A escolhida!

João Marcos

Espiando o tempo, eu ainda menino, lembro bem quando uma triste notícia estarreceu a cidade. Chovia muito, copiosamente, a água barrenta rolava com força pelas ruas, levando o cascalho que era o asfalto de antigamente. O vento assustador vergava as árvores e fazia parceria com os raios e trovoadas. “Santa Bárbara”! Dizia-se baixinho a cada relâmpago, pedindo proteção à santa! Também era costume da época queimar as folhas secas, bentas no Domingo de Ramos, uma simpatia para espantar as tempestades. Dava certo, depois de algum tempo a tempestade passava…

Muitos ritos, mitos e crenças de outrora hoje já não existem mais.
Depois que o temporal passou, muita gente saiu de casa para ver o Rio Monjolo que serpenteia a cidade, sempre com suas águas calmas e mansas, mas depois da tempestade ainda mostrava a fúria do temporal! Estava caudaloso, barrento, ligeiro e saia do seu leito em muitos lugares…
Foi nesta hora que a pequena Leni escorregou na ponte, uma pinguela que por estar molhada estava muito lisa e fora tragada pelo rio. Meu Deus! Que fatalidade!
A notícia rapidamente se espalhou e chocou os habitantes da velha Palmeira. Uma tristeza só!

Morávamos na mesma rua, algumas casas abaixo. E o rio, mais abaixo um pouco. A Leni era filha única da professora Nadí Pádua Cortadello e do seu José (Beppe) Cortadello, casal muito querido e estimado por todos. Ela, minha professora do terceiro ano primário.
O tempo passou e o casal num gesto de fé, amor e caridade, foi ao orfanato adotar uma criança. Queriam uma menina. Entre algumas que ali se encontravam, chamou a atenção no fundo da sala um pequenino bebê, recém-nascido que de tão fraco mal tinha forças para chorar. Era uma menina. Imediatamente a bondosa professora escolheu-a para ser sua filha.

– Esta não, dona Nadí. Ela não vai sobreviver. A senhora já perdeu uma filha, ela não vai resistir. Foi achada numa lata de lixo esta manhã, está com hipotermia e mal consegue respirar.
– É esta mesma! Nossa nova filha! Vou levá-la e vai se chamar Josí! – Junção dos nomes de seus pais José e Nadí.


Com o amor de mãe, coração bondoso e dedicação exclusiva, a querida professora foi cuidando daquele pedacinho de gente. Semanalmente, levava a pequeninha ao pediatra em Curitiba no Dr. Álvaro Pinto que por coincidência fora meu pediatra também. O tempo passou e a pequenina criança sobreviveu, vencendo a morte.
Quando a Josí completou 12 anos, a bondosa professora pensou em voltar a morar em Curitiba com medo que ela descobrisse que era filha adotiva. Por capricho do destino, uma amiga da família já havia lhe contado, entretanto ela nunca comentou com seus pais, guardou para si o segredo da sua história e a guardou em seu coração com imensa gratidão e amor pelo nobre gesto da adoção e o dom da vida!

O tempo passou… o seu Beppe e a professora Nadí ficaram muito doentes. A Josí agora morando em Ponta Grossa, mudou-se para Palmeira. Largou os estudos e e o trabalho para em tempo integral cuidar e amparar os seus pais, que jamais souberam que a Josí sabia que era filha adotiva, assim como a Josí nunca soube quem foi sua mãe biológica.
No leito, em seus momentos finais aqui neste plano, a estimada professora se despedia da vida de mãos dadas com a filha Josí, que com os olhos mareados de amor e gratidão disse as últimas palavras que a professora Nadí escutara: – Muito obrigada por ter sido a minha mãe!
Esta é a história de vida da Josí de Fátima Pádua Cortadello, publicitária e radialista, casada com Elevir Ramos de Lima, mãe de um casal de filhos e avó de 4 netas.

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