A difícil preservação da Era do Trilhos

Narley Resende


Thiago Machado, Metro Jornal Curitiba

A época de ouro das ferrovias em Curitiba já ficou para trás, mas a sua herança permanece bem visível por toda a cidade – apesar das diversas ameaças. Na última semana o arquiteto Key Imaguire, histórico militante da preservação cultural, denunciou uma proposta que tramitava internamente na prefeitura. A ideia era tirar a Ponte Preta de seu lugar para abrir mais espaço para os caminhões.

O caso repercutiu na Câmara Municipal e logo depois o prefeito Rafael Greca (PMN) garantiu que a estrutura, tombada, fica ontem está. “Fique tranquilo professor Key Imaguire Jr. O Sr foi mal informado a meu respeito”, disse via Facebook.

Assim esta última ameaça foi considerada sanada, diz Imaguire, mas outras ainda estão ativas. “Modificar a área para a passagem de caminhões descaracterizaria a região toda. Não tenho motivo para duvidar do prefeito, mas minha informação é interna da prefeitura, de fonte de minha confiança”, esclarece.

O arquiteto alerta que a pressão sobre o patrimônio histórico ferroviário não é nova, nem vem de um único local. “O interesse imobiliário é sempre o principal vilão”, lembra.

A decadência dos trens começou na década de 1960, com a concorrência dos automóveis.

O trem, que chegou como símbolo de modernidade em Curitiba em 1885, desde então passou a ser visto com um estorno. Mas antes disso, durante 75 anos, foi o principal meio de transporte e gerou bairros inteiros de operários: como Capanema, Cristo Rei e Cajuru. Além disso, as principais fábricas municipais foram criadas no Rebouças, de onde podiam escoar sua produção pelos trilhos.

Hoje, parte dos imóveis simbólicos daquela era já foram perdidos: a antiga estação ferroviária virou shopping e diversos imóveis da praça Eufrásio Correia (onde hotéis abrigavam os viajantes) foram demolidos.

A antiga fábrica da Mate Leão está prestes ressurgir como igreja. Segundo Imaguire, no entanto, a paisagem sempre pode ser recuperada.

A região concentra sete pontos de interesse do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional): além da Ponte Preta, a antiga estação, o edifício Teixeira Soares (antiga sede administrativa da rede), a Rodoferroviária, a Vila Capanema e as garagens no final da avenida Silva Jardim.

Construídas da década de 1940, as garagens são os imóveis que geram maior preocupação atualmente. No final do ano passado a STU (Secretaria de Patrimônio da União) tentou vender um terreno anexo – o que interromperia os trilhos.

“Isso acabaria totalmente com as nossas atividades”, diz o presidente da ABPF (Associa- ção Brasileira da Preservação Ferroviária – Regional Paraná), João Luís Vieira Teixeira.

Sem qualquer apoio público, mantém nos grandes galpões um espaço de memória, além da recuperação de locomotivas próprias e que foram doadas. Também organiza minipasseios de trem. “Sem dinheiro, é muito difícil, estamos batalhando novas fontes de renda”, admite.

União nacional pela preservação

Acontece, de 18 a 22 de Setembro, na Biblioteca Pública, a I Semana Paranaense da Memória Ferroviária. O evento terá participação de 16 entidades.

“Eu estou muito otimista com a nova direção do IPHAN, que é muito atuante, e mesmo na sensibilidade de algumas prefeituras”, diz o organizador, Márcio Assad do Centro de Memória Ferroviária da Lapa.

O evento é 1º de um série nacional (a seguir haverá um encontro em Santa Maria-RS, no dia 27).

A ideia é impulsionar a preservação da rede ferroviária. “As pessoas estão, aos poucos, entendendo que foram as cidades que surgiram pelos trens, eles não podem ser retirados”, defende Márcio.

 

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