Daniel em vida.

De acordo com o depoimento, o suspeito encontrou Daniel sobre a sua esposa, Cristiana Brittes, em seu quarto, mas diferente do que disse anteriormente em entrevistas e vídeos divulgados para a imprensa não foi ele quem arrombou a porta. Ele teria tido acesso ao quarto pela janela e a porta danificada por outra pessoa. No local, Brittes conta que segurou Daniel pelo pescoço e deu diversos socos e cotoveladas.

SÉTIMO PRESO

Além da família Brittes, foram presos pelo crime os jovens Ygor King, David Vollero e Eduardo da Silva, que estariam no carro de Edison na ocasião do crime. Dias depois, um sétimo suspeito foi preso: o gêmeo Eduardo Purkote, filho de um casal de políticos, suspeito de ajudar nas agressões. O jovem foi indiciado pela Polícia Civil, mas teve a prisão revogada pelo Ministério Público do Paraná e descartado da denúncia.

CONCLUSÃO DO INQUÉRITO

No dia 21 de novembro, o delegado Amadeu Trevisan, da delegacia de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, concluiu e entregou ao Ministério Público, inquérito sobre a morte do ex-jogador. Durante as investigações, 21 pessoas foram ouvidas na delegacia.

O Inquérito ultrapassou as 370 páginas, constando os depoimentos de todos os envolvidos, fotos, vídeos, áudios, além das diligências, relatórios policiais e laudos periciais solicitados durante o período de investigação – 25 dias, 600 horas de trabalhos.

Sete suspeitos foram indiciados por diferentes crimes, sendo homicídio qualificado, fraude processual, ocultação de cadáver, lesões graves e coação de testemunhas.

REÚS

A denúncia do Ministério Público do Paraná foi apresentada exatamente um mês após o crime. Um dia depois, em 28 de novembro, a juíza Luciane Regina Martins de Paula, da 1ª Vara Criminal de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, aceitou o documento e passou os acusados a condição de réus.

Entre os réus está Edison Brittes, assassino confesso do atleta, que vai responder por por homicídio triplamente qualificado por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima, além de ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de menor. Além dele, os três jovens que estavam no carro onde Daniel foi conduzido até a morte, Eduardo da Silva, Ygor King e David Vollero, também responderão pelos mesmo crimes imputados ao Edison.

A esposa de Edison, Cristina Brittes, é ré por homicídio qualificado por motivo torpe, coação do curso de processo, fraude processual e corrupção de menor. Para o promotor do MP, João Milton Salles, o envolvimento de Cristiana no homicídio foi ter “orientado os autores a prosseguirem com o justiçamento do jogador” fora da casa.

O MP também incluiu o nome de Evellyn Brisola, que estava na festa de Allana Brittes e teria ficado com o ex-jogador. Ela é acusada de denunciação caluniosa, fraude processual e falso testemunho por ter afirmado que Eduardo Purkote também estava na cena do crime.”

CONFIRA OS RÉUS E OS CRIMES:

  • Edison Brittes Júnior – homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de adolescente e coação no curso do processo;
  • Cristiana Brittes – homicídio qualificado por motivo torpe, coação do curso de processo, fraude processual e corrupção de adolescente;
  • Allana Brittes – coação no curso do processo, fraude processual e corrupção de adolescente;
  • Eduardo da Silva – homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de adolescente;
  • Ygor King – homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual e corrupção de adolescente;
  • David Willian Vollero da Silva – homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, fraude processual, corrupção de adolescente e denunciação caluniosa;
  • Evellyn Brisola Perusso – denunciação caluniosa, fraude processual, corrupção de adolescente e falso testemunho.

Dos sete réus, apenas Evelyn não está presa.

DEFESA DA FAMÍLIA BRITTES

Segundo o advogado Claudio Dalledone Junior, que representa a família Brittes, a denúncia deixa claro que um ato criminoso de Daniel originou seu assassinato. “Quem precipitou essa tragédia foi o Daniel. Precipitou cometendo crimes contra uma mulher vulnerável na cama. Ele é responsável pela construção de um criminoso e pela desgraça de uma família. O ato criminoso dele gerou essa tragédia”.

Dalledone chegou a dizer que, por falar em justiçamento, a denúncia é a melhor peça de defesa da família Brittes. “Quando o promotor diz que houve um ato de justiçamento, obrigatoriamente é reconhecer que houve um ato injusto do outro lato. Os atos de justiçamento não ocorrem sem que tenha uma carga emocional excessiva entre aqueles que participam do justiçamento”.

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Jornalista, formada pela Universidade Tuiuti do Paraná. Tem passagens pela TV Educativa, TV Assembleia, TV Transamérica, CATVE, Rádio Iguassu e Folha de Londrina. Atualmente trabalha no Paraná Portal e na Rádio CBN.