Casos de feminicídio que chocaram o Paraná

A receita geralmente é a mesma: confiança, amor e um relacionamento abusivo. Assim, muitas mulheres se tornam vítimas de..

Francielly Azevedo - 28 de dezembro de 2018, 07:00

Foto: Reprodução Facebook
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A receita geralmente é a mesma: confiança, amor e um relacionamento abusivo. Assim, muitas mulheres se tornam vítimas de seus parceiros desde relatos de agressão física até a morte. A frase "vivendo com o inimigo" nunca fez tanto sentido na maioria dos casos de feminicídio. Em 2018, dezenas de mulheres morreram no Paraná vítimas da violência contra o sexo feminino. Três casos de repercussão marcaram o ano e o Paraná Portal, infelizmente, relembra-os na retrospectiva.

Em 2018, o Paraná conheceu a história de três mulheres: Tatiane Spitzner, Andrielly Gonçalves e Renata Larissa. Em comum, as três jovens tinham a confiança nos homens em que se relacionavam, conforme apontam as investigações de ambos os casos.

Diante de tanta repercussão, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) chegou a divulgar dados de feminicídio do ano anterior. A cada hora de 2017, o Tribunal de Justiça do Paraná recebeu quatro novos processos sobre violência doméstica praticada contra mulheres. O tribunal paranaense foi o quinto que mais registrou crimes desse tipo. Os dados de 2018 ainda não estão disponíveis.

 

TATIANE SPITZNER 

Um dos casos de maior repercussão em 2018 foi a morte de Tatiante Spitzner, de 29 anos. No dia 22 de julho, a advogada foi encontrada morta no apartamento em que morava com marido, o professor Luis Felipe Manvailler, de 32 anos, em Guarapuava, na região central do estado. A perícia indicou que Tatiane teve uma fratura no pescoço, característica de quem sofreu esganadura.

Imagens de câmeras de segurança mostram ela sendo agredida antes de entrar no prédio, no estacionamento, no elevador, e a queda do 4º andar. Depois, Luis Felipe busca o corpo, leva ao apartamento, limpa os vestígios de sangue no corredor e elevador e foge do local por uma saída alternativa do estacionamento.

https://www.youtube.com/watch?v=kkZqzNra5_g

De acordo com a denúncia, Luis Felipe matou a esposa após diversas agressões físicas que teriam iniciado depois de um desentendimento ocorrido em virtude de mensagens em redes sociais, agindo por motivo fútil e desproporcional.

“Ainda, de acordo com o Laudo Pericial de Local de Morte, de fls. 239-249, o acusado, durante a execução do crime de homicídio, produziu lesões características de esganadura na vítima, quais sejam, ‘estigmas ungueais nas regiões laterais do pescoço, características de esganadura’, praticando o delito mediante asfixia. O denunciado, ao matar a vítima, agiu mediante recurso que dificultou a sua defesa, em razão da sua superioridade física em face da ofendida e das agressões contínuas e progressivas que inibiram a possibilidade de reação por parte desta. Ademais, o denunciado praticou o presente crime contra mulher por razões da condição de sexo feminino, já que Tatiane Spitzner era sua esposa, caracterizando violência doméstica e familiar”, dizia a denúncia.

Os promotores do Ministério Público relataram que Luis Felipe também praticou o crime de cárcere privado, pois impediu, mediante violência, que Tatiane se afastasse, por pelo menos três vezes, constrangendo-a a deixar a garagem do edifício em sua companhia, a permanecer dentro do elevador e a ingressar no apartamento em que residiam, restringindo a liberdade de locomoção da vítima, conforme as filmagens do circuito interno de câmeras do edifício.

https://www.youtube.com/watch?v=yeVvbJgRZ78

Laudos

Diversos laudos foram anexados ao processo. O documento da Polícia Científica do Paraná apontou que não houve qualquer tipo de impulso antes da queda da advogada do 4º andar. Além disso, o mesmo laudo indicou a presença de pequenas ranhuras, na borda da sacada do apartamento, semelhantes ao esmalte vermelho que Tatiane usava naquela noite.

