Alunos do 3º ano do ensino médio têm atividade do fundamental em EAD no Paraná

Vinicius Cordeiro

"Sistema do ensino a distância é exclusivo. A maioria dos professores não teve formação para usar essas plataformas, os alunos muito menos", conta professor da rede estadual e diretor da CNTE.

Os alunos do terceiro ano do Ensino Médio da rede estadual de ensino do Paraná tiveram que realizar atividades do 6º ano do Fundamental durante o EAD (Ensino a Distância) feito durante a pandemia do coronavírus, conforme a Secretaria de Estado de Educação e do Esporte (SEED).

Com a crise causada pela Covid-19, os alunos tiveram as aulas presenciais suspensas no dia 16 de março. Com isso, o governo elaborou uma estrutura online, composta de aulas na TV aberta, plataformas digitais e um aplicativo, para ofertar o ensino da rede.

Contudo, os alunos que deveriam estar sendo preparados para o Enem (Exame Nacional de Educação) e vestibulares, fizeram ao menos dois exercícios de Geografia, obtidos pelo Paraná Portal, referentes a anos anteriores.

Com temas de Globalização, as questões dão apenas duas alternativas, sendo uma delas incompatível com o estudo dos adolescentes. Na definição do fenômeno social e econômico, a alternativa ‘b’ fala que a globalização é o nome de um país. Já a segunda pergunta se refere como a cultura globalizada se manifesta. A opção ‘a’ diz “nos móveis da casa” e a opção ‘b’ revela “nos comportamentos sociais”.

Segundo a SEED, as questões foram postadas de maneira equivocada e, na maioria das salas do terceiro ano, os professores retiraram as atividades ao perceberem o erro. Além disso, a Secretaria ressaltou que os docentes têm autonomia  total para retirar ou incluir as atividades das suas salas virtuais. “Neste caso, o professor não se deu conta e não retirou”, diz a nota enviada ao Paraná Portal.

Ainda conforme a Secretaria, o adiamento do Enem foi positivo e estão sendo preparadas videoaulas específicas sobre conteúdos abordados no teste nacional para os alunos da rede estadual.

O Paraná Portal escutou uma série de alunos, pais e professores, que apontaram diversas dificuldades no ensino a distância. Os estudantes citados na reportagem estão com nomes fictícios para preservar suas identidades.

ESSE É O PADRÃO, DIZ ALUNA

Segundo uma estudante do 3º ano do ensino médio, o padrão da maioria das perguntas as atividades de praticamente todas as disciplinas tem poucas alternativas, assim como a atividade de Geografia. “Estavam vindo bastante assim. Se for com quatro alternativas, é muito”, conta Maria Fernanda, de 18 anos.

Além disso, ela revela insegurança para realizar qualquer prova com o intuito de conquistar uma vaga em universidade. O cenário não é visto só no Paraná, visto que a Covid-19 afeta todo o país. “Está sendo complicado pelo vestibular e Enem. Não estamos nos conseguindo nos adaptar nessa forma para nos preparar para essa fase. Mas os exercícios… Está dando pra fazer”, completa.

João Correa, aos 16 anos, está no 1º ano do ensino médio diz que não tem dificuldades em cumprir os trabalhos. “A maioria das atividades você vê a resposta na internet e aí não erra nada, nem precisa ver as aulas online”, conta.

Além disso, ele ainda destaca que a autocobrança é para não deixar tarefas para o dia seguinte. “Dá para fazer tudo no dia que eles mandam. Se acumular, não dá porque é muita coisa”, diz.

Questionado se estava achando as tarefas difíceis, Felipe Gabriel, que está no sexto ano do ensino fundamental, negou. “Nem tanto, algumas coisas eu já sabia”, conta. A mãe, Bruna, de 39 anos, completa: “Ele faz sozinho, sem preocupação”, completa.

PROFESSORES SOFREM PRESSÃO POR PRAZOS

Uma agente educacional, que pediu para não ser identificada, revelou ao Paraná Portal que os professores sofrem pressões para prazos de correções no EAD. Caso contrário, os alunos não têm as presenças confirmadas e os próprios docentes ganham faltas. Isso pode ocasionar a redução dos salários dos professores temporários, que ganham por hora-aula. Já os professores efetivos ganham por cargo e não acumulam tanta pressão.

“Os professores estão trabalhando infinitamente mais horas que o normal. Estão nervosos, estressados, em crise de nervos. Atendem alunos de manhã, tarde e à noite. Organizam as atividades para postar e precisam visitar as tarefas dos alunos no ClassRoom [sistema do Google usado pela SEED] e dar nota. Se não fizer isso, não conta como presença”, revela.

O Paraná Portal teve acesso a uma das mensagens enviadas aos professores por WhatsApp:

ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO

A postagem das aulas do professor não precisa ser, necessariamente, no horário da sua aula… 

Mas tem que ser realizado OBRIGATORIAMENTE NO DIA da sua aula.

Tem que constar no mínimo 40 caracteres no mural do classroom para considerar a presença do professor”.

SISTEMA EAD FEITO NO PARANÁ É EXCLUSIVO, AVALIA PROFESSOR

Professor da rede estadual e diretor executivo da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), Luiz Carlos Paixão apontou que os professores não têm nada contra o EAD, mas que a maneira como o sistema foi feito no Paraná é complicado. Na visão dele, não houve debate com a comunidade escolar.

“A maioria dos professores não teve formação para usar essas plataformas, os alunos muito menos. Vemos um grau de exaustão muito grande nos professores para tentar dar conta das plataformas. E, como a gente previa, um grande número de estudantes não conseguem participar”, diz ele.

Segundo Paixão, números apontavam que 70% dos alunos não estavam participando de forma sistemática e que aproximadamente 40% dos estudantes não têm acesso à banda larga, sendo prejudicados no EAD. Contudo, conforme a Secretaria, apenas mais de 10 mil alunos não tiveram nenhum registro de presença nesse período.

“É um processo de exclusão educacional. Muitos estudantes estão fora desse processo. O que a gente percebe: desde o início do programa do programa da SEED, vem se tentando remediar um processo que, na sua origem, é problemático. Ele não consegue atingir a todos e, principalmente também na qualidade do ensino ofertado e do acompanhamento dos professores”, diz ele.

Para o professor, o que está se fazendo com as crianças e adolescentes é um absurdo. Além disso, argumenta que várias universidades, com um público que teria mais maturidade para o sistema online de aulas, não exigiram o EAD.

“Parece que o mais importante é que o calendário esteja sendo mantido e as crianças e adolescentes estejam ocupados. Mas de que forma e com qual qualidade, isso parece que é secundário”, finaliza.

Aplicativo é uma das ferramentas usada no EAD. (Geraldo Bubniak/AEN)

PAIS RELATAM AS DIFICULDADE DOS FILHOS COM EAD

Ana Luísa, mãe de uma aluna do sétimo ano do ensino fundamental, relata que o conteúdo é básico e que a filha não tem dificuldades para realizar os exercícios. “As atividades são muito básicas, acho que só para cumprir protocolo. Dá pra ver claramente, tanto as aulas quanto as atividades, que não tiveram preparação”, opina a jornalista.

Além disso, revela que fez um combinado com a própria filha em apenas acompanhar as aulas que ela tem mais dificuldade. “Não estou fazendo ela assistir todos os dias, é cansativo. Não adianta tentar encarar isso como normal e tacar a criança na frente do computador o dia inteiro”, diz.

Já Ricardo Xavier, pai da aluna do terceiro ano do ensino médio citada na reportagem, disse que a principal dificuldade é ver todos os conteúdos online. “Está sendo difícil de ver as aulas, está entediada. Mas vejo que ela está respondendo aos exercícios”, comenta o administrador.

A contadora Angélica Vasconcellos admite que não tem acompanhado o processo de aprendizagem do filho, do primeiro ano do Ensino Médio, durante o processo educacional. Para ela, é difícil o monitoramento pelas aulas e computadores serem de forma digital.  “Até hoje ele não me perguntou nada. Não sei se está sentindo dificuldade ou não, se está vendo todas as aulas. Espero que sim, mas não sei”, comenta.

Já a administradora Simone Peters, mãe de uma aluna do terceiro ano, diz que elas não fizeram inscrição para o Enem. Ela justifica que o governo quer que os alunos tenham nota e passem de ano, mas ressalta que o próximo ano da filha seria em uma universidade.

“A preocupação é geral. Ninguém está adaptado, todo mundo está tentando. A gente até entende a dificuldade, mas os alunos que se ferram. Ela vai prestar vestibular de que jeito se não tem suporte? Não tem a mínima possibilidade de fazer”, revela.

SECRETARIA DIZ QUE FAZ CONTROLE RIGOROSO

Em nota, a SEED ressaltou que os processos de controle e revisão rigorosos. Além disso, destaca que o ensino a distância foi a alternativa encontrada para que as aulas fossem mantidas e os alunos não tivessem prejuízos pedagógicos. Sobre a pressão em cima dos professores, a Secretaria afirmou que a orientação é atender cada turma no horário da aula regular.

Leia a íntegra da nota:

Sobre o conteúdo, a Secretaria de Estado de Educação e do Esporte (Seed) faz um controle e revisão rigorosos. Durante a produção das videoaulas, o professor é acompanhado por mais dois da mesma disciplina, que assistem em tempo real as gravações e fazem os ajustes necessários. Os slides postados pela Seed também passam pela revisão desta equipe, bem como as atividades sugeridas nas salas virtuais do Classroom.

Em relação ao tempo em frente à TV e ao computador, o Aula Paraná, estruturado nos seus cinco pilares (TV Aberta com sinal para alcançar 10,5 milhões de paranaenses; Youtube com 17,5 milhões de visualizações; aplicativo Aula Paraná com mais de 800 mil downloads; salas de aulas virtuais conectando 600 mil alunos e 41 mil professores; e as atividades e materiais impressos), foi projetado para ter a mesma carga horária das aulas regulares, cerca de 4h.

Essa foi a alternativa encontrada para que os alunos não tivessem prejuízos pedagógicos e se mantivessem em aulas, seguindo seu clico natural de desenvolvimento. É importante destacar que os cinco pilares elaborados no Aula Paraná servem ao contexto de pandemia, nunca antes visto no mundo, onde é preciso manter o isolamento e distanciamento social, e seguem padrões internacionais sugeridos pela Unesco. Por isso é importante o envolvimento dos pais neste processo neste momento.

Sobre os professores, a orientação da Seed é que eles atendam cada turma no horário respectivo da sua aula regular.

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