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Voluntários revolucionam realidade de crianças do bairro do lixão

Crianças moradoras de uma área de ocupação no Caximba – região que recebeu todo o lixo da cidade por mais de 20 anos e é..

Priscilla Fontes - 14 de outubro de 2016, 14:10

Crianças moradoras de uma área de ocupação no Caximba – região que recebeu todo o lixo da cidade por mais de 20 anos e é extremamente marginalizada – foram presenteadas com doações de brinquedos, comida, fraldas e roupas neste Dia das Crianças.

A festa foi apenas um dos eventos que estão transformando a vida desses meninos e meninas. O que deu início aos projetos foi uma pergunta feita por Edilaine Aparecida de Lima, moradora do local que, há seis anos, abriu os portões de sua casa para criar a Biblioteca Amigos do Caximba, levando trabalhos didáticos com leitura para os pequenos. “O que vocês querem ganhar de dia das crianças?”, ela indagou. A resposta de uma das crianças, que chocou não só a fundadora do projeto mas também vários amigos que fizeram a história repercurtir nas redes sociais, foi a seguinte: “Quero ganhar um pacote de bolacha”.

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A resposta comoveu centenas de pessoas nas redes sociais e gerou uma corrente do bem que está transformando a vontade de ajudar em, de fato, atitude para mudanças. Foi o que aconteceu com a empresária Márcia Ribeiro, dona de um salão de beleza em Curitiba. Márcia ficou sabendo da história por uma amiga e, segundo ela, foi impossível não fazer nada depois de ver as fotos no Facebook de Edilaine e perceber que as crianças atendidas pela Biblioteca realmente precisavam de ajuda. “Fiquei bem emocionada, porque eu tenho uma filha que pega uma bolacha, come o recheio e joga o resto fora. Então eu resolvi fazer algo”, contou.

De início, seu método para arrecadar doações foi usar o próprio negócio como atrativo e criar uma promoção no salão: cada cliente que levasse um brinquedo poderia escolher ganhar um corte, uma escova ou uma hidratação. “Só que eu percebi que aquelas crianças não precisavam apenas de brinquedos, precisavam de bem mais”, disse com tom esperançoso. Assim, Márcia começou a mobilizar alguns amigos, que mobilizaram outras pessoas e, juntos, formaram a corrente de solidariedade chamada Turma da Atitude. “Pelo o que eu vi, as pessoas querem ajudar, mas não sabem para onde levar. Existem muitas pessoas solidárias que não sabem como ajudar”, contou.

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Uma creche improvisada

Edilaine resolveu abrir o portão de sua casa e dividir o pouco que tinha com quem muito precisava. O espaço construído com madeiras doadas abriga, ensina e cuida das crianças que moram na região de ocupação do Caximba. Com pouca estrutura, pouco dinheiro e muita vontade de oferecer a possibilidade de um futuro melhor, Edilaine tem quase 700 cadastrados no projeto. Para dar conta da demanda, a ex auxiliar de pré escola faz um rodízio diário de 40 crianças, de quarta a sábado. Ela contou que muitas vezes a única refeição dessas crianças é na Biblioteca. “Uma refeição por dia. Isso me estimula demais a não desistir”, revelou a fundadora do local. “Eu tive o desejo no meu coração de fazer algo que não fizeram por mim quando passei por momentos muito difíceis com meus quatro filhos”, continuou. Ela contou que, por conta disso, encontrou o outro lado da dificuldade, da desigualdade, da fome e da miséria.

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Há seis anos morando no local, Edilaine busca fazer o que está ao seu alcance – e seus braços conseguiram chegar longe o bastante para movimentar cerca de 30 voluntários que estavam na casa dela no dia 12 de outubro. “Vindo para cá, usando a personagem que era a Bruxa Baratuxa, a Emília ou a Chapeuzinho Vermelho, comecei a usar fábulas que incentivavam os sonhos das crianças a não morrerem. Sonhos que são massacrados diariamente. Eu comecei a colocar toda essa minha vontade de querer um mundo melhor na minha garagem”, revela, orgulhosa de sua trajetória. Nenhum valor é cobrado para que as crianças fiquem na biblioteca e recebam carinho, educação e comida. Para ela, a atividade não tem preço porque só um item é oferecido: amor. “Eu só sou a ponte. Sem você, elas não conseguem atravessar”, desabafa.

Turma da Atitude – O coletivo trabalhando pelo bem

A Turma da Atitude foi formada por quinze amigos que começaram a atuar um mês e meio antes do Dia das Crianças. Para a voluntária Yara Grigera, 28, a ação foi um sucesso graças ao esforço de todos os envolvidos. "Poxa, se essas crianças só querem um pacote de bolacha, acho que podemos dar isso e muito mais", respondeu quando foi indagada sobre como tudo começou. Orgulhosa, ela disse que "No mundo, um é responsável pelo outro. Não dá pra eu dormir tranquila na minha casa sabendo que tem outra pessoa numa realidade muito diferente da minha. Se eu juntar o pouquinho que eu tenho com o pouquinho que você tem, podemos resultar em muito, como mostra essa ação linda que estamos fazendo aqui”.

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Tanyelli Galmacci, 38, advogada e membro do grupo Amigos de Atitude, disse que a ajuda partiu de vários lados: grupos de colégio e faculdades, família, amigos e empresas. "Qualquer valor, qualquer item, tudo é válido e tudo soma”. O objetivo da Turma é ajudar outras comunidades também, mas nesse momento o foco é melhorar a Biblioteca do Caximba primeiro. "Quando vermos que aqui está mais estruturado, partiremos para outra. Dependendo da generosidade das pessoas nós conseguiremos ir muito mais longe", comenta Yara. A arrecadação foi tanta que o grupo conseguiu superar as expectativas e sobraram brinquedos e doações para que seja feita uma nova campanha no Natal. No início do ano que vem o grupo irá ajudar com material escolar. Segundo os membros, algumas crianças não querem ir para a escola porque não têm mochila, nem caderno e outros materiais e acabam levando o pouco que têm dentro de uma sacola de mercado. “Isso desestimula os pequenos. Já arrecadamos material escolar e ele será doado em janeiro. Tudo isso em um mês e meio de ação. O céu é o limite!”, conta Yara. “Uma amiga esses dias me disse: nós somos o resultado do coletivo trabalhando pelo bem. Isso define tudo", finaliza, sorrindo.

Doações de empresas colaboraram para que a ação desse certo

A mobilização chegou no ouvido de grandes empresas e o saldo, para tão pouco tempo de ação, está positivo. A história do desejo das crianças de ganharem um pacote de bolacha chegou na empresa Trakinas e Oreo que, juntas, doaram 3 mil pacotes de bolachas para Edilaine distribuir no Caximba. Somando com o que foi arrecadado pela Turma da Atitude, o saldo de bolachas ficou em torno de 5 mil pacotes. Outras marcas que colaboraram com doações foram: Cini (refrigerantes), Restaurante Bucaneiro (cachorro quente), Souza Marcelino & Santos Tavares Advogados Associados (sorvete). Todas essas doações renderam para 150 crianças.

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Edilaine contou que não consegue ficar muito tempo com as crianças na biblioteca porque falta um banheiro para elas utilizarem. Graças ao apoio dos voluntários, uma construtora se dispôs a doar a construção de um banheiro para o local. Agora, a Turma da Atitude está correndo atrás do material para que o feito seja concretizado. O próximo passo é o aumento da biblioteca, que está apertado para 40 crianças. "No verão vamos ter que fazer o projeto do ventilador, porque vai ser muito quente para acomodar todas as crianças ali", disse Andreia Oliveira.

Projeto Anjos da Semana

A Turma da Atitude, que se mobilizou para ajudar Edilaine e a Biblioteca na missão de levar mais dignidade para a vida das crianças, prepara mais um projeto: o Anjos da Semana. Com ele, qualquer pessoa poderá se voluntariar e ficar responsável por doar determinado item em um dia da semana. Assim, fica mais fácil e barato fazer com que não falte nada. "Cada dia alguém vai ficar responsável por uma doação. Um dia alguém traz o pão, no outro uma pessoa vai trazer a margarina, o suco, uma caixa com doze leites... E assim vai. Para que a ajuda não aconteça só no Natal, na Páscoa ou no Dia das Crianças. Precisamos de ajuda todos os dias. Nas datas especiais todo mundo lembra, mas e o resto do ano fica como?”, questionou Yara. Para Andreia Oliveira, veterinária que se engajou com a ação e também é membro da Turma da Atitude, esse método ajuda porque faz a doação ficar mais barata e fácil, para muitos voluntários possam participar. “Isso mobiliza tanto a gente que até a minha filha doou a casinha de brinquedos dela depois de conhecer essas crianças. Ela me disse que eu podia trazer, que não precisava mais brincar com ela”, conta orgulhosa.

Como ajudar?

Se quiser conhecer mais e fazer parte desta iniciativa, você pode acessar e colaborar com a iniciativa.

Turma do Atitude no Facebook | Amigos do Caximba no Facebook

Ou entrar em contato pelos telefones: (41) 7400-1909 – Yara | (41) 9764-1396 – Edilaine.

Fotos: Priscilla Fontes