Professores ministram aulas para jovens que não tem condições de pagar cursinho pré-vestibular

Victor Duarte Faria - Metro Maringá

Luiz Henrique Silva, de 16 anos, sonha em ser juiz. Para ver seu sonho realizado, ele encara uma jornada dupla de estudos, intercalada por horas dedicadas ao trabalho. De manhã, o adolescente vai ao colégio. À tarde, trabalha como jovem aprendiz. Já as noites são no cursinho. Ele é um dos alunos do Cursinho 180º, que funciona em uma sala comercial na avenida Paraná, 965, cedida sem custos. O espaço é frequentado por jovens sem condições financeiras de pagar um cursinho particular, mas que veem na educação a esperança de um futuro melhor.

“Aqui no cursinho é bem diferente do colégio. O pessoal é bem mais centrado. Eu acho que se a pessoa se inscreve e vem estudar à noite, é porque os objetivos estão bem claros”, comenta Luiz Henrique, que tem como foco a aprovação no curso de Direito da UEM (Universidade Estadual de Maringá).

E para isso, além das aulas de segunda a sexta-feira, reserva um tempo aos fins de semana para revisar os conteúdos e fazer tarefas. “Não sei se vou conseguir passar no vestibular agora no
meio do ano, porque Direito é bem concorrido e ainda não estudei todos os conteúdos. Mas espero conseguir uma vaga no vestibular de fim de ano.”

Conseguir uma vaga em uma instituição de ensino superior também é o objetivo dos outros 32 alunos do Cursinho 180º, que foi idealizado pela professora Gleici Kelly Lopes. Ela decidiu montar um cursinho gratuito após vivenciar as disparidades entre o ensino público e privado. Para tirar a ideia do papel, contou com o apoio do marido, João Lopes – atualmente coordenador do projeto –, e de colegas.


Fundado em 2017, o projeto conta com 14 professores voluntários que trabalham em sala de aula os principais conteúdos cobrados no vestibular da UEM e no Enem (Exame Nacional do Ensino
Médio). As aulas acontecem de segunda a quinta-feira das 19h às 21h50. Nos intervalos, são oferecidos lanches gratuitos aos estudantes.

“Muita gente vem para cá direto do trabalho. Então, às vezes, não dá tempo de voltar para casa ou passar em algum lugar para comer. E ninguém merece estudar de barriga vazia”, diz o coordenador do curso.

Fila de espera

Se no início foi preciso distribuir panfletos e cartazes em escolas para divulgar a iniciativa, hoje já não é mais. Os estudantes ‘descobrem’ o cursinho através de vagas anunciadas em grupos de WhatsApp e principalmente da ‘propaganda’ feita pelos próprios alunos e professores de ouros colégios, reflexo dos bons resultados obtidos.

Em 2018, 13 dos 30 alunos foram aprovados em universidades públicas ou conseguiram bolsa integral em instituições particulares da cidade através do Enem. “Este ano, tivemos muita
procura. Como trabalhamos com turmas menores, para que o estudante tenha contato direto com os professores, tivemos até fila de espera. Nosso limite é de 30 a 35 vagas, e a fila de espera já está em 40 alunos”, conta Gleici.

Empenho rendeu bolsa e aprovação em vestibular

Ex-aluna do Cursinho 180º, Maria da Silva, 17 anos, atribuiu sua aprovação em vestibulares a dedicação dos professores e dos idealizadores cursinho. Ela frequentou as aulas no ano passado e foi aprovada no PAS (Processo de Avaliação Seriada) da UEM (Universidade Estadual de Maringá) para a graduação de Secretariado Executivo Trilíngue.

Com o seu desempenho, também ganhou bolsas de estudo de 50% para o curso de Engenharia Civil pelo Promube (Programa Municipal de Bolsas de Estudos) e de 100% para Arquitetura e Urbanismo pelo ProUni – ambas as graduações na UniCesumar. Ela optou pela última.

“Não tinha uma disciplina muito grande para estudar sozinha. Indo para o cursinho eu tinha motivação para estudar e, mesmo quando não estava na aula, ouvia histórias de outras pessoas que tinham sido aprovadas e isso ajuda muito no dia a dia. Isso conta muito na jornada de uma vestibulanda”, disse.

Vontade de estudar 

Embora grande parte dos alunos curse o ensino médio, não há limite de idade para se inscrever no cursinho. Segundo João, basta ter vontade de estudar e se comprometer. E quando possível ou houver condições, ajudar outras pessoas. O coordenador acredita que se cada um que já foi ajudado ao menos uma vez retribuísse a benfeitoria, com certeza a sociedade estaria diferente do que
é hoje.

“Eu poderia estar na minha casa descansando ou jogando um videogame, mas não estaria feliz. Acredito que se cada um fizer a sua parte, fizer uma grande corrente do bem, no final o mundo será um lugar muito melhor de se viver”, ressaltou.

E a corrente já está se formando. Luiz Henrique Silva – aquele que sonha em ser juiz – busca a profissão justamente para ajudar as pessoas

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