Família de adolescente morto em escola quer indenização

Após divulgação do laudo que aponta que o estudante morto dentro de uma escola de Curitiba não estava sob efeito de drog..

Narley Resende - 12 de dezembro de 2016, 10:14

Após divulgação do laudo que aponta que o estudante morto dentro de uma escola de Curitiba não estava sob efeito de droga, a família do adolescente quer ser indenizada pelo Estado, já que a conclusão da Polícia Científica contraria declaração dada pela Secretaria de Segurança Pública, Wagner Mesquita, depois do crime.

O estudante Lucas Eduardo de Araújo Mota, de 16 anos, “estava limpo”, conforme o jargão policial, quando foi atingido e morto por um colega, com uma faca, no dia 24 de outubro dentro do colégio Safel – uma das mais de 800 escolas públicas paranaenses que estavam ocupadas contra a reforma do ensino médio por meio de medida provisória.

O advogado Jorge Luiz Fenianos, que representa a família, afirma que a ação busca reparação de todos os responsáveis por declarações referentes a uso de drogas pelo menor.

"Procuramos agora uma indenização moral, um ressarcimento frente ao estado, um dos responsáveis. E também na fase processual vamos buscar os demais responsáveis por esse acontecimento. A questão do envolvimento no homicídio já está sendo resolvida pelo Ministério Público. Agora essa ação civil da família buscando a reparação de danos pelo que aconteceu com o filho da dona Alexandra", afirma.

O laudo da Polícia Científica é negativo para álcool, cocaína, ecstasy, antidepressivos, anticonvulsionantes, analgésicos ou tranquilizantes.

Durante entrevista coletiva na época do crime, o secretário de Segurança Pública, Wagner Mesquita de Oliveira, declarou que os dois estudantes estariam sob o efeito de drogas.

O advogado diz que a família quer limpar a imagem do adolescente morto. "Só confirmou a versão da família, que conhecia o Lucas, um menino muito calmo, tranquilo, não se envolvia com droga. (O laudo) acabou só confirmando o que a família já sabia e agora eles buscam limpar a imagem do Lucas nesse sentido. Vários depoimentos, veículos (de imprensa) lançaram ele como um drogado. A família hoje está mais tranquila com essa confirmação. E buscamos em cima dessa ação alguma reparação do dano moral referente às afirmações que foram dadas horas depois do acontecimento de que foi devido ao uso de drogas", aponta.

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Estudante morto em escola ocupada não usou drogas, diz laudo

A jornalista Janaína Garcia, do UOL, teve acesso ao laudo toxicológico oficial assinado pelo perito Eduardo Rodrigues Cabrera. O documento é datado do último dia 3 e informa que não foram detectados na amostra de sangue da vítima, nem álcool etílico, nem cocaína, nem qualquer outro tipo de droga.

A constatação da Polícia Científica sobre a não utilização de drogas sintéticas bate de frente com declaração dada no dia do crime pelo próprio secretário Wagner Mesquita. Em uma entrevista coletiva convocada cerca de uma hora depois de o IML retirar o corpo do adolescente da escola, o secretário afirmou que a morte do garoto havia sido uma “tragédia presumida” praticada por outro menor de 18 anos.

Segundo o secretário, ambos teriam usado uma droga sintética conhecida como “balinha” e se desentenderam no interior da escola ocupada. O resultado apontou que a análise do sangue não constatou “a presença de anfetaminas e metanfetaminas, como o ‘ecstasy’.

O crime chocou o Estado e enfraqueceu o movimento de ocupação das escolas. O governador Beto Richa, do PSDB, utilizou o fato como argumento para obter a reintegração de posse de unidades tomadas pelo movimento estudantil. A própria Justiça paranaense citou o episódio na ordem de reintegração, três dias depois do assassinato, o classificou como “inaceitável” e justificou, a partir do crime, a necessidade de “medida urgente de desocupação, inclusive para se evitar que outras tragédias acabem por ocorrer”.

Em nota enviada para o UOL, a Secretaria de Segurança Pública do Paraná afirmou que “as informações sobre o uso da droga sintética foram repassadas em depoimento prestado à equipe policial pelo autor do crime, no mesmo dia, e por testemunhas que estavam no local.”

De acordo com a nota, “os exames necessários, feitos pela Polícia Científica, foram anexados ao inquérito, cabendo posterior manifestação do caso pelo Ministério Público e Poder Judiciário”. A secretaria não respondeu se o secretário vai se retratar pela declaração, como pedido pela mãe da vítima.

Com informações da CBN Curitiba e UOL