Exposição de arte une jovens pobres e ricos

Narley Resende


Com assessoria

O Museu Municipal de Arte (MuMA), no Portão Cultural, em Curitiba, recebe a partir deste sábado, dia 19, a exposição “No espaço entre nós”, um acervo de obras produzidas por adolescentes de favelas e da classe média do Rio de Janeiro. A proposta desafiadora de unir pela arte jovens de realidades tão diferentes foi do arte-educador Helio Rodrigues, conhecido no meio artístico brasileiro pelos seus 40 anos de trabalho no ramo.

Esses artistas mirins têm idade entre 12 e 15 anos e criaram as 36 mandalas que serão expostas. Elas ganharão movimento através de uma animação de Marcos Magalhães, criador do Anima Mundi. A exposição contará com depoimento dos participantes por meio de uma sonorização em filme, produzida por Mauricio Sales.

Ricos e pobres

A certa altura de Ágora, filme do célebre diretor Alejandro Almenábar, um diálogo no interior da biblioteca de Alexandria pôs no centro do debate a nossa relação com o outro. Ao mediar um conflito entre dois jovens, Hipatia indagou sobre o primeiro teorema de Euclides.

“Se duas coisas são iguais a uma terceira, então as três são iguais ente si”, respondeu Sinesio. Então, Hipatia concluiu: “Há mais coisas nos unindo do que nos dividindo”.

Divulgação
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O espaço que existe entre nós une ou divide, depende o que fazemos dele. Preencher esse vazio, para atenuar a intolerância que afasta e fortalecer a empatia que aproxima, tem sido o desafio do escultor e arte-educador Helio Rodrigues.

A proposta, tão inovadora quanto desafiadora, resultou na exposição “No espaço entre nós”, um acervo de obras cujos coautores são adolescentes da favela e da classe média carioca. Oriundos de mundos sociais tão diferentes, acabaram misturados pela arte.

O resultado dessa união um tanto improvável será exibido em Curitiba numa instalação interativa a partir deste sábado, 19 de novembro, no Museu Municipal de Arte (MuMA), no Portão Cultural. Esses jovens com idade entre 12 e 15 anos foram misturados para compor as 36 mandalas expostas em movimento por meio de animação criada por Marcos Magalhães, criador do Anima Mundi, e sonorizadas em filme por Mauricio Sales com depoimentos dos participantes.

Uma primeira exposição, em agosto, no Museu da República, no Rio, envolveu arte-educadores e adolescentes voluntários. Eles tiveram como ponto de partida o desafio de pensar e agir artisticamente a partir de três questões: como eu trato as distâncias (sociais, econômicas etc.) que nos separam? O que pode me aproximar do “outro” aparentemente tão diferente de mim? Como posso pensar ou solucionar com arte o espaço vazio que existe entre nós?

Com suas imagens físicas transformadas em sombras (com o auxílio do teatro chinês) e com o uso de tintas, bastões, papéis, esses jovens foram provocados a deixar fluir suas ideias e torná-las expressão artística a partir desses recursos.

A proposta de se tornarem sombras fez com que eles abandonassem suas imagens exteriores, em geral tão conectadas às suas identidades sociais, para assim buscar expressar-se unicamente com a linguagem artística.

Os dois grupos de origens tão distintas só se conheceram dentro do espaço expositivo do Museu da República. Deram-se conta, então, que a divisão imposta pelas condições sociais não precisa ser uma divisão presente nas relações humanas.

Era o propósito de Helio Rodrigues após coordenar trabalhos arte-educacionais em espaços físicos e economicamente muito diferentes. De um lado, crianças e adolescentes de favela; de outro, crianças e adolescentes de classe média.

Helio questionou-se porque é preciso ser assim. Não, não é preciso, concluiu. Surgiu daí a necessidade de discutir com jovens representantes desses dois grupos o grande vazio existente entre eles, um vazio que é quase sempre promotor da intolerância e violência.

Para promover essa discussão, a palavra foi substituída pela arte. Uma experiência que resultou em um importante diálogo, além de ricas reflexões para esses jovens.

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O artista que preenche vazios

Helio Rodrigues é desses artistas que interpretam os vazios e buscam preenchê-los, e usa a arte para libertar a vida aprisionada ao pensamento único.

Ao ressignificar coisas e pensamentos, abolindo a representação convencional sobre tudo, sua criação artística torna visível o invisível, preenche os espaços e nos leva a pensar o impensável. E então os espaços vazios passam a ser espaços de interação.

O artista explica que “No espaço entre nós’ é uma instalação otimista, porque aponta para a possibilidade de reduzir conflitos usando a arte como mediadora.

“Apesar de parecer muito simples e para muitos uma ideia romântica, a força da linguagem artística para tratar problemas sociais tão iminentes como os nossos ainda é pouco explorada. A arte aproxima, liga. Na verdade, a arte salva porque se nutre e se fortalece justamente com as diferenças”, diz Helio Rodrigues.

Público poderá interagir na exposição

Além da instalação com forte apelo audiovisual, na exposição “No espaço entre nós”, no Museu Municipal de Arte (MuMA), em Curitiba, o público também poderá interagir produzindo soluções com réplicas reduzidas em sombras imantadas que se movimentam sobre caixas de luz e materiais de arte que estarão disponíveis. Os trabalhos criados irão para o Facebook da mostra, e os visitantes poderão guardar e compartilhar suas criações, com a hashtag #noespacoentrenos.

Artista plástico há mais de quatro décadas, Helio Rodrigues sentiu a certa altura da carreira que precisava transportar toda essa experiência para a arte-educação. A necessidade surgiu da sensibilidade inerente aos artistas e da percepção do mundo ao redor. “Fui motivado pela urgência criativa e pela presença da intolerância que venho assistindo entre as crianças economicamente privilegiadas e as crianças e jovens da periferia social”, explica.

Serviço:

Exposição “No espaço entre nós”

Abertura: 19/11/16, às 19h

Funcionamento: de terça-feira a domingo

Período: de 19/11/16 a 15/01/17

Local: Museu Municipal de Arte (MuMA) – Portão Cultural

Endereço: Av. República Argentina, 3.430

Entrada franca 

Quem é Helio Rodrigues

Escultor e arte-educador, Helio Rodrigues fundou na década de 1970 o atelier que leva o seu nome em Botafogo, no Rio de Janeiro. Por essa escola de artes passaram centenas de crianças e adultos, alguns hoje atuantes no panorama artístico e arte-educacional.

Mentor e coordenador do projeto social “EU SOU”, que nesse período atendeu através das artes visuais 1.800 crianças e adolescentes de 5 a 16 anos de comunidades carentes como Magalhães Bastos/Sulacap, Jacarezinho, Gardênia, Tijuquinha.

Participou como consultor para a fundação do IAE (Instituto de Arte-Educação), primeiro instituto voltado para a essa finalidade no Brasil.

Por acreditar que só existe qualidade na educação com a presença da arte e por ser ela um importante contraponto frente ao cotidiano concreto e superficial dos nossos dias, Helio atua em prol desta causa. Ministra o curso para formação em arte-educação, é consultor de escolas, empresas e instituições como museus e centros culturais, promove palestras e debates.

Tem levado sua arte e suas experiências com a arte-educação para várias cidades brasileiras e fora do país, em países como França, Bélgica, Alemanha e Estados Unidos.

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