Grafite de Marielle Franco sofre vandalismo com símbolos masculinos em Curitiba

Vinicius Cordeiro

Instituto diz que abrirá um novo financiamento para refazer a pintura de Marielle.
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Um grafite com a imagem de Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro em março de 2018, foi alvo de vandalismo em Curitiba. Foram pichados dois símbolos masculinos, o órgão genital e o símbolo de Marte, alusivo ao deus da guerra na Roma Antiga, além da palavra “lixo”. Segundo o Instituto Aurora, os olhos, o nariz e a boca de Marielle já tinham sido tapados com uma tinta prateada no ano passado. O flagra mais recente foi feito pelo jornalista Andrea Torrente neste domingo (14) na Rua Presidente Faria, no Centro, e apurado pelo Paraná Portal.

O grafite, feito em agosto de 2019, foi um dos resultados de um trabalho de parceria do Instituto com o Colégio Estadual Tiradentes, sob coordenação do artista Cleverson Café. Por meio de um financiamento coletivo, que reuniu R$ 4 mil para viabilizar o projeto, 45 alunos do Ensino Médio puderam ter oito encontros, além da realização da pintura, para discutir as mulheres defensoras dos direitos humanos e masculinidade dissociada de violência.

“Essas situações às vezes acontecem com os grafites na rua, mas o choque maior é mais por saber que o ataque não foi por simplesmente não gostar do grafite. Tem todo o símbolo dessa questão de apagar a história dela, o que ela representa, de calar ela e as pessoas que carregam o discurso dela. É triste e lamentável”, avalia Café, que já produz pinturas há 20 anos e assina centenas de obras em Curitiba.

Ele participa de diversos projetos sociais, como esse que resultou no grafite de Marielle. Porém, para ele, o trabalho ficou marcado justamente por apresentar mulheres que lutaram pelos direitos humanos, como Malala Yousafzai, Atena Daemi, Me Nam e Maria da Penha – veja as outras pinturas aqui.

“Não foi um trabalho autoral meu e, pra maioria dos alunos foi bem novo, uma história bacana. Eles não conheciam muitas das mulheres que a gente abordou e a gente percebeu eles bem interessados em saber e engajados. Foi muito bom tanto pela construção, nas rodas de conversa, quanto pelo desenho mesmo”, completou.

Como a pintura de Marielle era antes do vandalismo em Curitiba. (Carol Castanho/Divulgação Instituto Aurora)

INSTITUTO PRETENDE REFAZER PINTURA DE MARIELLE EM CURITIBA

Michele Bravos, presidente do Instituto Aurora, falou ao Paraná Portal que existirá uma mobilização ainda nessa semana para que um novo financiamento seja feito e que o grafite com a imagem de de Marielle Franco seja refeito.

“Diante do que a gente tá vivendo, com uma legitimação de violência, inclusive contra mulheres, esse vandalismo transmite uma mensagem perigosa, que a gente deve transformar. Então é nossa intenção poder repintar esse muro e poder reconstruir as histórias que estavam sendo contadas”, diz ela.

Na visão dela, o vandalismo feito foi exatamente na contramão do objetivo do projeto feito com os estudantes. Além disso, reitera que todo o cenário de manifestações contra o racismo ainda alavanca ainda mais essa mensagem.

“Não é um vandalismo comum. Ele vem com uma mensagem muito explícita de opressão e violência. Vemos, com os olhos de Marielle tampados e a boca coberta, que envia a mensagem de apagamento da sua identidade. E não apenas dela, mas do que ela representa”, analisa.

Por fim, ela ressalta que o grafite de Marielle é algo público e que deve ser cuidado por todos. “Não é algo do Instituto, do Café ou do Colégio. As pessoas participaram com valores para ser feito esse mural, que é da cidade”, finaliza.

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