A vida é uma arte de encontros…

João Marcos

Vinícius de Morais imortalizou a frase: “A vida é uma arte de encontros embora haja tantos desencontros pela vida”… Sim, os desencontros são tantos, são muitos.
Entretanto, até as pedras se encontram…
As pedras se encontram? Ditado popular para alguém expressar a outrem, o desejo de um reencontro. Se até as pedras se encontram, por que nós, não? Seria um conforto para a esperança? Quiçá!

Um dia de calor escaldante, desci pela secular Estrada da Graciosa, na Serra do Mar, que interliga Curitiba às cidades de Antonina e Morretes, litorais do nosso Paraná. Fui engolindo a brisa fresca, namorando as flores, encantando os olhos com a velha estrada de curvas sinuosas, que serpenteiam um corpo de mulher e uma ferradura, que a engenharia viária concluiu em 1873.

O cantar dos passarinhos multicoloridos faziam a trilha sonora do passeio. Aprendi com meu finado pai, a calibrar os olhos e os ouvidos para enxergar o que os olhos viam e o que os ouvidos escutavam! Uma parada obrigatória nos mirantes que adoçavam a paisagem paradisíaca que até dava vontade de poetar…
Rever Morretes, terra natal dos meus ancestrais, rever também um pedaço da minha infância que por lá passei. Traçar o barreado, admirar as casas seculares, algumas com jardins no telhado que o próprio tempo semeou, a galeria de artes do querido Mirtillo Trombini, as árvores frondosas sombreando a calçada com suas flores ao chão, aquarelando o maravilhoso cenário…

Quase no final da serra onde há uma ponte de ferro, parei o carro. Muitos outros já estavam alí estacionados. Embaixo, o Rio Mãe Catira… Mais adiante ele se une ao Rio São Joãozinho e formam o majestoso Rio Nhundiaquara (com pedras roliças e águas geladas) que enfeitava a paisagem e se ofertava para refrescar os pés de quem quisesse.Testemunho do aprazível trajeto, o monumental Pico do Marumbi!
Uma criança saiu de dentro de mim e fui sentir aquela água límpida que confortava os pés, presenteando também todo o corpo, com a energia da água naturalmente depurada. Desfrutar a natureza líquida a entrar pelos calcanhares e refrescar todos os poros, até as pontas dos cabelos… O ar serrano completava o momento se não fosse um tombo que levei ao pular uma pedra. Fiquei com a perna direita mais esfolada que joelho de freira na semana santa…


Reparei um pouco adiante, aquele homem de cabelos brancos, calças dobradas até as panturrilhas, pele marcada pelo sol e pelo tempo…
Chamou-me a atenção a compenetração daquele senhor que fitava pensativamente algumas pedras, parecendo conversar com elas.
Aproximei-me devagarzinho… queria entender aquela interação, a fala abstrata daquele homem com o mundo mineral: a pedra. Ou melhor, as pedras. Pois, eram duas que tinham a mesma forma, simetricamente lapidadas por rolarem o rio e pararem ali mesmo. Naquele lugar que até pareciam estar descansando para seguirem viagem…

Com a voz pausada, pigarreando, um pouco rouco, seus olhos mostravam que as lágrimas desciam pela face assim como o rio descia a serra…
Fitou-me e disse:

– Sabe, se eu lhe contar não vai acreditar.

E sem que eu perguntasse foi falando:

– Há mais ou menos uns 40 anos, rio acima, minha saudosa mulher e eu esculpimos nossos nomes cada um em uma pedra. Ali fizemos juras apaixonadas e dissemos que nosso amor, igual as pedras, deveriam durar para sempre. Veja aí que coisa! As duas pedras ali! Juntas… Nossos nomes cravados nelas.

Exclamei:

– Cruz-credo! Estou impressionado! As pedras teriam rolado o rio e se encontrado?

Você aí que espera um encontro ou um reencontro, não desanime! Pode acontecer! Mas, talvez tenha que esperar uns 40 anos… Afinal, a vida é uma arte de encontros, embora haja tantos desencontros pela vida…
Enfim, até as pedras se encontram!

Leia a crônica de número 100, publicada aqui no blog: E agora?
Leia a primeira crônica publicada do blog: Mundo cão
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