Massa?

João Marcos

Cremilda, prima irmã do Praxedes, (aquele que ainda está na Noruega) morava na divisa do Mato Grosso com a Bolívia, em um pequeno vilarejo onde estavam instalando a luz elétrica que traria conforto aos habitantes, condicionando-os ao conforto da geladeira, forno de micro-ondas, ar condicionado, ferro de passar roupas, computador e a tão esperada televisão, que todos aguardavam com a maior ansiedade.

A voz era uníssona! Tinha que ser TV em cores, como contavam os mais viajados do lugar! Era a primeira vez que Cremilda saía de casa. Logo agora com a chegada da TV, acontecia a sua saída. Coisas do destino. Vá saber!

A moça era um pouco desengonçada e muito desajeitada. Veio ao Paraná, ver se acostumava a trabalhar como empregada doméstica. De cara, foi informada sobre a carteira de trabalho. Conquista da categoria. Ascensão profissional! Ela não entendia o porquê de ter carteira para trabalhar. E assinada…. vá entender!

Ia dormir na casa da patroa, o que dava grande vantagem pois além da cama e boa comida, da inhapa, ainda ganhava as horas extras, umdireito que a lei estaria lhe conferindo!


Tudo era estranho e novidade para a moça, que aos poucos, não ia se acostumando com os trejeitos da família e dos afazeres laborais.

Além do clima frio, o que mais a incomodava era o palavreado da turma, pois se batia muito para acostumar com a nova linguagem, que no pequeno vilarejo era tudo tão simples. Sem sinônimos, colocações verbais, singular e plural, e outros bichos da nossa complicada gramática. Para ela tudo muito confuso, pois de língua, só conhecia a “língua ensopada”( sem ervilhas e purê de batatas) naturalmente. Seus neurônios se digladiavam quando ouvia falar em “beijo de língua”. Vá entender!

Os dias se passavam e a vida ia ficando cada vez mais maçante, massiva. Era massa pra cá, massa pra lá…

Ela não entendia o porquê de tanta massa…. Atrapalhava-se com a colocação das palavras, ou melhor, da massa. No macarrão, massa de tomate. Na colocação dos azulejos, argamassa. Corrida de Fórmula 1? Felipe Massa. E para o jantar? Massa italiana com manjericão e bastante alho massa. E dá-lhe massa!

O vestido da patroa que não amassa. O crédito fácil, mais acessível à massa… O rapaz do skate, manobras radicais, “massa” pra caramba!

Era muita massa! Pobre Cremilda… não suportou mais tanta massa. Arrumou a mala, de qualquer jeito, socou toda a roupa amassandotudo, para voltar ao vilarejo, seu ponto de partida. Não aguentava mais tanta massa…

Três dias de viagem e quase 2.700 Km depois, lá estava a Cremilda, de volta pro seu aconchego! Assim que entrou em casa, toda sua família estava ligada na TV, e logo foi perguntando:

– O que estão assistindo? Que canal é este?

– É a Rede Massa de televisão!

A Cremilda desmaiou.

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