A mala…

João Marcos

Dias atrás o João Paulo, como tem feito periodicamente para nosso deleite, postou mais uma de suas obras no Facebook…
Refiro-me a um quadro que alguém seguia seu rumo, seu caminho, seu destino, como queiram… portando uma mala.
Alguém comentou que aquela cena poderia ser motivo para uma crônica… No mesmo instante lembrei de uma história que ouvira nos tempos de juventude. Um fato que tinha tudo a ver com a dita cuja. A mala.

Chegando em Palmeira, procurei pelo Kamal Cury para que me contasse mais amiúde a história em que a mala era a coadjuvante do protagonista.
Há 52 anos, começo da década de 1960, três jovens amigos: Kamal Cury, Ildemar Machado e Valdir Teixeira de Paula, com mais ou menos 14 anos de idade, resolveram ganhar a vida em São Paulo. A ideia era cantar na Praça da Sé e descolar algum dinheiro. Quem sabe até ficar rico. Bastante gente pela praça, um pouco que cada um colaborasse, no fim do dia dava um montão de dinheiro. Sonho de adolescente. Do sonho à realidade. Pelo menos parcialmente.
Planejamento feito. Arrumar o dinheiro para a viagem. Tudo certo. Pouco dinheiro mas o suficiente, na estica, para chegar na capital dos paulistas e dos paulistanos.

A aventura começava…Obviamente, sem o consentimento dos pais. Fugiram!
Embarcaram no trem e seguiram viagem que levaria mais ou menos quatro dias . O trem das 15 h chegava pontualmente as 16 h. Cada um foi para a estação ferroviária por um trajeto diferente, para não levantar suspeita. Estava no planejamento. Kamal, o mais velho e mentor da ideia, carregaria a mala.
Embarcaram na Maria Fumaça levando a mala e um vagão de sonhos… Cantar em Sampa!

Ficariam na casa da senhora Lhanda Namur, tia do Kamal. Claro que ela não sabia que hospedaria os três jovens cantores. O Kamal tinha anotado o seu endereço. Pegara em uma carta onde constava o nome da remetente.
Na estação do Cará-Cará, um senhor que estava no mesmo vagão observava os jovens. Aproximou-se e escutou mais ou menos o que falavam…
Em Ponta Grossa, o trem parou para o embarque e desembarque de passageiros. Imediatamente aquele senhor avisou o picotador de bilhetes sobre os três fugitivos…
O telegrafista avisou a estação de Castro:


– Atenção! Muita atenção! Avisem a polícia! No terceiro vagão há três passageiros que são fugitivos. Carregam uma mala. São jovens. Mas todo o cuidado é pouco…

Assim que a locomotiva parou em Castro, a polícia entrou no vagão e deu voz de prisão aos fujões:

– Mãos para cima! Vocês estão presos! Abram a mala! O que tem aí?

E com o dedo em riste, o sargento mandou o Kamal abrir a mala.
A expectativa era grande. Os passageiros curiosamente acompanhavam a abordagem.

– Ligeiro! O que tem aí? O que roubaram? Rápido!

O suspense era grande. Com tantos olhares, o Kamal constrangido, abriu a mala.
Para surpresa de todos a mala estava cheia de pão e bananas…
Aliviado, o sargento fez o interrogatório ali mesmo:

– Qual a explicação?

– Seu sargento, esta é a comida que temos até chegar em São Paulo. O senhor acha que dá?

A viagem terminou ali mesmo. Da delegacia de polícia ligaram para o Sr. Ernani Machado, pai do Ildemar, que foi buscar os cantores fugitivos ou os fugitivos cantores.

O Ildemar já nos deixou e o Kamal canta no coral de Palmeira. O Valdir é o vocalista da banda Túnel do Tempo.

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