FELIZES PARA SEMPRE

João Marcos


Nesta última terça-feira, resolvi procurar pelas protagonistas da última crônica, Rute e Rita Maria. Não foi difícil encontrá-las. Em tempos de internet tudo se agiliza rapidamente.
Moram no bairro Cabral em Curitiba, perto da Faculdade de Agronomia e Veterinária, hoje setor de Ciências Agrárias da UFPR.
Combinamos que a visita seria na quinta-feira à tardinha. Fui pra lá carregado de curiosidade. Para presenteá-las, levei um queijo do Cherobim e alguns pacotes das bolachas Jonker, especiarias imperdíveis da Cidade Clima do Brasil!

Fui recebido com efusivos abraços e algumas lágrimas que o tempo e as lembranças salgam para temperar a felicidade.
Logo na entrada da casa, duas ikebanas energizavam o ambiente muito agradável. Alguns quadros dos irmãos pintores conterrâneos, Ivonei e Ivonel Margraf, na parede do lado direito. Na esquerda, as telas requintadas de glamour da Astrid Jonker Schiochet e do João Paulo Leão Santos.
Chamou-me a atenção e achei muito interessante na parede estreita que vai da sala para a cozinha, no sentido vertical, um entalhe em madeira de uma ovelha, obra do artista Hélber Fernandes Schroeder, também um lindo trabalho em pirografia de um poema de Angel Popovitz e outro do poeta do berrante, Sinval Silveira Pinto. Achei incrível e fiquei muito surpreso com o que que vi e com certeza vou copiar esta ideia. Sobre o balcão, dois livros sobrepostos. O “Carroções”, do escritor e historiador Arnaldo Monteiro Bach e o meu segundo livro, “Palmeira: Crônicas, Poesia e Arte”. Fiquei pra lá de faceiro.

Pelas artes na sala, a certeza e as lembranças da época que viveram por lá. Pedacinhos do passado as faziam lembrar do tempo de outrora, de uma fase de suas vidas, do começo de tudo.
Entre um cafezinho e outro a campainha tocou. Era a van escolar que trazia seus filhos que chegavam da escola. Um casal de gêmeos que adotaram. Filhos gerados do coração das amigas, aliás, uma atitude a ser seguida por alguns moralistas de plantão. O amor, a solidariedade e outros adjetivos pertinentes são significados de uma ação, uma atitude de humanidade. Exemplos práticos que fazem a vida tomar vida!

Entre vários assuntos, não poderia ficar de fora o caso do preconceito que sofreram aquele dia pelos senhores ilibados do clube palmeirense. Um verdadeiro bullying que até hoje se estende nos nossos dias. Vivemos a crueldade das diferenças e isto nos torna indiferentes, por isso as pessoas mergulham no ódio e na intolerância. Deveríamos respeitar a escolha e o direito do outro. É certo que muita coisa mudou. Hoje não causa mais espanto a homoafetividade, sinal de evolução e de compreensão. Nada é imoral quando o comportamento se ajusta ao ambiente. Os excessos são inoportunos, sejam quais forem, desde o falar muito alto, o grude com o celular, o alcoolismo, as drogas, a escolaridade baixa, a segurança insegura, a saúde doente, a justiça injusta, e por aí vai… Radiografia lamentável do nosso país. Assistimos todos os dias nos noticiários muitos casos de pedofilia, homofobia, feminicídio, xenofobia, antissemitismo, racismo e mais um monte de crimes horrendos e hediondos. Perdemos o senso e o consenso. Onde está a ética? A moral? A educação e os bons costumes? Naufragaram no lamaçal da corrupção. Um horror.

Me perguntaram como estavam seus algozes moralistas. Falei que foi uma das grandes lições que receberam, pois a culpa se instalou em todos. Menos em um que era radical ao extremo. Os extremos nunca são bons mesmo.
Por coincidência ou capricho da vida, estive tempos atrás com o “extremista” e conversávamos sobre este mesmo assunto. Ele parecia mais radical ainda, quando lhe perguntei por suposição:

– O que você faria se sofresse um acidente de carro, fosse muito mal ao hospital precisando de uma cirurgia de emergência devido ao trauma e a hemorragia, só tivesse alguns minutos de vida e ainda soubesse que o cirurgião era gay? Literalmente sua vida estava nas mãos dele!! E fitando o horizonte com um olhar reflexivo me respondeu:
– Eu estava enganado mesmo!!Abaixo o preconceito! Realmente o que importa é o caráter. Se algum dia você encontrar com aquelas moças, por favor diga-lhes que peço desculpas.
– Ainda não terminei, amigo! E depois ainda você ficasse sabendo que o sangue da sua transfusão que salvara sua vida foi doação de um gay?!

Ambas vivem muito felizes e fazem um lindo trabalho voluntário. Uma no Hospital Pequeno Príncipe e outra no Pequeno Cotolengo. Muitos falam mas poucos fazem! Sigamos este lindo exemplo de solidariedade e amor ao próximo!
A história termina aqui, agora com a afirmativa que todos foram felizes para sempre!

P.S.: Escrevi esta crônica dando continuidade à crônica anterior, atendendo inúmeros pedidos de muitos amigos leitores, aos quais agradeço pela sugestão e carinho! Muito obrigado!

Crônicas recomendadas: Infelizes para sempre ; Um fim de tarde de dezembro…
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