“Na borda superior da sacada, região externa, havia a presença de pequenas ranhuras de cor vermelha, semelhantes àquelas de esmalte de unha e compatíveis com a cor de esmalte do cadáver,

além de outras marcas de atrito por fricção e/ou arrastamento, na localização informada como sendo o local da queda da vítima (tanto na borda superior, quanto na face externa do vidro). Estas

ranhuras são compatíveis com a passagem da parte superior da unha sobre a borda”, diz o documento.

No documento, os peritos sugerem duas possibilidades com base nos testes: desequilíbrio involuntário (queda acidental) ou abandono de corpo inerte. “A posição final da queda – 3,78 m de distância do alinhamento predial e local da precipitação, conforme já calculado, descrito e embasado no Tópico 5. PRECIPITAÇÃO DE ALTURA, refere-se a i) desequilíbrio involuntário (queda acidental) ou ii)) ou abandono de corpo inerte, sem qualquer tipo de impulso, contradizendo mais uma vez o depoente que declarou”, aponta a perícia.

Já o laudo do Instituto Médico Legal (IML) confirmou que a advogada morreu por asfixia mecânica por esganadura antes de cair da sacada do prédio. De acordo com o diretor do IML Paulino Pastre, houve luta corporal antes do crime. “Há um acervo de fotografias extremamente extenso que foi encaminhado para as autoridades judiciárias apontando que houve luta entre as partes antes da morte. O principal meio de conclusão foi o exame de necropsia, realizado na data do fato. Ela tinha marcas no pescoço que foram fotografadas e documentadas”, afirmou em coletiva de imprensa na época da divulgação dos laudos.

Luís Felipe está preso desde o dia 22 de julho, quando foi encontrado após se envolver em um acidente em uma rodovia a cerca de 320 km de Guarapuava. Ele dirigia o carro da advogada e seguia em direção a fronteira com o Paraguai e Argentina. Ele foi acusado pelos crimes de homicídio com quatro qualificadoras (meio cruel, dificultar defesa da vítima, motivo torpe e feminicídio), cárcere privado e fraude processual.

O Ministério Público do Paraná solicitou a avaliação psicológica de Luis Felipe, após ele ter tentado suicídio na prisão. O acusado foi visitado por um médico psiquiatra da Secretaria Municipal de Saúde de Guarapuava. No laudo da consulta, o especialista relatou que Manvailer “acha que a esposa pulou da sacada”, mas que “não lembra do que ocorreu”. Além disso, relata que se ele realmente fez isso, “deveria morrer”. Além disso, o psiquiatra destacou que o acusado apresentava “marca, aparentemente de barbeador no pescoço, sem aparentes riscos para alguém que é formado em biologia, e deve saber onde e como pode lesionar-se de uma forma fatal”.

Interrogatório

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Defesa

A defesa do professor Luís Felipe Manvailer considera a acusação do Ministério Público do Paraná (MPPR) uma “peça de ficção”. De acordo com os advogados, a acusação não consegue determinar o que causou a morte de Tatiane Spitzner e diz que, na narrativa da acusação, a vítima teria morrido duas vezes. A primeira por esganadura e a segunda causada pelo politraumatismo, quando caiu do apartamento em que morava.

A defesa também pede que a Justiça desconsidere as atas notariais anexadas ao processo em que mostram conversas de WhatsApp de Tatiane com uma amiga. As mensagens mostram o descontentamento de Tatiane com o relacionamento. Para a defesa, as mensagens estão fora de contexto e a dinâmica dos “prints” distorcem e inviabilizam a interpretação das mensagens.

 

Mais de doze mulheres procuraram a Delegacia da Mulher para relatar casos de estupros cometidos pelo policial militar Peterson Mota Cordeiro. Conforme as investigações, a maioria dos estupros foi cometida nas redondezas do Zoológico, no bairro Alto Boqueirão, em Curitiba.

De acordo com a delegacia da mulher, Peterson apresenta ser uma pessoa violenta.  Um dos boletins de ocorrência descreve que, enquanto abusava de uma das vítimas, ele pedia para a mesma dizer, por várias vezes, que ‘estava sendo estuprada’.

Cordeiro teve equipamentos eletrônicos apreendidos pela polícia. As equipes encontraram diversos vídeos e fotos das vítimas de estupro. O policial atraia as vítimas por meio das redes sociais. Segundo a delegada, a abordagem era amistosa e fazia com que a mulher confiasse nele.