Violência sexual atinge quase duas crianças por dia em Curitiba; Boqueirão é o bairro com mais casos

Daiane Andrade - BandNews FM Curitiba

 

Amanhã (18) é o Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e a data não poderia ser mais relevante. Dados divulgados pelo Ministério Público do Paraná mostram que somente em Curitiba, 599 casos de violência sexual contra menores de idade foram registrados ao longo do ano passado nas 10 regionais da cidade. O número leva a uma média de quase dois episódios por dia, ou um a cada 14 horas e 30 minutos.

Vítimas, muitos desses meninos e meninas da capital são levados ao Hospital Pequeno Príncipe, que constata uma triste realidade: na maioria dos casos atendidos por lá, os agressores estão dentro da própria família. Quem explica é a pediatra Maria Cristina da Silveira, que coordena esse tipo de atendimento na instituição. “Em questão da violência contra crianças e adolescentes em 2018, nós atendemos 586 casos, desses 56%,ou seja, 324 foram de violência sexual. Os outros casos foram por outros motivos, violência física, intoxicação, negligência, violência psicológica. A nossa média é de mais de uma criança por dia vítima de violência. No caso de violência sexual contra crianças e adolescentes, o agressor teme a denúncia e por isso faz de tudo para que isso não aconteça. Nesses casos, o abuso começa por ato libidinoso, a conquista da criança, da confiança para chegar à violência em si”, diz ela.

O alerta vale principalmente em relação a crianças com até sete anos de idade, que dificilmente entendem as figuras de linguagem do mundo dos adultos. São meninos e meninas muito jovens, que encaram a figura do monstro, por exemplo, como um ser fantasioso, e não – em uma concepção mais simples – como uma pessoa má.”
Dessas crianças, em torno de 324 vítimas de violência sexual, 66% são com idades abaixo de 6 anos. A gente tem vários casos, os mais recentes, por exemplo, em questão de violência física, a menor criança que nós tivemos em 2018 teve 10 dias. Em 2018 em relação a menor criança vítima de violência sexual, foi de 3 meses. É assustador. A baixa idade das vítimas em relação a violência sexual, dependendo da idade pode levar a óbito ou doenças transmissíveis. E desse total de crianças vítimas de violência sexual, em torno de 76% são meninas e o restante são meninos”, conta.


Eduardo Simões Monteiro é promotor de Justiça e tem lidado com o assunto na região do bairro Boqueirão, a mais vulnerável da cidade. Ao todo, 76 casos de violência contra menores de idade foram registrados em 2018 nessa porção da cidade e, por isso, o MP lançou nesta semana a Liga Boqueirão de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. A ideia da iniciativa é dar total suporte às vítimas e às famílias com 16 ações integradas inspiradas no universo dos super-heróis.”Nosso trabalho começou quando começou a edição da Lei 13.431, que é uma lei muito importante porque traz para o sistema da justiça e da sociedade, todo o trabalho que deve ser feito na área da violência, seja enfrentado de maneira multidisciplinar. Nós temos que analisar a violência seja na perspectiva da prevenção ou proteção daquela vítima que já sofreu agressão e também na punição do agressor. Nós temos que nos irmanar para que essa lei seja surta os seus efeitos. Então, nós criamos um espaço, um tempo para discutir esse tema e tirarmos o tabu e estabelecermos uma cultura de trabalho e uma mentalidade de conscientização”.

Com algumas ações já em andamento, a Liga foi pensada a partir de eixos que incluem aspectos como protagonismo, prevenção, atenção e pesquisa e comunicação, entre outras coisas. Monteiro também fala das pesquisas que revelam que apenas 10% dos casos são descobertos e denunciados. “Primeiro, há uma destruição da figura de proteção ou do vínculo de confiança, onde uma pessoa de confiança produziu uma dor nessa criança ou na adolescência. Toda uma vida posterior pode ser comprometida. Todo o romanismo, o ato de criar filho, pode ser comprometido. Muitas dessas crianças e adolescentes perde o ponto de referência da sua infância, e pode levar isso para toda vida”, explica ela.

Em relação às crianças muito jovens, que ainda não sabem se comunicar verbalmente, cabe às pessoas mais próximas observar mudanças de comportamento, marcas pelo corpo ou indícios de agressão. ”

Por causa dos traços de crueldade, essas marcas, na primeira infância, só podem ser revertidas com investimento na recuperação social e psíquica da vítima.

Além de integrar a Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em Situação de Risco para a Violência, o Pequeno Príncipe também realiza, há 13 anos, a “Campanha Pra Toda Vida – A violência não pode marcar o futuro das crianças e adolescentes”. A iniciativa busca reforçar a ideia de que o cuidado e a proteção das crianças e adolescentes são responsabilidade de toda a sociedade, e que, juntas, as pessoas podem transformar a vida de cada um deles.

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