Testemunha tentou evitar que Carli Filho dirigisse; “estava trançando as pernas”

Jordana Martinez


Fernando Garcel e Jordana Martinez

Cinco mulheres e dois homens vão decidir se o ex-deputado Fernando Ribas Carli Filho assumiu, ou não, o risco de matar ao conduzir um Passat blindado a mais 160 km/h, com a carteira cassada, depois de ingerir quatro garrafas de vinho junto com amigos.

Os jurados foram selecionados entre 45 cidadãos. A identidade é protegida pela Justiça.

A primeira testemunha a ser ouvida foi o médico e amigo de Carli Filho Eduardo Míssel, que bebeu com Carli Filho na noite do acidente. Segundo a testemunha, ele e a namorada tomaram quatro garrafas de vinho naquela noite e o réu se sentou juntou e acompanhou na bebida. Eduardo contou que chegou a oferecer carona para o ex-deputado.

“Ele aceitou a carona. Inicialmente o Fernando e Daniela entraram no meu carro, mas depois ele mudou de ideia. Perguntei se ele queria ir com a gente como tínhamos combinado e ele disse que não”, conta a testemunha.

Outra testemunha indicada pela defesa, o médico José Antônio Maingue, presidente da Associação Paranaense de Neurocirurgia,  foi o segundo a falar. Ele atendeu o ex-deputado e descreveu a gravidade das “múltiplas fraturas” e sequelas deixadas pelo acidente.

“Foi [para São Paulo] para continuar o tratamento de reconstrução de face. Na parte de crânio, ele estava bem. Na face, ele estava bastante comprometido”, disse.

Em resposta, o procurador comparou as cicatrizes dele com o que sobrou das vítimas; “Não olhei pra não gorfar”, desabafou.

Altevir Gonçalves dos Santos Reprodução Band Curitiba
Altevir Gonçalves dos Santos
Reprodução Band Curitiba

“Trançando as pernas”

A terceira testemunha, Altevir Gonçalves dos Santos, que trabalhava no restaurante, descreveu o estado em que Carli Filho deixou o local: “Ele saiu de uma maneira meio brusca, com as pernas trançando. Aquilo chamou a minha atenção. Ele subiu [para o estacionamento] acompanhado do casal”.

Carli teria entrado no carro dos amigos para pegar carona, mas saiu no último segundo, entrou no próprio carro e acelerou.

“Ele saltou do carro [do casal]. Ficou segundos. Ele é um rapaz forte, eu tentei segurar ele”, relatou a testemunha, afirmando que orientou que Carli se acalmasse e não dirigisse. “Eu fiz de tudo. Estou sendo sincero. Mas infelizmente ele não…”, desabafou.

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Mais de 160 Km/h

A defesa de Carli Filho interrompeu o pronunciamento do Ministério Público quando o procurador Marcelo Balzer falou sobre a velocidade em que o réu dirigia; pelo menos 160 Km/h, segundo as investigações.

“Em momento algum, o laudo da defesa atestou a velocidade. O laudo da defesa questiona que a perícia feita pelo Instituto de Criminalística não leva em consideração nenhuma técnica reconhecida por órgãos do País”, argumentou.

Leandro Lopes Ribeiro Reprodução Band Curitiba
Leandro Lopes Ribeiro
Reprodução Band Curitiba

Carro saiu 1,5m do chão

Uma das testemunhas consideradas mais importantes, Leandro Lopes Ribeiro, viu o momento em que o acidente aconteceu.

“No local, o carro estava esmagado. Eu vi o pedaço do crânio de uma das vítimas””, conta.”

Questionado pelo MP sobre a altura que ele estima que o carro de Carli Filho saiu do chão, a testemunha ocular disse que seria cerca de 1,5 m.

A quinta testemunha, Yuri da Cunha, esteve no local do acidente minutos após a colisão. “Pouco antes de chegar na esquina, eu ouvi o estrondo”, conta.
A defesa de Carli Filho sustenta que a culpa do acidente foi das vítimas: “Eles teriam furado a preferencial… Eles [as vítimas] não pararam. [O Honda Fit] segurou e entrou”, declarou a testemunha ao ser questionado pelos advogados do ex-deputado.

Perito

O perito Ventura Raphael Martello Filho afirmou, em depoimento, que foi impossível precisar a velocidade do carro dirigido pelo réu.

“É muito difícil estimar a velocidade… a deformação dos veículos, tudo isso é levado em consideração… O Passat passou com sua parte mais resistente na parte mais frágil da Honda Fit. Nenhum dos métodos que a gente conhece teria condição de ser aplicado nesse caso. Tem método baseado na frenagem, no dano ao pedestre, na deformação… O método foi muito precário nesse caso. Eles evoluíram de uma forma indeterminada. A gente não tinha os elementos necessários para fazer um método preciso”, explicou.

Relembre o caso

Na madrugada do dia 7 de maio de 2009, Carli Filho dirigia a pelo menos 160 Km/h com a carteira de motorista cassada. O carro, um Passat blindado, decolou do asfalto e arrancou o teto do Honda Fit de Gilmar Rafael Yared e Carlos Murilo, que morreram antes da chegada do socorro. O ex-deputado foi levado para o hospital com um quadro grave e instável, ficou na UTI, respirando por aparelhos. Ainda no hospital, um exame indicou que Carli Filho tinha 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue. Por ter sido feito sem consentimento, a defesa conseguiu que o teste fosse desconsiderado como prova.  Uma perícia contratada pela família de uma das vítimas afirma que as câmeras de segurança do local do acidente foram adulteradas.

Carli Filho foi eleito deputado em 2006, com 46 mil votos, quando tinha 23 anos de idade. Recebeu mais de 46 mil votos, cerca de 37 mil deles na cidade onde o pai era prefeito. Se for condenado por duplo homicídio, a pena pode chegar a 30 anos de prisão.

 

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Jordana Martinez
Profissional multimídia com passagens pela Tv Band Curitiba, RPC, Rede Massa, RicTv, rádio CBNCuritiba e BandNewsCuritiba. Hoje é editora-chefe do Paraná Portal.