Programa de apoio forma primeira aluna surda bilíngue da UFPR

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) formou a primeira pessoa surda usuária da Língua Brasileira de Sinais (Libras) n..

Redação - 26 de fevereiro de 2017, 12:18

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) formou a primeira pessoa surda usuária da Língua Brasileira de Sinais (Libras) na última sexta-feira (24). Carolina Carvalho Palomo Fernandes, de 22 anos, se formou em Pedagogia e a cerimônia reuniu, além da família, representantes da comunidade surda, professores e tradutores de Libras que estiveram ao lado de Carolina ao longo do curso, num processo que vem abrindo portas para o ingresso de outros alunos surdos na universidade.

Filha de um operador de máquina extrusora e de uma dona de casa, Carolina perdeu a audição aos cinco anos. Cursou o ensino fundamental e o médio em escolas particulares, mas não fez cursinho para ingressar na universidade. “Pedi materiais emprestados de amigos e tentava estudar do meu jeito”, conta ela, que hoje é professora no Centro Municipal de Educação Infantil Hugo Peretti, em Curitiba.

O ingresso na UFPR, em 2012, mudou não apenas a formação de Carolina, mas também a relação dela com sua própria condição de surda. “Até ingressar na universidade eu ainda não tinha assumido a minha identidade surda e não falava com frequência na Língua Brasileira de Sinais. Eu fazia a leitura labial, mas me perdia muito nas discussões e debates em sala, me deparava com pessoas com pouca articulação na fala, com bigodes e barba que atrapalhavam e até mesmo que falavam de costas, impossibilitando a leitura labial”, relata.

Ao terminar o ensino médio, Carolina decidiu fazer diferente: “Comecei a me aceitar como surda e pedir por intérpretes de Libras/Língua Portuguesa nas aulas. Foi na UFPR que descobri o quanto tinha perdido sem a Língua de Sinais e que a presença de interprete é fundamental na minha aprendizagem. Quando me comunico em Libras me sinto eu mesma, com menos barreiras a enfrentar”.

A coordenadora do curso de Letras Libras da UFPR, professora Sueli Fernandes, lembra que até o ingresso de Carolina a universidade não dispunha de um corpo próprio de tradutores e intérpretes de Libras. Os profissionais eram contratados temporariamente para atender as necessidades – como bancas de vestibular, por exemplo, organizadas pelo Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais (Napne).

“A universidade já recebia alunos com perdas auditivas, mas nenhum usuário de Libras”, informa. Em 2014, a UFPR foi contemplada pelo Programa Viver sem Limite do governo federal, voltado à implantação de licenciaturas em Letras Libras. Para apoiar a implantação, o governo fornecia um “enxoval’ composto por vagas para professores e tradutores/intérpretes, além de recursos para compra de equipamentos. A partir daí, a UFPR passou a se estruturar para dar suporte aos alunos surdos bilíngues, num esforço concentrado sob a bandeira “Construindo a UFPR bilíngüe”.

A turma que ingressou este ano é a terceira do curso de licenciatura em Letras Libras. O curso é voltado preferencialmente para alunos surdos, mas reserva 30% das vagas para ouvintes.