Rainha da parada LGBTI já tentou cinco suicídios; evento espera 40 mil

Andreza Rossini


A 18ª edição da parada LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex) acontece no próximo domingo (5), em Curitiba, com expectativa de público de 40 mil pessoas, como na última edição.

O tema da parada é “O Que Eu Tenho a Ver Com Isso?” e foi escolhido como forma de provocação social. “A responsabilidade de enfrentar o preconceito e a violência não é só da comunidade LGBTI. A sociedade quando não se cala, quando não denuncia, quando finge que não viu, ela [a sociedade] legitima e autoriza. A mão dessas pessoas está tão suja de sangue quanto a dos assassinos”, provocou o diretor da Associação Paranaense da Parada da Diversidade (APPAD), Márcio Marins.

Márcio lembrou que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTI no mundo. “São cerca de 400 LGBTIs assassinados (as) só em razão de sua orientação sexual e identidade de gênero. Acreditamos que esse número seja muito maior, esses só são os casos notificados, em que as organizações e associações enviam para autoridades”, afirmou . “Temos as travestis e transexuais que estão fora do seu estado de origem e são enterradas como indigentes, temos as famílias que têm vergonha de denunciar que seu filho foi assassinado por ser gay ou que suas filhas lésbicas e bissexuais foram estupradas para aprender a gostar de homens”, complementou.

Foto: Andreza Rossini/Paraná Portal
Foto: Andreza Rossini/Paraná Portal

Rainha da Parada

A rainha da parada deste ano é Shasmyra Brondy, ela se apresentou a imprensa acompanhada da mãe e da irmã. “É uma honra ter a minha mãe e minha irmã ao meu lado. Há um tempo atrás eu tentei cometer suicídio cinco vezes por ser gay. Quem me tirou dessa depressão foi minha família, com o apoio delas para seguir minha carreira de drag queen, onde eu consegui superar essa angústia que eu sentia, o medo que eu tinha de a minha família não gostar de mim por eu ser gay”, desabafou.

O  garoto da parada, Henrique Moreira, lembrou que a luta pelos direitos é diária. “Tem que ser muito homem e colocar a cara para bater todos os dias ao ser negro e gay. É extremamente importante representar todos aqueles que tem medo de se expor e assumir para a família quem realmente é”, disse.

“Amar não é pecado”

A cantora Noemi Carvalho lança, na parada deste domingo, a música “Amar não é pecado”. Ela conta que escreveu a letra após casos de preconceito no trabalho. “Eu estava cansada de ser tratada como diferente, de ouvir piadinhas. Uma coisa que eu aprendi com a vida; quando você se assume como lésbica, gay, trans, você não é mais uma ‘pessoa’, não tem mais caráter ou personalidade, não tem mais direito. É lésbica, sapatão, caminhoneira”, contou. “Me disseram que eu iria pegar mais atestado após a liberação da ‘cura gay’, porque eu estava doente. Eu escrevi a música neste momento. Eu fui demitida por justa causa depois disso”, afirmou.

“Eu sou uma mulher negra, afro brasileira, gorda e lésbica. Me sinto muito bem representada pela parada LGBTI, é uma militância do ano todo”, disse.

Ouça a música de Noemi: 

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Mudança de sexo

No último mês o governo do Paraná anunciou que vai oferecer cirurgia de mudança de sexo no Hospital de Clínicas (HC). 200 pessoas estão na fila para a realização do procedimento. De acordo com a presidente do TransGrupo, Marcela Prado, a decisão foi duramente criticada por parte da sociedade.

“Precisam entender o que os nossos políticos entendem; nós pagamos os nossos impostos. Nós também garantimos a saúde das pessoas desse município, deste estado e deste país com o que pagamos. Não estamos tirando direito de ninguém, isso é um direito nosso que lutamos para ter. É importante entender que se eu quero essa cirurgia porque eu quero, porque eu preciso adequar o meu corpo a minha mente, eu preciso buscar a minha felicidade e me sentir a mulher que eu sou por completo, embora se eu não conseguir a cirurgia não é uma genitália que vai me fazer menos ou mais mulher”, afirmou Marcela Prado, presidente do TransGrupo.

“Já morreram 157 travestis e transexuais até o dia de hoje. Nós estamos no dia 03 de novembro, fala-se de feminicídio mas não se inclui as travestis e transexuais”, ressaltou a presidente Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (LGBT), Eliana Emérito.

Cura gay

O juiz Waldemar Cláudio de Carvalho concedeu uma liminar que determina que Conselho Federal de Psicologia (CFP) não pode proibir terapia de “reversão sexual” e abre brecha para profissionais tratarem homossexualidade como doença. O tratamento é proibido pelo CFP desde 1999.

“Não há cura para o que é doença. As pessoas estão preocupadas em saber com quem as pessoas estão se relacionando, em quem elas estão amando ao invés de se preocupar com políticas públicas. Olha o tamanho da fila do SUS”, afirmou o cantor Siamese que vai lançar música no evento de domingo.

Segundo o magistrado, psicólogos se encontram impedidos de fazer atendimento clínico ou promover estudos científicos acerca da reversão sexual, o que afeta, segundo ele, “os eventuais interessados nesse tipo de assistência psicológica”.

O CFP emitiu uma nota em que rechaça a decisão judicial e informa que vai recorrer da liminar, “lutando em todas as instâncias possíveis”.

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