Paraná é o quarto estado com maior número de desaparecimentos no país

Ana Tereza - BandNews FM Curitiba


61 em cada 100 mil pessoas são notificadas como desaparecidas no Paraná. O estado é o quarto com maior número de desaparecimentos, segundo os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em 2016, haviam 6.659 notificações. Em 2017, 334 casos a mais foram registrados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

No Brasil, em 2017 foram 81.176 casos no total. Roraima e o Maranhão não tiveram os dados contabilizados. 30% das pessoas procuradas são do estado de São Paulo. Caso de Fabiana Esperidião da Silva, desaparecida quando tinha treze anos. Hoje ela teria trinta e seis. Na época, a mãe da adolescente, Ivanise Esperidião, procurou a imprensa, mas não encontrou o apoio que esperava.

“Eu durante três meses bati em todas as emissoras de televisão, jornais, mas pareciam que as pessoas não estavam entendendo a dimensão do assunto, o meu desespero e a minha dor”, contou.

Passados vinte e dois anos, o que Ivanise ainda vive é consequência dos problemas de Segurança Pública no país e dos mecanismos de notificação não unificados e precários. Tanto no caso de desaparecimento, quanto de localização. A promotora de Justiça e coordenadora do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos do Ministério Público de São Paulo, Eliana Vendramini, conta que os casos de subnotificação muitas vezes são resultados do tráfico de drogas, seja causado pela violência urbana ou pela polícia.

Já os casos de supernotificação (quando as pessoas são localizadas, mas isso não é informado à polícia) seriam consequência dos familiares ou amigos que não dão baixa nos boletins de ocorrência.

“A delegacia não deveria apenas registrar os fatos, deveria investigar, como de fato isso ainda não acontece, e deveria tratar os dados como prevenção”, disse.

Eliana explica que hoje as maiores dificuldades de prevenção para esse tipo de ocorrência é a falta de conscientização e conceituação. Segundo a promotora, dentro da cultura nacional, o Boletim de Ocorrência é feito em consequência do crime e não da função pública da delegacia – que nessa situação seria a de investigar o fato.

Ela conta que a ocorrência pode até dar origem a uma investigação. Mas, na visão do policial, ela não vai ser efetiva, ou seja, não encontrará o desaparecido.

“É necessário que a instituição não só releve esse trabalho, capacite esse trabalho e instrumentalize, principalmente apostando na tecnologia”, afirmou.

Outra situação apontada como dificuldade envolvendo o desaparecimento de pessoas é a assistência aos familiares da vítima. A promotora defende que o acolhimento psicossocial deveria ser prestado pelo Estado àqueles que não tem a certeza se irão reencontrar o familiar. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha começou, em 2014, um trabalho de análise das ossadas encontradas na “Vala de Perus em São Paulo” e o acompanhamento dos familiares das pessoas que poderiam ser encontradas ali.

Identificada na década de 1990, a “Vala de Perus” serviu de túmulo clandestino durante a ditadura militar para depositar restos mortais de opositores políticos e pessoas que foram mortas em chacinas e por grupos de extermínio. Até fevereiro de 2018, mais de 1.047 ossadas tinham sido identificadas.

A coordenadora de proteção do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Marianne Pecassou, conta que desde o início do ano (2018) a entidade passou a trabalhar com outros grupos de familiares de pessoas desaparecidas, além daqueles envolvidos com o caso da “Vala de Perus”. Desde 2016, o Comitê, junto com familiares das vítimas, produz uma lista de recomendações para que o governo possa melhorar as iniciativas que tratam sobre os desaparecimentos.

“Hoje em dia nós sabemos que tem no Congresso um projeto de lei que vem sendo discutido, que fala de políticas públicas e um cadastro nacional. Nós avaliamos como positivo, mas também sugerimos outros dispositivos para tratar da temática, pois o Cadastro, por exemplo, não é suficiente para tratar de todas essas questões que temos no Brasil”, avaliou

Marianne ainda explica que a Cruz Vermelha, assim como o Ministério Público de São Paulo, entende que o trabalho de acompanhamento com os familiares é essencial. Além de problemas sociais e econômicos, como guarda de crianças e herança, o psicológico dessas pessoas também pode ser atingido.

“Nós consideramos que tratar da temática, focando o discurso só na questão dos desaparecidos é uma maneira incompleta de tratar do problema. A voz dos familiares precisa ser ouvida, porque eles precisam de ajuda e apoio da sociedade”, destacou.

Um dos grupos auxiliados pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha é o “Mães da Sé”, coordenado por Ivanise Esperidião, mãe de Fabiana, que desapareceu em 1995. O grupo inicialmente contava com mais de cem mães e, apenas nos primeiros oito meses de atuação, ajudou a encontrar quarenta e oito (48) pessoas.

“Em 22 anos de trabalho, eu já tenho hoje o resultado de 4.751 pessoas encontradas, não encontrei minha filha até hoje. São 22 anos e oito meses de uma busca incessante. Não tem um dia que eu não me pergunte: onde está essa menina? O que aconteceu? se está bem, se está viva, se está morta, onde está o corpo. Há 22 anos eu morro um dia de cada vez. O que os nosso filhos são para o estado? números. Os nossos filhos fazem parte apenas de uma estatística.

Fabiana foi com a amiga visitar uma outra colega que fazia aniversário naquele dia. Na volta, cada uma seguiu em direção à própria casa. Fabiana nunca chegou.

 

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