No motel…

João Marcos


Sempre às quintas-feiras, pontualmente às 19 horas, encostava na portaria do motel um corcel branco, ano 1973, hiper conservado, impecavelmente lavado e polido, com alguns acessórios modernos como os vidros fumês, por exemplo.
No volante, sempre de chapéu para esconder o rosto, um senhor com seus 80 anos, mais ou menos, diziam as funcionárias do motel.
Esta cena se repetia havia 4 anos ininterruptos. Assiduidade e pontualidade britânica.
Um capricho com a “arte”, com o carro e com a vida.

O quarto? Sempre o mesmo, reservado e pago mensalmente com antecedência. Nunca na história deste país se viu ou vai se ver um fato semelhante. Até parece um conto!
A permanência no recinto era de 4 horas. Nem um minuto a mais, nem a menos.
A curiosidade dos funcionários e de alguns frequentadores era grande, como agora é a sua, agora, que está lendo esta crônica.
Certo dia, o horário e os habituais costumes foram interrompidos, havia duas horas de atraso e o senhor ainda estava no quarto. Obviamente que todos ficaram perplexos. O que teria acontecido?
Comunicaram o fato ao gerente, que também perplexo, foi tomar as devidas providências.

Com mais duas testemunhas, num silêncio sepulcral, se dirigiram ao apartamento do misterioso cliente. Com os ouvidos na porta, escutaram um choro baixinho, que revelava um grande sentimento. Chamaram pelo senhor e nada. Ele não respondia, só os soluços se ouviam.
Não teve outra alternativa, senão avisar a polícia e com a segunda chave entrar no recinto.
Lá estava inconsolável o velho senhor, de cuecas samba canção e de meias pretas, sentado nos pés da cama com as duas mãos no rosto, molhadas pelas lágrimas. Nem sequer a cabeça levantou.
Ao seu lado, mórbida, furada, sua companheira… uma boneca inflável!

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