Professor dá aula vestido de drag queen no Paraná para combater homofobia

Mariana Ohde


Um professor de português do cursinho pré-vestibular da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), em Cascavel, encontrou uma forma diferente de chamar a atenção dos alunos – e da sociedade – no Dia Internacional de Combate à Homofobia. No dia 17 de maio, Jonathan Chasko ministrou a aula sobre “artigos definidos e indefinidos” como a drag queen Sofia Ariel.

O objetivo era utilizar uma figura representativa no movimento LGBT – as drag queens – para trazer a discussão sobre a homofobia para a sala de aula. E o resultado teve um alcance maior do que o esperado. As fotos da aula foram compartilhadas nas redes sociais e pela imprensa, o que fez com que o professor ganhasse cerca de 300 novos amigos no Facebook na última semana.

Reações positivas

Na sala de aula, a reação inicial dos alunos foi de surpresa. “Cheguei com um leque e me apresentando. De imediato, já entrei no conteúdo e fui dando exemplos da realidade das drag queens e isso foi fazendo com que eles se divertissem e se sentissem mais à vontade para perguntar e comentar”, conta Jonathan.

Após os compartilhamentos na web, Jonathan afirma que a resposta tem sido, de forma geral, positiva. “[Recebi] muito apoio dos colegas de profissão e pessoas na rua, na universidade e até na balada, comentando e parabenizando. Pessoalmente, não recebi nenhuma crítica negativa, alguns conselhos, mas nada destrutivo”, conta.

Houve também comentários negativos, principalmente nas redes sociais, onde a notícia foi divulgada. “Algumas pessoas não entenderam a proposta e, aí, os ataques são os mais diversos possíveis, com analogias estranhas e sem economia de palavrões”, explica, contando que procurou responder com bom humor. “Não vale a pena, no final das contas, falar a quem não quer ouvir, não é? Temos que apostar naqueles que estão dispostos a debater e construir uma sociedade melhor”, finaliza.

Discussões em sala

Segundo o professor, não faltou quem mostrasse apoio à iniciativa de trazer a discussão para a sala de aula. “Muitas histórias vieram, e isso fez eu me sentir mais forte. Muitos relatos de agressões de pessoas LGBTs no período da escola, muitas histórias de pessoas que sofreram bullying e de como elas acreditam que poderia ter sido diferente se mais professores abordassem temas da diversidade em sala de aula. Por dia, eu tenho recebido, pelo menos, dez mensagens de apoio e de histórias”, conta.

Combate ao preconceito

“O primeiro passo para extinguirmos o preconceito é: assumir nossos preconceitos. Nós somos pessoas preconceituosas em níveis diversos e com tipos de pessoas e situações diversas. O primeiro passo é entender aquilo que desaprovamos e respeitar aqueles que não agem da forma como cremos ser o melhor”, afirma Jonathan.

O professor também ressalta a importância da atuação dos professores, uma vez que a sala de aula é o espaço ideal para a reflexão. “A sala de aula é espaço da álgebra, da gramática, do sistema cardíaco e das ligações de carbono, assim como é espaço de discutir o racismo, a homofobia, o machismo, a cultura do estupro estrutural em nosso país, que vem fazendo, ainda, a menina Beatriz de vítima. A sala de aula é esse lugar de reflexão e de crescimento, e a sociedade, os alunos e, principalmente, os pais e família precisam entender isso”, explica, referindo-se ao caso da jovem de 16 anos que foi estuprada no Rio de Janeiro na última semana.

Mudança

Professor desde 2009 no cursinho pré-vestibular da Unioeste, Jonathan leciona para alunos vindos do sistema público de ensino, um pré-requisito para participar do projeto. Apesar de ainda haver resistência, o professor ressalta que, nos últimos anos, tem percebido uma aceitação maior por parte dos alunos em relação a temas ligados ao preconceito e discriminação.

“Venho percebendo que são pequenos passos, mas a cada ano os alunos demonstram menos resistência em discutir situações nas queias eles são os ditos privilegiados – isto é, os alunos brancos compreenderem a necessidade das cotas raciais, os alunos homens entenderem o machismo em nossa sociedade e, especificamente, naquilo que trabalhei, a maioria de alunos heterossexuais se mostrarem abertos para compreender o que os homossexuais passam e como mudar essa realidade”, finaliza.

 

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal