Reflexos da pandemia da covid-19 no setor de eventos: autônomos precisam de ajuda

Mirian Villa

Autônomos e freelancers são os mais afetados pelo coronavírus no setor de eventos

Medida fundamental para a contenção do avanço da Covid-19, o isolamento social impactou severamente diversos setores econômicos do país. Um deles é o de eventos, que teve 98% da categoria afetada pela pandemia do novo coronavírus, segundo uma pesquisa realizada pelo Sebrae.

Para driblar os efeitos da crise econômica, 34% dos empresários devolveram dinheiro para o contrante, já outros 35% conseguiram negociar crédito para realizar os eventos futuramente. Quando analisamos o recorte através de freelancers como, por exemplo, garçons, fotógrafos e técnicos de luz e som, a situação fica ainda mais complicada.

Diversos trabalhadores que prestam serviços em eventos, mas não possuem vínculos empregatícios, tiveram que se virar nesses quase cinco meses para administrar as despesas da casa. Esse é o caso da Vanderléia de Souza Campos, que é garçonete freelancer e não conseguiu o auxílio emergencial.

Vandérleia em um dia de trabalho (Arquivo pessoal)

“Eu fazia em média 16 taxas de trabalho por mês, em março fiz apenas cinco e depois nada mais. Não consegui o auxílio e nem o meu marido e, juntos, trabalhamos como freelancers. Não tivemos apoio quando foi negado e chegou o desespero. É impossível viver sem renda, contas em andamento, impostos e o essencial: comida”, disse Vanderléia que ainda não encontrou um ‘bico’ para se sustentar.

De acordo com Vanderléia, o setor de eventos foi o primeiro a parar as atividades e, ao que tudo indica, será o último a voltar. “Hoje vivemos um pesadelo durante o dia e a noite nem existe mais a chance de tentar dormir. Estamos sem renda alguma e o pior, sem expectativa de voltar ao trabalho.”

Já Gislaine de Souza da Rocha, que é cerimonial e também atua como garçonete em eventos, precisou vender o carro da família para pagar as contas que estavam parceladas. “Emprestamos dinheiro, reduzimos gastos ao máximo e estamos recebendo cesta básica. A prestação da Caixa foi suspensa por 180 dias pelo Governo Federal e consegui alguns dias de diarista, mas mesmo assim temos contas atrasadas”, justificou.

Gislaine tinha 15 eventos em março que foram cancelados. Segundo ela, nestes quatro meses perdeu 50 dias de trabalho. “O incerto deixa dúvidas, não sabemos como será a realidade desse retorno. Tenho para mim que não será o mesmo e que provavelmente o número de profissionais será reduzido.”

Jefferson Correia Lima, que trabalha há 10 anos somente na parte técnica de eventos, como som e iluminação, foi surpreendido no dia 3 de março com diversas remarcações. “Esse ano começou muito bom, bom demais para ser verdade. No começo da pandemia tinha reserva para 60 dias e achava que tudo passaria rápido.”

Porém, um mês de isolamentos social se transformou em cinco e agora para conseguir sustento, o DJ está fazendo bicos como motorista. “Até  hoje, 20 eventos não foram realizados e até dezembro tudo já foi remarcado. O único auxílio que recebi foi o ‘Cartão Comida Boa’.”

Jefferson em um evento (Arquivo pessoal)

SOLIDARIEDADE E CRIAÇÃO DE MOVIMENTO 

Vendo de perto a necessidade de vários autônomos, Alessandra, dona de uma floricultura de Curitiba, se juntou com outros empresários e todo mês está fazendo doações de cestas básicas. “Vejo todos eles como parceiros de trabalho e o que me motivou é a empatia ao próximo. Junto com os parceiros, selecionamos profissionais que mais precisavam de ajuda e distribuímos mais de 200 cestas básicas. A ideia é continuar até tudo volta ao normal”, justificou.

Em um depoimento, uma pessoa que recebeu a cesta básica chorou com a ação de Alessandra. “Eu me emociono muito porque é um alimento, uma cesta básica, para fazer os filhos ficarem bem. Nós ainda temos onde morar, mas tem muitas pessoas que não tem.”

Sentindo na pele os efeitos que a pandemia do novo coronavírus trouxe para o setor de eventos, Gislaine organizou um movimento que pede ajuda das autoridades para os profissionais que estão passando necessidades desde março.

Em uma carta aberta, o ‘SOS Eventos Curitiba’ reafirma que do setor dependem milhares de profissionais e famílias e, por isso, clamam por propostas. Entre elas, está acesso ao vale gás, acesso ao cartão comida boa e a inclusão dos profissionais autônomos no CAD Único.

“Essa semana atingimos três mil assinaturas e vamos protocolar o abaixo assinado. A ideia desse movimento partiu depois de algumas conversas com amigos da área de eventos, eu percebi que os profissionais estavam abandonados”, explicou Gislaine.

Gislaine trabalhando antes da pandemia da covid-19 (Arquivo pessoal)

RETORNO DO SETOR DE EVENTOS AINDA ESTÁ LONGE

Assim como os outros trabalhadores autônomos que atuam no setor de eventos, o sonho do retorno parece distante, mas é aguardado com grande expectativa. “Precisamos trabalhar e conquistar nossa dignidade”, afirmou Vanderléia.

“Minha perspectiva de melhora é para fevereiro ou março de 2021, sendo bem otimista. Enquanto não sair a vacina, acho complicado o retorno dos eventos”, apontou Jefferson. Já Gislaine, não vê uma perspectiva de volta tão próxima.

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