Conheça a história da “Beauvoir tupiniquim”, uma das precursoras do feminismo no Brasil

Fernando Garcel


Reportagem de Tabata Viapiana

“Senhores oposicionistas da emancipação feminina, aguentem e sem protesto, o mundo caminha”. A frase parece atual, num contexto em que tanto se discute a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas acreditem, ela foi escrita em primeiro de março de 1901. A autora é Marianna Coelho, nascida em Portugal e radicada em Curitiba, foi educadora, escritora e poeta, considerada uma das precursoras do feminismo no país.

Numa época em que a subordinação feminina era a regra do jogo, Marianna publicava colunas e artigos na imprensa paranaense defendendo a preparação das mulheres para o mercado de trabalho e o direito a voto. Pela postura firme diante das questões femininas, ganhou o apelido de “Beauvoir tupiniquim”, uma referência à escritora francesa feminista Simone de Beauvoir.

Reconhecida internacionalmente como uma grande defensora dos direitos da mulher no Brasil, a educadora não teve a mesma valorização na sociedade curitibana, na opinião da jornalista Fernanda Foggiato, da equipe de comunicação da Câmara Municipal de Curitiba, que escreveu sobre a vida de Marianna. “Ela é reconhecida em dicionários e livros, até fora do Brasil, como percursora do feminismo, não só do Paraná e de Curitiba, no Brasil”, diz Fernanda. “Falta um reconhecimento da cidade à Marianna”, completa.

Marianna defendeu, em 1901, a educação da mulher para rebater os “antifeministas” – que alegavam que se a mulher não sabia nem escolher a quem confiar seu amor também não saberia escolher seus governantes. “O sexo feminino, da mesma forma que o masculino pode, socialmente falando, subir a escada do progresso”, rebateu a feminista na época.

Marianna Coelho também foi diretora da Escola Profissional Feminina onde ficou até se aposentar. O local virou Centro Estadual de Capacitação em Artes Guido Viaro, no bairro Capão da Imbuia. Mas, segundo Fernanda Foggiato, não há menções a passagem da educadora no site da instituição.

A escritora também foi a única mulher a ter um artigo publicado na primeira edição da revista mensal de arte e literatura Breviário, em agosto de 1900, ao lado de nomes como Romário Martins e Emiliano Perneta. No artigo, intitulado “emancipação da mulher”, Marianna disse que permitir que a mulher permaneça amarrada ao deplorável poste da ignorância equivale a arriscá-la criminosamente à probabilidade de receber em compensação do seu mais nobre e espontâneo afeto o completo aniquilamento da alma.

Segundo o Dicionário Mulheres do Brasil, Marianna integrou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e representou o Paraná em três congressos. Ela era irmã do professor Carlos Alberto Teixeira Coelho, que batiza a rua Teixeira Coelho, no Batel. Na justificativa do projeto de lei de 1950, Marianna é destacada pelos “inestimáveis serviços prestados em nosso estado”. A escritora, no entanto, jamais deu nome a um logradouro público da cidade. “No arquivo histórico da Câmara, na justificativa do projeto de lei [que batizou a rua] ela é citada. ‘Teixeira Coelho é irmão de Marianna Coelho, uma grande educadora da nossa cidade’, mas porque não deram o nome da rua de Marianna Coelho?”, questiona.

Marianna morreu em casa no dia 29 de novembro de 1954 e foi sepultada no Cemitério Municipal São Francisco de Paula. Segundo a jornalista Fernanda Foggiato, ela não recebeu homenagens e nem o merecido reconhecimento da sociedade da época. “Eu fiz um levantamento nas atas da Câmara Municipal. Segundo as atas desse período, a morte dela não foi citada. Havia votos pelo aniversário de líderes políticos da Europa, mas a morte dela não foi citada”, afirma a jornalista.

Se falar em feminismo já é difícil no século XXI, imagina em 1900. Marianna enfrentou muito preconceito e talvez, por isso, tenha incomodado as pessoas que temiam o empoderamento feminino. É o que pensa a jornalista que escreveu sobre a vida de Marianna. “Se hoje em dia falar em feminismo já incomoda, inclusive aqui na Câmara [Municipal], imagine naquela época”, finaliza Fernanda.

Ora, a mulher que apenas sabe ser dona de casa, [que] é incapaz de viver do seu trabalho, não se pode tornar independente – [ela] está fatalmente condenada a ser escrava – ou dos parentes ou dos estranhos, quando não consiga uma miserável pensão para não morrer de fome.”
Marianna Coelho, início do século XX.

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