Militar contra a ciência é militar a favor da morte, diz reitor da UFPR

Angelo Sfair

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O reitor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Ricardo Marcelo Fonseca, avalia que a pandemia do coronavírus escancara a importância da produção científica para o mundo, ao mesmo tempo em que revela o negacionismo incrustado na elite política brasileira.

A crise sanitária global acelerou investimentos na área da ciência. A Universidade de Oxford e o Imperial College, por exemplo, receberam um aporte bilionário em 2020 para financiar pesquisas. Poucos meses depois, a primeira vacina britânica contra a covid-19 era aplicada na Inglaterra.

O sucesso neste caso específico não é apenas resultado da aplicação mais recente, mas em décadas de investimentos e produção de ciência de base. Na contramão, o Brasil vem reduzindo consistentemente os investimentos nas universidades públicas desde 2015.

O reitor lembra que as universidades brasileiras são muito jovens, se comparadas às instituições que surgiram a partir do século XI e acumulam quase um milênio de história. Universidade mais antiga do Brasil, fundada em 1912, a UFPR completou seu primeiro centenário recentemente.

“Quem está se consolidando precisa de fomento, e não de mais cortes. E aí nós chegamos na pandemia, num momento negacionista em geral. Sinto isso desde que virei reitor (em 2016). Num momento em que as pessoas negam a história, a ciência, a física, que negam tudo, até a vacina”, avalia Ricardo Marcelo Fonseca.

Nesse sentido, o reitor da UFPR estabelece uma relação entre o negacionismo da ciência no Brasil e o fato de o País ser um dos piores do mundo na gestão da epidemia da covid-19. O reitor observou uma mudança de padrão no último ano e meio, desde o início da crise sanitária.

“De repente, a universidade passou a ser ouvida muito mais. As pessoas querem ouvir do especialista: ‘como é que é isso? Como é que é aquilo?’ O que eu achei ótimo. Começaram a dar visibilidade para os nossos laboratórios, para as nossas pesquisas”, aponta.

Segundo Ricardo Marcelo Fonseca, se trata de uma mensagem importante da sociedade contra o negacionismo. “O que nós fazemos aqui [nas universidades] é relevante. Não é somente civilidade, formação, soberania e conhecimento. Aquilo que nós fazemos aqui é vida”.

Porque hoje, militar contra a ciência, é militar a favor da morte. Hoje, os cientistas são os que trazem promessa de saúde e de vida”, aponta. “A universidade tinha que ser valorizada sempre. Você não pode apostar no futuro sem inteligência. Não estou dizendo que a universidade é perfeita, mas apesar disso, no Brasil, o conhecimento sai, sobretudo, daqui”, conclui.

ENTREVISTA COM O REITOR DA UFPR, RICARDO MARCELO FONSECA:

CONHECIMENTO É SOBERANIA, DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E CIVILIZACIONAL

Em entrevista ao Paraná Portal, o reitor da UFPR, Ricardo Marcelo Fonseca, avalia que investir na produção científica é garantir a soberania nacional. Segundo ele, com a pandemia, a necessidade de importar vacinas ou IFA (ingrediente farmacêutico ativo), evidencia como o Brasil é dependente de nações mais desenvolvidas.

Ele lembra que todos os dados mostram que mais de 90% da produção da ciência e tecnologia no Brasil está nas universidades públicas, ou seja, federais e estaduais. “O problema está em não reconhecer o papel que essas universidades, que são as protagonistas da produção do conhecimento no Brasil, elas são cruciais para um projeto de nação”, afirma o reitor da UFPR, crítico do negacionismo.

Para Marcelo Ricardo Fonseca, países como Estados Unidos, Alemanha, China e Coreia do Sul são exemplos da importância do investimento em ciência e tecnologia, que traz resultados em múltiplas frentes.

“Não só formação, não só soberania, mas também desenvolvimento econômico. Colocar dinheiro na ciência é obter retorno. Pesquisas mostram que para cada real investido, a médio prazo, o retorno é seis vezes maior”, aponta. “Se você observar que a indústria e o agronegócio multiplicaram sua produtividade nos últimos anos… o nome disso ciência e tecnologia. Investimentos que foram feitos nas universidades públicas e também na Embrapa”, completa.

Eu li num artigo e sempre repetia isso nas formaturas, que nos anos 40, a produtividade por hectare de soja era de 800 kg. Mais recentemente, disseram que a média tem 3.000 kg. Quando falei isso uma vez lá em Palotina, onde nós temos um campus, e que é uma região produtora de soja, a produtividade é ainda maior. Não é milagre: isso é ciência e tecnologia”, diz Ricardo Marcelo Fonseca.

Por fim, o reitor da UFPR também destaca a importância das universidades para o desenvolvimento civilizacional. Ele afirma que as instituições de ensino superior são usinas de arte, por meio dos departamentos e grupos. “Aqui, quando a gente faz uma formação, a gente valoriza a cultura, as artes. Isso significa lapidação civilizatória. E vamos falar a verdade, das coisas que mais faltam na nossa quadra histórica, precisamente seja a civilidade”, conclui.

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Fundada em 1912, UFPR é a universidade mais antiga do Brasil e um dos principais polos de produção científica (Divulgação)

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