Intervenção no Hospital Evangélico de Curitiba já dura um ano e meio

Mariana Ohde

Após um ano e meio, a intervenção judicial do Hospital Evangélico de Curitiba e da Faculdade Evangélica ainda não tem prazo para terminar. Desde o dia 17 de dezembro de 2014, a instituição, que era administrada pela Sociedade Evangélica Beneficente de Curitiba (SEB), está sob comando de interventores por determinação do juiz Eduardo Milléo Baracat, da 9ª Vara do Trabalho de Curitiba.

Na época, a decisão se baseou em várias irregularidades trabalhistas identificadas na instituição. Entre os problemas, estavam atrasos no pagamento dos salários dos funcionários e a não concessão de férias ou depósitos do fundo de garantia.

Problemas de gestão

Segundo o juiz, o hospital não corre mais o risco de fechar, mas ainda há uma série de ajustes a serem feitos. “Hoje, existem problemas estruturais, problemas que decorrem daquela gestão difícil que era feita até a intervenção. Nós tivemos um primeiro ano muito difícil, no qual identificamos os problemas – não todos os problemas, mas os principais. E, a partir disso, nós conseguimos, pelo menos, manter o hospital funcionando”, explica.


Ao passar a instituição a limpo, a Justiça encontrou uma série de falhas na administração. “Nós identificamos mais de quinze contas que foram abertas em nome do hospital, com CNPJs distintos e vinculados à mantenedora, a Sociedade Evangélica. Havia também uma confusão de valores, que eram misturados; valores que tinham origem nas atividades do hospital e valores que tinham origem na faculdade”, exemplifica o juiz.

Além da Justiça do Trabalho, órgãos de controle também trabalham para tentar reerguer o hospital. Grande parte das falhas em contratos foi descoberta pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Segundo o procurador-chefe do MPT e autor do processo, Gláucio Araújo, o Ministério Público investiga as fraudes que não têm ligação com a parte trabalhista. Ele relata, por exemplo, que não havia controle de gastos – nem da prestação de serviços e nem da entrega de suprimentos pelos fornecedores. Mesmo assim, o dinheiro continuava sendo desembolsado pelo hospital. Agora, os interventores tentam identificar o tamanho do rombo nas contas da instituição.

“Está sendo investigado o aspecto dos desvios, em um trabalho conjunto, trocando informações, para buscar os responsáveis. Há muitos contratos firmados verbalmente e isso é inadmissível – que se pague por serviços sem comprovação documental da realização, da entrega de bens”, afirma.

“Nós temos um exemplo bem emblemático do papel higiênico. Era contratada uma metragem e a entrega era a metade. São coisas banais, mas que representam o estado lastimável do hospital, sendo assaltado diariamente por diversas frentes”, conta.

O Ministério Público confirmou que há uma série de inquéritos abertos para apurar os desvios no hospital, mas que, por enquanto, não pode dar detalhes sobre as investigações.

Falta de recursos

A falta de recursos ainda é um dos grandes problemas no Hospital Evangélico. Com arrecadação mensal de cerca de R$ 10 milhões, a maioria dos procedimentos é feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e os interventores estudam a possibilidade de aumentar o número de procedimentos particulares para melhorar a situação financeira.

“O Hospital Evangélico ainda necessita de muito auxílio, seja do governo estadual, o município também tem dado atenção, mas precisamos de mais, para que ele possa prestar serviços públicos à sociedade”, afirma o procurador.

Sem prazo

Com um interventor só para a Faculdade Evangélica, o centro de ensino está perto de deixar a intervenção. Com o fechamento de seis dos sete cursos existentes, a faculdade conseguiu se reestruturar. Só o curso de Medicina foi mantido.

Já no hospital, apesar de alguns dos problemas, como a regularização do pagamento e direitos trabalhistas dos funcionários, terem sido resolvidos, não há previsão para o término da intervenção judicial, como explica o Juiz Eduardo Baracat. “Até o momento, a gente não tem como prever um prazo. O que existe é um dimensionamento dos débitos trabalhistas. A partir do momento em que estes débitos, juntamente com outros, estejam equacionados, é possível que tenhamos um horizonte”, explica.

A SEB e qualquer um de seus representantes estão afastados da gestão das instituições até o fim da intervenção.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal
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