Estão voltando as flores…

João Marcos

Eu era menino e de vez em quando, aos sábados antes do almoço , ia com meu tio Marcos e alguns dos seus amigos até o Haras Valente em Porto Amazonas-PR.
O “Valente”, nada tinha a ver com valentia. Vinha do sobrenome do seu proprietário, o Sr. Luiz Gurgel do Amaral Valente.
Sempre uísque chique, linguicinha com pão que o Borges assava, acompanhados de muita prosa, contos, causos e risos…
O Sr. Luiz era um exímio atirador com revólver, tanto é que tinha um stand de tiros feito para a prática do esporte. Não errava o alvo. E dá-lhe bala!
Anexo ao stand, dentro de uma das cocheiras havia uma rinha (local próprio para a briga de galos) tipo como é hoje nas lutas do MMA. Era normal, cultura da época, considerada um esporte até ser proibida pelo Presidente da República, Sr. Jânio Quadros. Felizmente!

Sempre junto com o Sr. Luiz, estava seu sobrinho Paulo, chamado de Paulinho carinhosamente pelo tio. Moço muito doentio. A tuberculose quase lhe ceifara a vida se não fosse o seu tio Luiz tê-lo trazido do Rio de Janeiro para tratamento de saúde e tentar a sua recuperação. As noites cariocas foram as responsáveis pela instalação da doença, haja vista que o Paulinho era um inveterado boêmio.
De quando em quando, o Paulinho vinha para Palmeira, de caminhão junto com o Borges, na IREM, pegar maravalha ou serragem para as baias dos cavalos. Por aqui fez muitos amigos, hoje todos no andar de cima.
Tinha uma mulher lindíssima, diziam os funcionários do haras, entretanto ela nunca aparecia. Era uma loira dos pampas argentinos segundo contavam.
Em desabafo, depois de muito uísque, o seu Luiz contou que a doença do sobrinho era muito grave, que não tinha esperança na sua recuperação. Na verdade, o próprio Paulinho estava desiludido. Pelas manhãs, quando abria as janelas do seu quarto, comentava que não iria mais ouvir o trinar dos pássaros, o gorjeio dos sabiás, o trotar dos cavalos, o murmúrio do Rio Iguaçu, as nuvens galopando no céu e as flores desabrochando!
O tempo foi passando e a saúde se restabelecendo…

Numa manhã de sol e uma brisa amena, ao abrir as janelas do quarto, olhou as flores desabrochando. Era primavera! Respirou fundo e uma energia percorreu todo o seu corpo. Sentiu pulsar a vida! A esperança em viver lhe invadira! Diante desta cena, escreveu a música “Voltando as flores”, uma das mais lindas canções do repertório musical brasileiro. Para mim, esta música é o símbolo universal da esperança! Vale conferir no YouTube, nas vozes de Miltinho, Helena de Lima, Dalva de Oliveira, Simone, Emilio Santiago entre outros…
Saúde refeita, voltou ao Rio de Janeiro e montou uma das melhores e famosas boates de Copacabana, a “Zum Zum”! Nome que escolhera e música que compusera para homenagear um amigo que não fora a um encontro marcado porque falecera. “Zum, zum, zum, tá faltando um…” marcha de muito sucesso, gravada também por muitos cantores.
O Paulinho Soledade foi parceiro musical de Vinicius de Moraes,
Marino Pinto, Fernando Lobo, Edu Lobo entre outros nomes famosos da Bossa Nova e da Música Popular Brasileira!
Tive a felicidade de visitá-lo nesta boate e entre abraços e recordações de outrora, salgamos com lágrimas da saudade algumas doses de uísque.

OBS.: Segue abaixo a letra da música do Paulinho! Paulinho Soledade! Paulo Valente Gurgel do Amaral Soledade!


Vê, estão voltando as flores
Vê, nessa manhã tão linda
Vê, como é bonita a vida
Vê, há esperança ainda
Vê, as nuvens vão passando
Vê, um novo céu se abrindo
Vê, o sol iluminando
Por onde nós vamos indo
Por onde nós vamos indo

Leia a crônica de número 100, publicada aqui no blog: E agora?
Leia a primeira crônica publicada do blog: Mundo cão
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