Infelizes para sempre

João Marcos


Rute trabalhava em um banco em Manaus. Getúlio, seu marido, em uma multinacional. Ele falava o inglês e o espanhol com fluência. Ela, poliglota também! Eram graduados e pós-graduados em Administração de Empresas.
Separaram-se havia três meses. Conviveram em um casamento artificial por pouco mais de dois anos, entretanto, se davam bem. Se afinavam na gastronomia, livros, filmes, passeios… menos na vida amorosa.
Casal culto, religioso, sem filhos e amazonenses de berço. Ela de Parintins. Ele de Manaus.
Ela, torcedora fervorosa do Boi Caprichoso. Ele do Boi Garantido. Aliás, por alguns anos participaram dos desfiles no Bumbódromo, onde se conheceram!

Com o fim do casamento, Rute resolvera mudar radicalmente de vida. Na agência bancária em Palmeira, no Paraná, uma vaga. Não teve dúvidas e por aqui se estabeleceu. Vida nova, tudo diferente… comida, cultura, hábitos, clima e um frio desgraçado que ela nem imaginava que era tanto! Se perguntava, “por que Cidade Clima do Brasil?”, enfim, fora  bem recebida pelos colegas da agência e do povo hospitaleiro, marca registrada dos palmeirenses! Aos poucos fora se adaptando e gostando da sua nova realidade! Vida nova! Nova vida!
Alugara um apartamento, ali perto do campo do Ypiranga Futebol Clube. Às vezes, cozinhava em casa mas habitualmente almoçava no restaurante da Dona Catarina, de culinária caseira e gostosa e que ficava bem pertinho de onde morava.

Aos domingos, churrascaria Bordignon ou restaurante Girassol. Carnes assim, nunca em Manaus! Trocara os pirarucus, piraputangas, pacus, pela alcatra, maminha, costela e a picanha que fascina os carnívoros de plantão!
Nesta mesma época, chegara por aqui uma mineira daquelas de tirar o fôlego, estonteante de fato e de direito. Era arquiteta, solteira, tinha seus trinta e poucos anos. Viera com sua família.
Seu pai, aposentado da Vale do Rio Doce, escolhera a cidade por recomendação de um médico pneumologista de um sanatório de Itatiaia, região serrana do estado do Rio de Janeiro, porque sua esposa Dona Áurea, tinha uma doença pulmonar crônica.

A arquiteta, Rita Maria, tinha um gosto especial e vocacionado pela arquitetura antiga. Havia feito especialização em restauro na Itália, mais precisamente em Milão, capital da moda, terra de Armani e Versace, renomados estilistas da alta costura!
O Clube Palmeirense, a Capelinha do Senhor Bom Jesus, o Museu Municipal (onde era o Solar do Jesuíno Marcondes, casa histórica, pois ali se hospedara D.Pedro II no tempo do Brasil Império), a Coletoria Estadual, a arquibancada toda de madeira do Ypiranga Futebol Clube (verdadeira obra de arte, talvez a única existente no Brasil), a casa do Sr. Moacir de Freitas com seus beirais de madeira, rendados em madeira de lei e tantos outros imóveis, fascinavam e prendiam a atenção da arquiteta!

Por não ter atividade laboral na arquitetura, dedicou-se a ensinar acordeon e piano aos jovens interessados. Tinha uma bela voz e uma paixão pela música!
Um dia, ao sair da loja do Odorico, um pequeno incidente. Sua mãe torcera o pé e caíra. Nada de grave…
Neste instante, por capricho do destino, a Rute que passava por ali ajudou a senhora a se levantar! Assim ficou conhecendo a Rita Maria e a Dona Áurea.
Passado alguns dias, a arquiteta fora ao banco para receber a aposentadoria do seu pai. Fora atendida por Rute, que perguntara por sua mãe. Rita Maria contou-lhe que sua vizinha lhe ensinara a fazer um emplasto muito milagroso, receita da Dona Fermina, praticamente a ortopedista da cidade. Santa mulher! Em poucos dias a Dona Áurea já estava completamente restabelecida!

