Casos de feminicídio que chocaram o Paraná

Francielly Azevedo

A receita geralmente é a mesma: confiança, amor e um relacionamento abusivo. Assim, muitas mulheres se tornam vítimas de seus parceiros desde relatos de agressão física até a morte. A frase “vivendo com o inimigo” nunca fez tanto sentido na maioria dos casos de feminicídio. Em 2018, dezenas de mulheres morreram no Paraná vítimas da violência contra o sexo feminino. Três casos de repercussão marcaram o ano e o Paraná Portal, infelizmente, relembra-os na retrospectiva.

Em 2018, o Paraná conheceu a história de três mulheres: Tatiane Spitzner, Andrielly Gonçalves e Renata Larissa. Em comum, as três jovens tinham a confiança nos homens em que se relacionavam, conforme apontam as investigações de ambos os casos.

Diante de tanta repercussão, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) chegou a divulgar dados de feminicídio do ano anterior. A cada hora de 2017, o Tribunal de Justiça do Paraná recebeu quatro novos processos sobre violência doméstica praticada contra mulheres. O tribunal paranaense foi o quinto que mais registrou crimes desse tipo. Os dados de 2018 ainda não estão disponíveis.

 


Foto: Reprodução / Facebook

TATIANE SPITZNER 

Um dos casos de maior repercussão em 2018 foi a morte de Tatiante Spitzner, de 29 anos. No dia 22 de julho, a advogada foi encontrada morta no apartamento em que morava com marido, o professor Luis Felipe Manvailler, de 32 anos, em Guarapuava, na região central do estado. A perícia indicou que Tatiane teve uma fratura no pescoço, característica de quem sofreu esganadura.

Imagens de câmeras de segurança mostram ela sendo agredida antes de entrar no prédio, no estacionamento, no elevador, e a queda do 4º andar. Depois, Luis Felipe busca o corpo, leva ao apartamento, limpa os vestígios de sangue no corredor e elevador e foge do local por uma saída alternativa do estacionamento.

De acordo com a denúncia, Luis Felipe matou a esposa após diversas agressões físicas que teriam iniciado depois de um desentendimento ocorrido em virtude de mensagens em redes sociais, agindo por motivo fútil e desproporcional.

“Ainda, de acordo com o Laudo Pericial de Local de Morte, de fls. 239-249, o acusado, durante a execução do crime de homicídio, produziu lesões características de esganadura na vítima, quais sejam, ‘estigmas ungueais nas regiões laterais do pescoço, características de esganadura’, praticando o delito mediante asfixia. O denunciado, ao matar a vítima, agiu mediante recurso que dificultou a sua defesa, em razão da sua superioridade física em face da ofendida e das agressões contínuas e progressivas que inibiram a possibilidade de reação por parte desta. Ademais, o denunciado praticou o presente crime contra mulher por razões da condição de sexo feminino, já que Tatiane Spitzner era sua esposa, caracterizando violência doméstica e familiar”, dizia a denúncia.

Os promotores do Ministério Público relataram que Luis Felipe também praticou o crime de cárcere privado, pois impediu, mediante violência, que Tatiane se afastasse, por pelo menos três vezes, constrangendo-a a deixar a garagem do edifício em sua companhia, a permanecer dentro do elevador e a ingressar no apartamento em que residiam, restringindo a liberdade de locomoção da vítima, conforme as filmagens do circuito interno de câmeras do edifício.

Laudos

Diversos laudos foram anexados ao processo. O documento da Polícia Científica do Paraná apontou que não houve qualquer tipo de impulso antes da queda da advogada do 4º andar. Além disso, o mesmo laudo indicou a presença de pequenas ranhuras, na borda da sacada do apartamento, semelhantes ao esmalte vermelho que Tatiane usava naquela noite.

“Na borda superior da sacada, região externa, havia a presença de pequenas ranhuras de cor vermelha, semelhantes àquelas de esmalte de unha e compatíveis com a cor de esmalte do cadáver,
além de outras marcas de atrito por fricção e/ou arrastamento, na localização informada como sendo o local da queda da vítima (tanto na borda superior, quanto na face externa do vidro). Estas
ranhuras são compatíveis com a passagem da parte superior da unha sobre a borda”, diz o documento.

