Servidores derrubam grades e tentam impedir votação do pacotaço

Francielly Azevedo


Por Francielly Azevedo, Mariana Ohde e Narley Resende

Centenas de servidores municipais de Curitiba estão, desde a madrugada desta segunda-feira (26), concentrados no entorno da Ópera de Arame, no bairro Abranches, em Curitiba. Os trabalhadores fizeram uma vigília no Parque São Lourenço e pouco antes das 9h saíram em caminhada até o local onde será votado o Pacote de Recuperação de Curitiba, enviado pelo executivo para apreciação dos vereadores.

As propostas estão sendo analisadas pelos vereadores na sessão que começou por volta das 9h20. Apenas 100 servidores foram autorizados a acompanhar a votação em uma espécie de camarote organizado dentro da Ópera. Por volta das 10h, houve um princípio de confronto. Manifestantes quebraram as grades de contenção. A Polícia Militar (PM), que cerca a Ópera desde o domingo (25), trabalha para conter o avanço dos servidores.

“Muito ruim a estratégia das autoridades de bloquear todo o acesso para chegar aqui, de querer confinar os servidores em um espaço onde ninguém vai ver, a cidade não vai ver. Isso não é legitimar nenhum protesto. Nós lamentamos muito”, avalia Irene Rodrigues – coordenadora-geral do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP), cerca de 3,5 mil manifestantes acompanham a votação no entorno da Ópera de Arame.

Confusão

Logo após o início da votação, um princípio de confronto teve início fora da Ópera de Arame. Servidores romperam o primeiro bloqueio policial e conseguiram derrubar algumas grades. Houve um empurra-empurra e os policiais precisaram intervir.

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Os policiais militares recuaram e os trabalhadores conseguiram se concentrar já na entrada da Ópera de Arame. Por volta das 10h30, após receberem a informação da aprovação do primeiro projeto em pauta, um novo confronto começou e três servidores foram presos. Segundo a Sesp, um por desacato e desrespeito à área destinada a assessores, outro por portar spray de pimenta e um com cocaína.

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Por volta das 11h10, outro confronto teve início, dessa vez com mais violência. Servidores e policiais entraram em luta corporal e bombas foram lançadas para dispersar o manifesto.

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No momento mais tenso da briga, policiais equipados com escudos usaram balas de borracha para afastar os manifestantes. Confira o vídeo de Vinicius Sgarbe:

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A SESP informou que, até às 11h50, seis pessoas ficaram feridas: um manifestante (com ferimento na perna) e cinco policiais (feridos com pedradas, sendo que um deles foi encaminhado para o Hospital Evangélico).

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Em resposta, professores, profissionais da saúde e demais servidores queimaram jalecos no meio da rua.

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Pré-votação

Os vereadores da oposição chegaram juntos. O parlamentar Felipe Braga Côrtes (PSD) destacou o contingente policial, que segundo ele deve estar composto com mais de mil homens.

“É muito triste tudo isso, ter que fazer uma movimentação dessa, em um local que eu nunca esperar fazer uma votação. Triste, não sabemos como vai ser. Agora precisamos tentar, pelo menos, as emendas que nós aprovamos na CCJ. Mas foi a condução feita pela executivo, triste”, disse.

O vereador Goura (PDT) chegou de bicicleta e também lamentou a troca de lugar da votação. De acordo com ele a “espetacularização” do debate é desnecessária.

“É um sentimento de desgosto, de tristeza mesmo. A gente ter que movimentar esse contingente policial, ter que atrapalhar a cidade de tal forma, por um problema que não é nosso, não é do legislativo e não é dos cidadãos. É a intransigência do executivo que quer aprovar isso de qualquer jeito, seja na base da força e não na base do diálogo”, ressaltou.

As ruas próximas a Ópera de Arame foram bloqueadas e o policiamento reforçado com agentes do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) e cavalaria do Regimento de Polícia Montada. O número oficial do efetivo policial não foi confirmado pelos órgãos de segurança pública.

“Nós viemos pacificamente, a nossa ideia é fazer o debate democrático e pacífico. Mas pelo tanto de policiais que colocaram aqui, pela forma como essa tropa vem para cá, me parece que não há o mesmo entendimento do outro lado”, lamentou Irene Rodrigues.

Segurança

O Tribunal de Justiça do Estado do Paraná atendeu a um pedido da Prefeitura de Curitiba e concedeu o interdito proibitório da Ópera de Arame para preservar a votação do Plano de Recuperação marcada para esta segunda-feira (26). O descumprimento da medida pelos manifestantes implica em multa diária de R$ 20 mil, além do crime de desobediência e esbulho possessório – quando há invasão e violência contra o imóvel alheio.

O Ministério Público do Paraná (MP-PR) emitiu uma recomendação aos órgãos de segurança para garantir a condução pacífica das manifestações que devem acontecer na Ópera de Arame. “O Ministério Público busca distensionar essas relações conflituosas por meio do diálogo. Queremos abrir esses canais para que todas as partes sejam ouvidas e possam dialogar, evitando-se o conflito e, principalmente, o confronto entre a polícia e os servidores municipais”, ressaltou o procurador-geral de Justiça, Ivonei Sfoggia.

No documento, o MP recomenda que, em caso de intervenção policial, ela se dê para garantir a segurança dos participantes ou para conter  eventual prática de infrações penais. O órgão também orientou que sejam utilizados meios adequados e proporcionais de contenção, evitando o uso se armamentos, inclusive os não letais.

Projetos em votação

Vão acontecer duas sessões na Ópera de Arame para a votação dos quatro projetos do Plano de Recuperação que tramitam em regime de urgência.

As propostas a serem discutidas no início da próxima semana são a que pretendem mexer na previdência dos servidores municipais (005.00194.2017); a que adia de 31 de março para 31 de outubro a data-base e congela carreiras do funcionalismo (005.00196.2017); a que autoriza o leilão de dívidas contraídas até 2016 (005.00198.2017); e a que propõe a Lei de Responsabilidade Fiscal do Município (002.00020.2017).

Os projetos do plano de ajuste fiscal chegaram à Câmara Municipal em 29 de março e completam 90 dias nesta semana. Elaborados sem discussão prévia com os servidores, geraram revolta dos trabalhadores que argumentam que não puderam opinar sobre mudanças que impactam diretamente seus salários e aposentadoria. Na Casa, o pacote conta com amplo apoio dos vereadores. Dos 38 vereadores, apenas nove são contra o pacote.

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Jornalista, formada pela Universidade Tuiuti do Paraná. Tem passagens pela TV Educativa, TV Assembleia, TV Transamérica, CATVE, Rádio Iguassu e Folha de Londrina. Atualmente trabalha no Paraná Portal e na Rádio CBN.
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