Greve dos caminhoneiros gerou desabastecimento e prejuízos em todo o Brasil

Andreza Rossini


A paralisação de dez dias dos caminhoneiros, em maio deste ano, deixou o país em uma crise de desabastecimento.

Faltou gasolina, gás, afetou a distribuição de alimentos e medicamentos, os agricultores não conseguiam escoar suas safras e escolas fecharam, além de outros problemas que afetaram a população.

Ocorrida durante o governo de Michel Temer (MDB), em meio a revolta de parte dos brasileiros em relação à situação econômica e política do país, o início da greve teve apoio popular.

A principal reivindicação da categoria, que parou no dia 21 de maio, era a redução nos preços do óleo diesel que haviam subido mais de 50% em um ano. Os profissionais pediram redução nos impostos como PIS-Cofins, que incidem sobre o combustível e uma tabela mínima para os valores de frete.

Caminhoneiros que aderiam à greve trancaram a passagem de outros veículos de carga nas BRs e rodovias estaduais. No Paraná, chegaram a ser registrados mais de 200 pontos de manifestação.  Os atos liberavam a passagem de veículos leves, ambulâncias e caminhões com cargas-vivas. Se ocorresse o bloqueio total da rodovia, a multa definida pela Justiça era de R$ 100 mil por hora.

Antes do fim da greve,  os líderes do movimento no Paraná fizeram um acordo com o governo para a liberação de cargas essenciais: cargas vivas, rações para animais, alimentos para o departamento penitenciário do estado, leite para as instituições de educação infantil, material hospitalar e medicamentos e combustíveis para os órgãos oficiais (polícia, bombeiros, ambulâncias), além dos caminhões da Copel e da Sanepar.

Foto: Nilton Cardin / Folhapress

Sem transporte, a falta de ração para a alimentação de animais causou impacto direto no setor produtivo de carnes em todo o país. Várias granjas e frigoríficos racionaram ração e intensificaram o abate de animais, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representam mais de 170 empresas e cooperativas.

Segundo a Confederação Nacional de Saúde (CNS), em alguns hospitais faltou produtos como gás medicinal, material anestésico, medicamentos, insumos para tratamento de água, entre outros.

Três montadoras de veículos ficaram com a produção parada, em função da falta de peças. De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos, as empresas afetadas foram: Renault, Volkswagen e Volvo.

O número de cidades com aulas suspensas na rede estadual chegou a 99, devido a falta de transporte escolar e suprimentos para preparar a merenda dos alunos.

A Força Nacional e a Polícia Rodoviária Federal foram acionadas para liberar os pontos de manifestação, colocando um fim na mobilização.

Preços altos

Devido à escassez, os preços de alimentos e combustíveis dispararam em meio à paralisação de caminhoneiros e pressionaram o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15) de junho, indicador que serve como uma prévia da inflação oficial do país. Dados do IBGE apontam que o índice subiu 1,11% entre 16 de maio a 13 de junho, na maior variação para o mês desde 1995, quando registrou 2,35%.

A gasolina chegou a ser comercializada a R$ 5 por litro. O quilo da batata subiu de R$ 1,99 para cerca de R$ 4,70. O tomate teve alta de aproximadamente 47%. Outras frutas, verduras, legumes e alimentos perecíveis tiveram altas que chegaram a 110%, segundo levantamento divulgado pelo Disque Economia.

Negociações 

Sem um líder definido lutando pelos direitos da categoria, os acordos assinados com o governo não eram reconhecidos pelos trabalhadores.

”Os supostos sindicatos que estão negociando não representam os caminhoneiros que estão na rua”, disse o motorista Aguinaldo José de Oliveira, 40, que trabalha com transportes há 22 anos e para quem o movimento não tem um líder.

Logo no primeiro reajuste após a greve da categoria, o óleo diesel subiu 13%, no dia 31 de agosto. O Sindicombustíveis-PR, sindicato que representa as revendas de combustíveis do Estado, divulgou uma nota de repúdio. Segundo o sindicato, o aumento é um absurdo e uma falta total de respeito – tanto com os consumidores como com o segmento de postos.

Reflexos a longo prazo 

Segundo estudo divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o indicador recuou 3,4% de abril a junho na comparação com o trimestre anterior (janeiro a março). De acordo com a CNI, a queda interrompeu a tendência de alta observada desde o segundo trimestre de 2016. A entidade, no entanto, informou que a queda foi atípica e que a produtividade da indústria deve voltar a crescer nos próximos trimestres, refletindo o aumento da eficiência dos últimos anos.

De acordo com o IBGE, a greve levou à queda de 8,3% no volume de abate de frangos no país no segundo trimestre de 2018, frente aos três primeiros meses do ano.

Segundo a pesquisa trimestral do Abate de Animais, o país deixou de abater 123 milhões de cabeças de frango na passagem do primeiro para o segundo trimestre do ano. De janeiro a março, 1,47 bilhão de cabeças de frango foram abatidas, enquanto no trimestre seguinte, esse número foi de 1,35 bilhão

Os dez dias de greve dos caminhoneiros custaram R$ 15 bilhões para a economia, o equivalente a 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas no país), informou  o Ministério da Fazenda.

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