Hoje é domingo

João Marcos

Domingo, dia 10, nosso blog Crônica das Sextas completa 2 anos no Paraná Portal.
Fico muito agradecido e lisonjeado em tê- los no rol dos leitores! Sempre digo e repito “ Vocês são a tinta da minha caneta”!

 

Hoje é domingo, pede cachimbo… O cachimbo é de ouro… E por aí vai… Lembro destes versinhos desde a minha infância quando recitávamos aos nossos pais e avós, tios e tias. Penso que para mostrar nossos dotes poéticos ou literários… Ou para mostrar que éramos bons alunos, inteligentes, ou coisa assim.
Só sei que era domingo. Dia de ir à missa. Roupa e sapatos para a ocasião. Ao chegar em casa, tirar imediatamente para não sujar. A domingueira ficava velha no guarda-roupas. Tinha que ser assim, pois já havia recebido do primo Douglas e tinha que conservá-la para o irmão José Antônio. Economia de guerra.
Bons tempos!

Dia de almoçar na casa do Vô Janguito. O macarrão com frango ou com posta… Às vezes com rosbife. Ninguém fazia melhor que a Vó Aída. Inigualável! Meus neurônios do hipocampo ainda registram o aroma e o sabor daquela comida. Reunião familiar… União.
Bons tempos!


Antes do almoço, brincar com o Ignezel. A Vó Aída sempre contava suas últimas aprontações. As peraltices da época. E não eram poucas. Daí o apelido de “diabinho da Conceição”. Mais tarde, só “diabinho”. Acho que a Nossa Senhora da Conceição até gostou da exclusão.
Bons tempos!

A tia Nenê, que vinha da missa e ia para a Colônia Francesa onde morava, sempre chegava um pouco antes da hora do almoço. Lembro do olhar reprovativo da Vó Aída e da risada escondida do meu pai que achava hilária a postura e a cara de pau da hóspede voluntária, que prontamente aceitava o convite para ficar para o almoço. Tailleur azul marinho, acinturado, cabelo preso e um inseparável guarda-chuvas que deve ter levado consigo para outros almoços com São Pedro e companhia… Falava pouco, não obstante, observava muito…
Era uma figura folclórica. Um acervo familiar.
Bons tempos!

Na hora da mesa, crianças em silêncio. Hierarquia disciplinar. Para falar alguma coisa, somente com o consentimento dos pais que permitiam ou não, só com o olhar. Falava-se e entendia-se com a linguagem visual. Para quem entende um olhar, as palavras não fazem falta. Educação da época.
Bons tempos!

Terminado o almoço, sobremesa caseira. Doce de abóbora, de batata doce, laranja em calda, compota de figo ou pêssego. Tudo feito artesanalmente. Tudo produzido no quintal. Na época das uvas, a sobremesa era embaixo das videiras cultivadas com habilidade agronômica pelo Vô Janguito. O perfume e o paladar da fruta permeavam entre todos. Tenho registrado muito claros na mente, estes momentos.
Bons tempos!

Às duas da tarde, matinê. Monte de gibi nos braços para a troca.
Compravam-se alguns gibis e depois trocavam-se por outros. Olha a economia de guerra outra vez. Puro escambo.
Bons tempos!

Depois do filme, de lambuja tinha um “seriado”. Eram capítulos como as novelas de TV de hoje. Lembro do Zorro, Tarzan, Roy Rogers, Durango Kid, Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda… entre outros. Na escola, a conversa era sobre o que aconteceria no próximo capítulo. Tinha o “perigo do meio” e depois o “perigo final”, marketing muito bem feito para prender os cinéfilos de carteirinha a não perderem o próximo capitulo.
Como era bom. O tempo não tinha pressa, demorava para passar. Não existia a televisão. A diversão, era a matinê aos domingos à tarde.
O operador das máquinas era o Arturo Prevedello. Italiano da gema. Gente boa. Seu ajudante, Lauro Andreatta, vulgo Lauro Pé de Bicho. O seu Cezar, o porteiro. Austero. Sisudo. De vez em sempre, os meninos rápidos, hábeis, entravam de ratão. Sem pagar, se misturavam às cortinas e logravam o velho Cezar… Na bilheteria lembro do seu Lilo, do Costa, do seu Perota, e do Adir.
Na bomboniere, a dona Nair Ramos. Às vezes, sua irmã Alice ajudava. Amendoim com cobertura de chocolate era o meu predileto. Cinema nas terças, quintas, sábados e domingos. Mas só uma vez por semana. O rádio fazia parte do cotidiano de todas as famílias.
Bons tempos!

Mais tarde, na juventude, as tardes dançantes no Clube Palmeirense, as festas americanas na casa de alguém da turma, as férias de final de ano com a turma vinda do Rio de Janeiro, sobrinhos do Dr. Jorge e da dona Nely. Traziam na bagagem a moda carioca e a gíria cheia de bossa da época. Mas esta é outra história…
Bons tempos!

Depois da matinê, vinha o futebol. Em romaria, o pessoal saía do cinema e ia para o campo. Da JAP ou do Ipiranga. Eram os clubes de maior rivalidade esportiva. Um da elite. O outro popular. O pau comia mesmo. Dentro e fora do gramado. Outros times como o Humaitá Portuguesa, Nacional, Palmeira e o Renascença da vizinha cidade do Porto Amazonas, disputavam o campeonato local.
Final da tarde, melancolia. Final do domingo.
Na segunda feira, tudo recomeçava. Até o outro domingo…
Bons tempos!

A crônica que foi ao ar quando o blog completou 1 ano: Vereador Amadeu Mario Margraf
Leia a crônica de número 100, publicada aqui no blog: E agora?
Leia a primeira crônica publicada do blog: Mundo cão
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