Em Curitiba, número de casos de violência contra crianças cresceu 50% em dez anos

Mariana Ohde


Os casos de suspeita de violência contra a criança atendidos no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, cresceu quase 50% em 10 anos, indo de 282 casos para 415 em 2015. Somente de 2014 para 2015, houve um aumento de 42 ocorrências – em 2014 foram 373 casos. Quase metade desse total refere-se à violência sexual. Os dados foram divulgados na semana do Dia Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, celebrado no dia 18 de maio.

Ainda segundo a instituição, mais de 60% dos casos de violência atendidos no Hospital Pequeno Príncipe acontecem em ambiente familiar, ou seja, são praticados pelos pais, avós, tios, entre outros membros da família. Os dados são reforçados pela Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, onde quase 90% dos casos registrados têm essa característica. “Esse tipo de violência pode atingir qualquer classe, cultura e religião. Além disso, o público acredita que quem é próximo da vítima, não faria algo tão maldoso dessa forma e a suspeita é amenizada”, pontuou Daniela.

A maioria dos agressores são homens e as vítimas geralmente são meninas. 60% delas estão na fase da primeira infância – de zero a seis anos. O dado é chocante, já que, quanto mais jovem a vítima, maiores os danos. Segundo a psicóloga, as crianças que sofrem violência podem ser prejudicadas no desenvolvimento motor, intelectual e psíquico. “Por isso, o Hospital tem um trabalho multiprofissional com o intuito de atender as crianças e adolescentes o quando antes, para amenizar as sequelas e melhorar a qualidade de vida do indivíduo”, finalizou.

Segundo a psicóloga do hospital, Daniela Prestes, há a hipótese de que mais denúncias estejam sendo realizadas. “Há mais de 10 anos, tínhamos uma subnotificação dos casos de abuso sexual. Antes, o número de notificações de violência física era muito maior, pois acredito que se falava menos das questões da sexualidade com relação aos menores”, ressalta a especialista.

Ainda de acordo com a psicóloga, a maior divulgação do assunto na mídia, a discussão nas escolas e a veiculação do tema na comunidade contribui para que as pessoas conheçam mais sobre o assunto e denunciem. Somente em 2015, o Disque-Denúncia Nacional registrou mais de 80 mil ligações.

“É importante estimular a denúncia e expor que ela pode ser anônima. Se observamos que um adulto não está dando conta de zelar pelos direitos de uma criança ou adolescente, cabe a qualquer cidadão resguardar aquele menino ou menina. O adulto precisa ser o porta-voz”, destacou a psicóloga.

Os casos de agressão podem ser informados anonimamente ao Disque-Denúncia Nacional (100), Disque-Denúncia Estadual (181) ou a Prefeitura de Curitiba (156).

Pra Toda Vida

O Hospital Pequeno Príncipe é referência no atendimento de casos de suspeita de violência e oferece atendimento diferenciado às crianças que chegam à instituição com lesões incompatíveis com as histórias relatadas por seus responsáveis. Desde então, a instituição desenvolve ações de mobilização e conscientização sobre o tema.

Essas atividades foram formalizadas como parte da Campanha ‘Pra Toda Vida – A violência não pode marcar o futuro das crianças e adolescentes’. Pode meio dela, desde 2006, é realizada a mobilização da sociedade, feita a distribuição de cartilhas para profissionais das áreas da saúde e da educação, e organizadas campanhas para estimular a denúncia.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal