Operação contra médicos fantasmas completa um ano sem punições

Narley Resende


Passado um ano da deflagração da Operação São Lucas, da Polícia Federal, que indiciou dez médicos concursados do Hospital de Clínicas, da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, por receberem salários e não aparecerem para trabalhar, os profissionais continuam atuando no hospital, recebendo os salários, sem punição até o momento.

Segundo as investigações da PF, os médicos recebiam salários entre R$ 4 mil e R$ 20 mil reais, mas não cumpriam jornada de trabalho Em alguns casos, os especialistas ficaram quase um ano sem aparecer no hospital.

De acordo com a PF, a média de comparecimento dos profissionais era de 7% e alguns deles atendiam em outros locais nos horários em que deveriam estar no HC. Os envolvidos tinham entre cinco e 25 anos de contrato com o hospital. Todos são médicos de renome em Curitiba.

O reitor da UFPR, Zaki Akel Sobrinho, afirma que os médicos não foram afastados. “Dentro do conceito de espaço ao contraditório e ampla defesa, nós decidimos não afastar ninguém. Estão trabalhando normalmente dentro do hospital, prestando seu contrato de trabalho e com todo espaço para fazer sua defesa. Tem dois processos em paralelo. Um é questão judicial que esta na Vara Federal e outra questão administrativa que está se resolvendo internamente”, garante.

Auditoria

As fraudes foram descobertas durante uma auditoria padrão da Controladoria-Geral da União (CGU) – agora incorporada ao Ministério da Transparência -, depois de perceberem que havia um número muito baixo de consultas e internações realizadas por um número alto de médicos.

Os profissionais envolvidos atuavam nas áreas de transplante de medula óssea, nefrologia, radioterapia, ultrassonografia, clínica médica, cirurgia torácica e cardiovascular, reprodução humana, radiologia e ginecologia.

Akel afirma que a comissão sindicante estabelecida para apurar os casos recebeu recentemente as informações e diligências da PF para começar a trabalhar. A expectativa é de que até o final do mês de julho cheguem a uma conclusão, que, segundo a assessoria da UFPR na época da operação, pode resultar em “advertência, suspensão ou demissão dos funcionários”.

Avanço

Foto: Reprodução/HC
Foto: Reprodução/HC

Depois da operação foi implantado um sistema de ponto eletrônico com reconhecimento biométrico para melhorar o controle de frequência dos servidores. “Tão logo houve aquela operação nós aproveitamos a oportunidade e fizemos a implantação de um ponto eletrônico, com controle biométrico, com impressão digital, está funcionando desde aquela época. Melhorou muito o controle de frequência no hospital. Pudemos transformar a crise em oportunidade”, afirma o reitor.

A assessoria do Ministério da Transparência informou, por telefone, que no segundo semestre deste ano deve ser feita uma análise sobre os processos disciplinares abertos pela UFPR. Outro encaminhamento dado depois da auditoria da ex-CGU foi o inquérito policial.

De acordo com a assessoria de imprensa da Polícia Federal, como o inquérito corre sob sigilo não é possível obter informações neste momento. Na época da operação a informação foi de que os médicos envolvidos foram acusados de estelionato qualificado, falsidade ideológica, prevaricação e abandono da função pública.

Veja a lista e atuação dos médicos investigados na Operação São Lucas

Mário Luiz Luvizotto
(Nefrologia)

É professor da UFPR e atua no setor de Nefrologia do HC. Para isso, ganha R$ 18,5 mil por mês. Também presta serviços em pelo menos duas instituições particulares: o Instituto do Rim do Paraná e o Centro de Nefrologia Nações. A reportagem tentou ouvi-lo, mas as clínicas informaram que o médico está fora do país e que não seria possível localizá-lo.

Paulo Tadeu Rodrigues de Almeida (Clínica médica)

É contratado pelo HC desde 1996, por um salário mensal de R$ 5,5 mil. É apontado como responsável técnico do Hemobanco e diretor de bancos de sangue de hospitais particulares. À reportagem, negou que tenha sido indiciado, mas não quis responder outras perguntas.

Jorge Alberto Ledesma (Radiologia)

Mantém contrato com a UFPR desde 1996. Atualmente, para cumprir carga de 40 horas semanais no HC, recebe R$ 13,1 mil. Integra o corpo clínico de outros hospitais, como o Pequeno Príncipe (onde é diretor técnico do centro de imagem) e Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. A reportagem tentou contato com ele por celular, mas ele não atendeu às ligações nem respondeu os recados deixados na caixa postal.

Luiz Pedro Pizzato
(Radioterapia)

É médico do HC desde 1985, contratado para 40 horas semanais, a um salário de R$ 20,1 mil. A reportagem não conseguiu meios de contato com ele.

Marcelo de Araújo Cosendey (setor não informado)

Contratado em 1989, tem carga horária semanal de 40 horas, com salário mensal de R$ 23 mil. Também é professor do curso de Medicina da Universidade Positivo. A reportagem não conseguiu contato com ele. A assessoria de imprensa da universidade também não pôde localizá-lo.

Emerson Luiz Neves
(setor não informado)

O contrato com a UFPR prevê expediente de 20 horas semanais. Recebe R$ 6,5 mil como salário. Além de atuar no HC, atende em clínicas particulares em Guarapuava, no Centro-Sul do estado. A reportagem não conseguiu localizá-lo.

Carlos Edson Scheidemantel (Ginecologia)

Contratado desde 2008, para 40 horas semanais no HC, onde recebe R$ 3,4 mil. Também atende em sua própria clínica particular, no bairro Mercês. Ele não deu retorno aos recados deixados com a secretária.

Katia Regina Vieira Fonteles (Radiologia)

Médica do HC desde 1996, tem de cumprir carga semanal de 40 horas, a um salário de R$ 16,9 mil por mês. A reportagem não conseguiu meios de contato com ela.

Jerônimo Antônio Fortunato Júnior (Cirurgia cardiovascular)

Contratado pela UFPR desde 1993, para integrar equipe médica do HC, com salário de R$ 4 mil. Além disso, é presidente do Hospital da Cruz Vermelha do Paraná e professor da Universidade Positivo. A secretária informou que ele não se manifestaria.

(Com informações da BandNews FM Curitiba)

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