No documento, os peritos sugerem duas possibilidades com base nos testes: desequilíbrio involuntário (queda acidental) ou abandono de corpo inerte. “A posição final da queda – 3,78 m de distância do alinhamento predial e local da precipitação, conforme já calculado, descrito e embasado no Tópico 5. PRECIPITAÇÃO DE ALTURA, refere-se a i) desequilíbrio involuntário (queda acidental) ou ii)) ou abandono de corpo inerte, sem qualquer tipo de impulso, contradizendo mais uma vez o depoente que declarou”, aponta a perícia.

Já o laudo do Instituto Médico Legal (IML) confirmou que a advogada morreu por asfixia mecânica por esganadura antes de cair da sacada do prédio. De acordo com o diretor do IML Paulino Pastre, houve luta corporal antes do crime. “Há um acervo de fotografias extremamente extenso que foi encaminhado para as autoridades judiciárias apontando que houve luta entre as partes antes da morte. O principal meio de conclusão foi o exame de necropsia, realizado na data do fato. Ela tinha marcas no pescoço que foram fotografadas e documentadas”, afirmou em coletiva de imprensa na época da divulgação dos laudos.

Luís Felipe está preso desde o dia 22 de julho, quando foi encontrado após se envolver em um acidente em uma rodovia a cerca de 320 km de Guarapuava. Ele dirigia o carro da advogada e seguia em direção a fronteira com o Paraguai e Argentina. Ele foi acusado pelos crimes de homicídio com quatro qualificadoras (meio cruel, dificultar defesa da vítima, motivo torpe e feminicídio), cárcere privado e fraude processual.

O Ministério Público do Paraná solicitou a avaliação psicológica de Luis Felipe, após ele ter tentado suicídio na prisão. O acusado foi visitado por um médico psiquiatra da Secretaria Municipal de Saúde de Guarapuava. No laudo da consulta, o especialista relatou que Manvailer “acha que a esposa pulou da sacada”, mas que “não lembra do que ocorreu”. Além disso, relata que se ele realmente fez isso, “deveria morrer”. Além disso, o psiquiatra destacou que o acusado apresentava “marca, aparentemente de barbeador no pescoço, sem aparentes riscos para alguém que é formado em biologia, e deve saber onde e como pode lesionar-se de uma forma fatal”.

Interrogatório

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Defesa

A defesa do professor Luís Felipe Manvailer considera a acusação do Ministério Público do Paraná (MPPR) uma “peça de ficção”. De acordo com os advogados, a acusação não consegue determinar o que causou a morte de Tatiane Spitzner e diz que, na narrativa da acusação, a vítima teria morrido duas vezes. A primeira por esganadura e a segunda causada pelo politraumatismo, quando caiu do apartamento em que morava.

A defesa também pede que a Justiça desconsidere as atas notariais anexadas ao processo em que mostram conversas de WhatsApp de Tatiane com uma amiga. As mensagens mostram o descontentamento de Tatiane com o relacionamento. Para a defesa, as mensagens estão fora de contexto e a dinâmica dos “prints” distorcem e inviabilizam a interpretação das mensagens.

 

Foto: Reprodução/Facebook

ANDRIELLY GONÇALVES

A estudante de direito Andrielly Gonçalves da Silva, de 22 anos, desapareceu no dia 9 de maio. O último contato com conhecidos aconteceu naquela madrugada, quando teria conversando com um amigo em uma chamada de vídeo pelo celular, no momento em que chegava no apartamento onde morava, no bairro Guaraituba, em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. O corpo dela foi encontrado um mês depois na Serra da Graciosa, no litoral do Paraná.

O acusado de ter cometido o crime é o policial militar e ex-marido de Andriely, Diogo Coelho Costa. A polícia encontrou manchas de sangue no carro dele que foram submetidas a teste de DNA com o sangue da mãe da vítima, Cleusa Gonçalves. A Delegacia do Alto Maracanã, em Colombo, concluiu o inquérito e afirmou que todos os indícios apontam que Diogo foi o autor do assassinato.

