Paraná tem a primeira igreja construída para os deficientes auditivos

Amanda Koiv

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Pensando na comunidade de surdos da cidade de Londrina, a Igreja Nossa Senhora do Silêncio foi fundada com uma estrutura diferente das igrejas que conhecemos, para atender a este público, que por muitas vezes, precisou ficar de fora dos sermões.

Com a ajuda da comunidade, a igreja está sendo construída especialmente para acolher aos fiéis com deficiência auditiva. Lá, quem precisa se adaptar são os ouvintes. No projeto, a ideia de um chão que “treme”, que irá permitir que as pessoas sintam o ritmo da música através da sua vibração.

Hoje, nas missas que já estão sendo realizadas, o ambiente permite que o deficiente tenha o foco direcionado para o altar, o sacrário, a cruz e para as imagens sacras que fazem parte do ritual religioso. Um ambiente que agrega valor, ensina a conviver e a integrar com a comunidade surda.

Este legado começou há mais de 160 anos, quando um grupo de padres italianos iniciou a “Pequena Missão”, com a intenção de promover a inclusão do deficiente auditivo na sociedade. O padre João Adão Andrade, que faz parte do grupo, participou desde o início do projeto da nova igreja e afirma que o principal objetivo é promover a inclusão dos deficientes auditivos. “A igreja foi pensada e construída para os surdos. Aqui é a casa deles”, explica o padre.

Reprodução/Blog Gualandianos (Padre João, ao centro, celebrando uma das missas da paróquia)

O chão vibratório é a novidade mais esperada pelos frequentadores, pois trata-se de algo inédito no Brasil e no mundo, segundo o pároco. “Quem não entende a psicologia do surdo, não tem noção do que representa para essa comunidade sentir a vibração nos pés”. Porém, o estudo precisa de técnicos especializados e recursos para a sua finalização.

Além dos padres que se preparam para ministrar a missa de maneira direcionada, a igreja conta também com o apoio das irmãs, que fazem a interpretação das falas e canções na língua dos surdos, a libras. Para irmã Valéria Fernanda da Costa, o projeto é muito importante e desperta a empatia dos ouvintes em relação à comunidade surda.

Ela conta que o começo de sua experiência como freira foi com as irmãs carmelitas, em São Paulo. No entanto, veio ao Paraná para participar de um encontro regional da Pequena Missão e se sentiu tocada com o trabalho realizado com a comunidade surda. “Quando eu assisti a missa em libras, aquilo no meu coração ardeu”, relembra.

Arquivo Pessoal

Para a religiosa, estar em um lugar aonde as pessoas não podiam se comunicar através da fala, era aterrorizante. “Me senti com raiva e com medo porque estava em um ambiente que não era meu. Eu não sabia como comunicar. E foi aí que pensei: é assim que eles se sentem quando estão em meio aos ouvintes”, desabafa.

Desde então irmã Valéria decidiu não voltar para São Paulo e permaneceu na congregação. Há 4 anos é irmã consagrada e está se preparando para os votos perpétuos, além de dar aulas de língua portuguesa na ACAS (Associação Cascavelense de Amigos Surdos), para crianças de 3 a 8 anos. Na catedral, a irmã ainda atua como intérprete, ajuda a pastoral dos surdos e dá aulas de catequese.

 

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INCLUSÃO AGRADA OS FIÉIS 

Para Matheus Henrique Siqueira Salgado, deficiente auditivo, a importância da Igreja Nossa Senhora do Silêncio vai além do acolhimento aos fiéis, pois trata-se de uma ponte de ligação entre a comunidade surda e os ouvintes. Ele, que nasceu surdo após sua mãe ter contraído rubéola durante a gravidez, afirma que “fazer parte da missão e trabalhar com outros surdos é uma honra”. O jovem chegou a atuar como seminarista e hoje também dá aulas de libras na paróquia. “Todos juntos, para entender a nossa língua e ter acesso aos rituais da missa”, diz.

“A igreja foi pensada para os surdos”

Londrina tem hoje mais de 10 mil pessoas com deficiência auditiva e que agora vão poder contar com a possibilidade de realmente vivenciar todo o ritual de uma igreja. Para o padre João, o mais importante é que a ideia da inclusão e da igreja para surdos sirva de inspiração para outros religiosos preocupados com a inclusão social.

Amanda Koiv é estagiária de jornalismo do Paraná Portal e escreve sob a supervisão da jornalista Ana Cláudia Freire

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