Convidou-a para um café em sua casa como gentileza e gratidão a ajuda prestada.
Era uma tarde fria, outonal, sábado entediante e lá foi a Rute aceitar o convite. Bolinho da graxa, pão caseiro com mortadela, cuque do Wille e outras delícias mais…
Quase noitinha a Rute voltou para sua casa. Combinaram de se encontrar com mais frequência para quebrar a monotonia da vida. Assim, vários e sucessivos encontros foram selando uma forte amizade.
Numa tarde domingueira passeavam pela praça e resolveram entrar no Clube Palmeirense…
Os olhares masculinos dos frequentadores que jogavam baralho, reprovaram prontamente as duas moças ali. Quanta desfaçatez! Pediram o coquetel cuba libre. Um escândalo! A bancária e a arquiteta quebrando um paradigma e um preconceito da sociedade machista. Cultura da época!

No palco um piano. De mansinho Rita Maria começou a tocar bem baixinho, acanhada. Música finda e aplausos uníssonos dos presentes! Alegria de todos! E mais cuba libre! E a homarada, cerveja!
Esta cena se repetia duas e às vezes três vezes por semana. Quando tocava samba ou chorinho, o Rogério Pacheco ou o Juarez Fernandes davam vida à música, ao pandeiro ou ao atabaque. Aliás, exímios ritmistas! Imbatíveis!
Na verdade, o forte mesmo da pianista eram os boleros. Ah, os boleros! Para completar, a doce voz aveludada de Rita Maria embriagava o ambiente e inebriava o coração dos machões de plantão… Uma troca de olhares era visível entre as duas. Quando a música terminava, Rute baixava a cabeça, meio constrangida, tentando esconder o que já estava explícito! Combinação cósmica! Boas e intensas vibrações pairavam no ar…

Num sábado boêmio, o show se estendeu, tanto nas músicas quanto nas cubas. Já era madrugada quando se foram. Começava uma garoa, trovões e raios clareavam as ruas anunciando uma tempestade!
Apressaram os passos e com muito medo se deram as mãos. Os corações dispararam. Já estavam perto do apartamento de Rute quando o temporal despencou. Rita Maria não poderia ir para casa. Estava com medo, com frio e ensopada. Toda molhada!
Tinha que esperar a chuva passar ou dormir na casa da amiga. Afinal, eram amigas! Subiram, a camiseta ensopada de Rita Maria delineava suas curvas esculturais. Banho quente e cama. Espasmos emocionais… Dormiram de conchinha…

Quando acordaram, um pouco de ressaca, trocaram um olhar maroto! Estavam felizes! Estes encontros não precisavam mais da chuva e se tornaram constantes!
No clube, o comentário foi uníssono sobre as duas. Atitude reprovada pelos homens de bem, Íntegros, ilibados, austeros…
Na reunião da diretoria o veredito: as duas não poderiam mais frequentar o clube, em nome dos bons costumes, da ética e da moral!
Para elas a carruagem se transformou em abóboras! Muito choro e decepção. Ficaram sem chão. Mal podiam acreditar.
Combinaram de mudar de cidade, em nome da felicidade! Rute pediu transferência para a capital. Rita Maria foi junto, com a aquiescência e a bênção dos pais!

Antes de partirem deram uma passadinha no clube. Os ilustres conterrâneos, sabendo da mudança, foram até a porta e as janelas da sociedade. Seria uma despedida tipo rejeição, mas ao mesmo tempo, muita reflexão!
As duas com ares de felicidade, com profunda dor no peito, se despediram com um olhar melancólico, triste e de mãos dadas entraram no táxi do Darci em direção à rodoviária onde embarcaram para Curitiba!
O pessoal do clube fitava o piano… mudo, inerte… silêncio sepulcral… Não havia mais os chorinhos nem os boleros.

A alegria contagiante das moças, as cubas libres, as trocas dos olhares já faziam parte do passado. Uma tristeza só. Tudo perdera a graça!
A infelicidade se instalara na fisionomia e no coração dos falsos moralistas frequentadores do clube.
Estavam todos infelizes.
E foram infelizes para sempre!

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