Diogo foi casado com Andriely  por quatro anos e estavam em processo de separação.

Foto: Reprodução Facebook

Segundo o delegado responsável pelo caso, testemunhas prestaram depoimento após o crime afirmando que ela se comunicou de forma estranha em redes sociais. “Escreveu com erros de gramática, de forma diferente da de costume. A suspeita é de que ele tenha mandado as mensagens para justificar a ausência dela”.

Câmeras de segurança registraram o momento em que o suspeito deixa o aparamento em que morava Andrielly na companhia da jovem. O registro foi feito na madrugada em que Andrielly desapareceu e mostra também o policial voltando ao local sozinho.

Diogo está detido desde o dia 19 de maio no Batalhão de Guarda da Polícia Militar. Em seu primeiro depoimento ele preferiu ficar calado.

Defesa

A defesa de Diogo nega o envolvimento do policial no crime. Desde o início, o soldado afirma que deixou Andriely perto de uma rodovia durante a madrugada do desaparecimento, porque a jovem iria para São Paulo atrás de um rapaz com quem mantinha um relacionamento.

Em relação ao sangue no banco do carro, o suspeito diz que se trata de sangue menstrual, pois a jovem tinha endometriose.

 

Foto: Reprodução Facebook

RENATA LARISSA

Renata Larissa, de 22 anos, desapareceu no dia 27 de maio, após sair de casa dizendo que ia à farmácia, em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. O corpo dela foi encontrado dois meses depois às margens da BR-376, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Para conseguir identificá-la, a perícia precisou utilizar uma técnica de recuperação de impressão digital e na sequência um confronto genético.

O policial militar Peterson da Mota Cordeiro, de 30 anos, foi indiciado pelo homicídio da jovem. Ele foi preso no dia 20 de julho, suspeito de estupro de outras mulheres. Depois da polícia encontrar fotos e vídeos nos equipamentos eletrônicos dele e cruzar as informações do desaparecimento da jovem, foi que se chegou a conclusão de que ele seria o responsável pelo sumiço de Renata.

“Na verdade nós chegamos nessa investigação por acaso. Nós estamos investigando vários casos de estupro na delegacia da mulher. A gente focou nos sinais particulares que as vítimas apresentavam, no caso dela foram as tatuagens. Nós então cruzamos os dados do desaparecimento da Larissa e a partir das fotos fizemos o mapeamento do local, com georreferenciamento dos celulares”, contou a delegada Eliete Kovaluk.

A delegada diz que as investigações apontam que Renata morreu, porque apresentou resistência. “A gente acredita que a intenção dele não era de matá-la, porque as outras vítimas saíram ilesas no sentido de que ele deixou elas voltarem para casa. A gente acredita que ela de alguma forma ofereceu alguma reação”, afirmou.

O policial foi indiciado por estupro, homicídio qualificado pela impossibilidade da vítima, ocultação do crime e feminicídio.

Mais de 12 vítimas

Foto: Reprodução Facebook

Mais de doze mulheres procuraram a Delegacia da Mulher para relatar casos de estupros cometidos pelo policial militar Peterson Mota Cordeiro. Conforme as investigações, a maioria dos estupros foi cometida nas redondezas do Zoológico, no bairro Alto Boqueirão, em Curitiba.

De acordo com a delegacia da mulher, Peterson apresenta ser uma pessoa violenta.  Um dos boletins de ocorrência descreve que, enquanto abusava de uma das vítimas, ele pedia para a mesma dizer, por várias vezes, que ‘estava sendo estuprada’.

Cordeiro teve equipamentos eletrônicos apreendidos pela polícia. As equipes encontraram diversos vídeos e fotos das vítimas de estupro. O policial atraia as vítimas por meio das redes sociais. Segundo a delegada, a abordagem era amistosa e fazia com que a mulher confiasse nele.

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Jornalista, formada pela Universidade Tuiuti do Paraná. Repórter do Paraná Portal e Rádio CBN. Tem passagens pela TV éParaná, TV Assembleia, TV Transamérica, CATVE, Rádio Iguassu e Folha de Londrina.
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